26 May 12 | 01:20PM
"Portugal é um caso único: há hoje coesão política e coesão social", disse o presidente do país, Aníbal Cavaco Silva, em entrevista exclusiva a Beatriz Wagner, da Rádio SBS da Austrália, respondendo a uma pergunta sobre uma possível unidade nacional da oposição do PS com o governo do PSD-PP.
Nesta longa entrevista - são quase 27 minutos, logo ao chegar a Sydney na noite de sexta-feira, o presidente Cavaco Silva começa falando do encontro positivo com a primeira-ministra australiana Julia Gillard, durante a tarde em Camberra, quando elogiou a nomeação, por parte da Austrália, de um enviado especial para os países de língua portuguesa.
"Portugal, Austrália e Indonésia devem estar juntos para apoiar Timor-Leste", diz o presidente, para quem a maior prova das boas relações entre eles foi a presença em Díli, na festa dos 10 anos da independência, dos presidentes de Portugal, da Indonésia e da Governadora-Geral da Austrália.
A impressão mais forte que traz da sua primeira visita a Timor-Leste, "como português, é a adesão à língua portuguesa no país e a ligação forte à igreja católica."
O novo presidente timorense, Taur Matan Ruak, deu a ele a melhor prova da importância do português, ao matricular os seus filhos na Escola Portuguesa de Dili.
Cavaco Silva passou frio em Camberra, aonde chegou com chuva e com temperaturas à noite até abaixo de zero, após uma Jacarta muito quente.
Mesmo com o frio, foi ao Arboretum, aonde plantou um sobreiro, "para somar aos outros três mil lá já plantados", e fez um discurso filosófico sobre um dos elos de ligação entre a Austrália e Portugal: o vinho e a rolha de cortiça.
Da proposta de Timor-Leste de investir parte do Fundo do Petróleo, o qual elogiou muito, na dívida portuguesa, alertou que deve ser feito somente se a liderança timorense considerar isso um investimento lucrativo.
"Como economista, digo que eles devem diversificar, e penso que o euro é mais seguro do que o dólar."
Mostrou-se admirado com o grande interesse asiático no processo de privatização em Portugal.
Já no caso da TAP, citou os espanhois, a Lufthansa e outros muito interessados na compra da empresa.
"É uma boa companhia e será disputada."
Esquivou-se de comentar da proposta de privatização de um dos canais da RTP: "está ainda em discussão, não é prioridade e, aqui na Austrália, não gostaria de me pronunciar."
Mágoas com a Alemanha, que foi ajudada pela Europa na reunificação após a queda do Muro de Berlim, e que talvez deveria ter outra postura na crise europeia?
Ao responder a esta pergunta, disse ter alguma saudade "do espírito de unidade, de solidariedade," da Europa do seu tempo, quando era primeiro-ministro de Portugal (1985-95), com grandes nomes como Miterrand, Kohl, Gonzalez e Dellors.
"Agora, penso, há demasiados egoísmos, talvez um pouco de excesso de nacionalismos."
Quanto aos doloroso programa de austeridade português, começou frisando que Portugal vai cumprir com todos os seus acordos e compromissos, mas que "é um erro insistir exclusivamente em políticas de austeridade: é preciso emprego e crescimento econômico."
Disse acreditar que esta sua visão, "de um reequilíbrio estratégico para combater a crise do euro", vai crescer entre os países europeus.
"Espero que a Alemanha faça políticas expansionistas."
Termina a entrevista com uma visão positiva para o futuro do país e com uma mensagem aos portugueses na Austrália: "sejam embaixadores de Portugal."
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