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Amiga de brasileira que morreu de COVID na Austrália: “Mesmo com a vida corrida, devemos ter tempo para os amigos. Eu não pude falar com a Adriana antes de ela partir”

Fernanda Batista com a amiga Adriana Midori, 39 anos, única brasileira vítima fatal da COVID-19 na Austrália. Ela morreu no dia 25 de julho de 2021 em Sydney. Source: Supplied

A professora Fernanda Batista, amiga próxima de Adriana Midori, vítima fatal da COVID-19 na Austrália, fala do luto e dos últimos dias da estudante internacional em Sydney. “No Brasil, metade da minha família pegou COVID. Aqui na Austrália, a única pessoa que eu conheço que pegou COVID foi a Adriana, e infelizmente ela faleceu”

Apesar de a vacinação contra a COVID-19 em alguns países estar avançada, as viagens internacionais estarem voltando a acontecer de forma crescente e restrições como confinamento, fechamento de estabelecimentos e limite de pessoas nos lugares estarem diminuindo e até sendo suspensos, a pandemia da COVID-19 ainda não acabou. Novos casos de infectados e de mortes por COVID continuam sendo registrados em todo o mundo.

A marca oficial de mortes no planeta em decorrência da COVID ultrapassou cinco milhões de pessoas. No Brasil, no dia 23 de novembro, já haviam sido registradas mais de 612 mil mortes, e na Austrália 1.948. Entre essas mortes, a da jovem Adriana Midori Takara, que faleceu no hospital Royal Alfred, em Sydney, no dia 25 de julho de 2021, aos 39 anos de idade, duas semanas depois de contrair o vírus, e antes de se vacinar. A morte da estudante internacional que cursava o bacharelado em contabilidade na capital de Nova Gales do Sul, NSW, chocou e comoveu a comunidade brasileira que vive na Austrália.

A professora brasileira Fernanda Batista, amiga de longa data da estudante, que mora em Sydney há 14 anos, esteve ao lado de Hélio Takara, irmão de Adriana, acompanhando os últimos dias de vida da amiga. Passados quase quatro meses da morte de Adriana, Fernanda conta que o sentimento atual é uma saudade muito grande.

Amizade de longa data

Antes de receber a notícia, através do Hélio, de que a Adriana estava hospitalizada em decorrência da COVID, e que tinha sofrido uma parada cardíaca, Fernanda conta que não via a amiga havia algum tempo, pela agenda atribulada de Adriana, de trabalho e estudos. Mas que ela era um amiga muito querida, que sempre que a Fernanda precisava, a ajudava.

As duas se conheceram em Sydney em 2007, ano em que chegaram como estudantes na Austrália, quando, segundo Fernanda, Adriana já tinha o sonho de conquistar um visto permanente no país. Fernanda lembra que ela trabalhava muito, era muito batalhadora. “Mas a mãe dela ficou doente e ela teve que voltar para o Brasil. A mãe dela faleceu e ela decidiu ficar lá com o pai.”

Fernanda conta que em 2019 foi ao Brasil para o aniversário da avó, e que sempre que ia ao país se encontrava com Adriana. Naquele ano, quando Fernanda ligou para a amiga para marcar um encontro, Adriana disse que ia tentar voltar com Fernanda para a Austrália. E foi o que ela fez. Comprou uma passagem para a mesma data do retorno de Fernanda.

Adriana com filha de Fernanda
Adriana Midori com a filha de Fernanda Batista, Ana Clara, que ela ajudou a cuidar por um período. Ana Clara considerava Adriana sua melhor amiga.
Supplied

“Ela voltou comigo e ficou na minha casa seis meses, me ajudando com a minha filha, e eu a ajudando, até ela conseguir um emprego”, explicou Fernanda. Passado esse período, Adriana foi morar no centro da cidade, onde estudava e trabalhava, e o contato das duas ficou menos frequente. Elas se viam mais em datas comemorativas, como no Natal, por exemplo.

Notícia ruim

Em julho deste ano, Fernanda estava trabalhando quando viu que tinha perdido uma chamada telefônica do Hélio, irmão da Adriana. Ela retornou a ligação e recebeu dele então a notícia de que a amiga estava hospitalizada em estado crítico após ter sofrido uma parada cardíaca.

Fernanda não sabia até então que Adriana tinha testado positivo para COVID-19. Ela conta que antes de a amiga ser hospitalizada, teve que ficar em isolamento em um hotel, assim como as outras pessoas que moravam com ela, já que uma delas estava infectada. Depois que Adriana e o namorado testaram positivo, puderam ficar no mesmo quarto de hotel. Como o quadro de Adriana começou a piorrar rapidamente, com quadro de diarreia e muito vômito, o namorado sugeriu que eles ligassem para o hospital e pedissem que ela fosse internada, pois devia estar desidratada.

O hospital então enviou uma ambulância ao hotel para buscá-la. Ela foi informada de que ficaria no hospital por um pequeno período para receber soro, e que voltaria logo ao hotel.

Agravamento do quadro

Mas ao chegar ao hospital o estado de Adriana só piorou. Após a parada cardíaca, ela foi submetida à terapia de Oxigenação por Membrana Extracorpórea (ECMO), que funciona como um pulmão e um coração artificiais. Tratamento que, segundo Fernanda, foi fundamental para manter a amiga viva naquele momento, mas que gerou complicações como coagulação do sangue.

Fernanda conta que as complicações estavam acontecendo muito rapidamente e que os médicos que estavam tratando a Adriana não tinham visto nenhum caso assim antes na Austrália. “Eles sabiam de casos semelhantes na Índia e em outros países. Como a Adriana foi infectada pela variante Delta, que tinha recém-chegado na Austrália, os médicos ainda estavam tentando decifrar o que aquela cepa do vírus poderia causar e como tartar os casos mais graves.”

Ela também relata que “os médicos tentaram tudo o que podiam, até uma hora em que não havia mais o que fazer”.

Os médicos tentaram tudo o que podiam, até uma hora em que não havia mais o que fazer.

Como o contato físico só era feito em casos de emergência ou extrema necessidade naquele que era um momento crítico de surto da variante Delta da COVID em Sydney, Fernanda diz que foi muito difícil para ela e para o Hélio manterem contato com os médicos apenas por telefone, sem poder ver quem eles eram ou mesmo entender todos os termos médicos em inglês. “Era muito complicado. Desde o primeiro dia em que a Adriana foi internada, o irmão dela não tinha visto ela nem uma vez até então. Era uma situação muito difícil.”

Fernanda chama a atenção para o fato de que a situação não era difícil apenas para os familiares e pessoas próximas dos pacientes, mas também para as equipes médicas dos hospitais. Ela conta que quando eles puderam ir até o hospital ver a Adriana, uma das médicas da equipe que estava cuidando dela chorou ao ouvir o Hélio relatar que era difícil ver a irmã naquele estado, dopada, sem nenhuma reação, sendo que ela era uma pessoa feliz e sorridente.

Despedida

Sobre a despedida da amiga, Fernanda conta que ela e o Hélio puderam ir até o hospital, depois de responder um extenso questionário e vestir as roupas e acessoórios de proteção como os dos médicos, e que foi possível ‘conversar’ com a Adriana antes de ela falecer. Oa familiares no Brasil, pai e irmãos, também puderam vê-la por vídeo chamada.

Para Fernanda, esse foi um momento muito difícil. “Principalmente acompanhar a reação da família dela no Brasil ao vê-la naquele estado e ter que se despedir dela à distância.”

Foi muito difícil acompanhar a reação da família dela no Brasil ao vê-la (por vídeo chamada) naquele estado, e ter que se despedir dela à distância.

Após a morte de Adriana, Fernanda e Hélio tiveram que lidar com questões práticas e burocráticas, como escolher funerária e encontrar uma forma para que a família pudesse dar um adeus a ela. Fernanda conta que não havia como fazer o traslado do corpo para que ela fosse sepultada no Brasil, pelo alto custo e porque as companhias aéreas não estavam fazendo esse serviço.

A decisão então foi fazer o velório de Adriana em Sydney para poucas pessoas mais próximas, e a cremação do corpo, o que tornou possível que Hélio levasse as cinzas ao Brasil e a família pudesse fazer uma despedida lá.

Ajuda e solidariedade

Fernanda destaca que ela e o Hélio receberam a ajuda da Embaixada do Brasil na Austrália, que disponibilizou advogado para verificar questões relacionadas aos direitos que Adriana tinha pelo plano de saúde dela, de estudante internacional, que não cobria despesas de funeral, ajuda na escolha da funerária e auxílio psicológico, fundamental para eles naquele momento.

Ela também ressalta que a população de brasileiros que vive na Austrália prestou solidariedade e uma grande ajuda, ao fazer doações mais do que suficientes na campanha de crowdfunding criada por Fernanda para arcar com os custos da funerária e ida do Hélio ao Brasil. “A comunidade brasileira ajudou demais. Em menos de duas horas de campanha a gente já tinha conseguido um valor maior do que a meta.”

A comunidade brasileira ajudou demais. Em menos de duas horas de campanha (de crowdfunding) a gente já tinha conseguido um valor maior do que a meta. 

Adriana Midori
Arte postada por brasileiros no Facebook em homenagem a Adriana Midori Takara, 39 anos, vítima fatal da COVID-19 em Sydney no domingo, 25 de julho de 2021.
Facebook/Gui Souza

Pessoas por trás dos números

Quando a Adriana faleceu, no próprio texto que Fernanda escreveu na descrição da campanha de crowdfunding que criou, ela disse que desde que a pandemia começou, sempre ouvimos falar em números, de casos, de vacinados, de mortes. Mas que Adriana não era apenas um número. Era uma filha, uma irmã, uma amiga.

Perguntada sobre o que acha do fato de que algumas autoridades políticas ainda tratam esse alto índice de mortes por COVID no mundo com um certo descaso, Fernanda diz que essas pessoas não devem ter perdido ninguém muito próximo ou não conhecem ninguém que tenha passado por essa situação tão difícil, e que ninguém que morreu nessa pandemia era apenas um número.

Ela também destaca que foi ainda mais difícil lidar com a morte da Adriana por COVID na Austrália, porque por um longo período os brasileiros que moram no país se sentiam mais seguros do que as pessoas que estavam no Brasil, já que lá o número de casos de de mortes foi muito maior e mais assustador.

“No Brasil, metade da minha família pegou COVID. Lá era muito mais comum as pessoas se infectarem porque o vírus circulou muito mais. Aqui na Austrália, a única pessoa que eu conheço que pegou COVID foi a Adriana, e infelizmente ela faleceu”, desabafa Fernanda.

No Brasil, metade da minha família pegou COVID. Aqui na Austrália, a única pessoa que eu conheço que pegou COVID foi a Adriana, e infelizmente ela faleceu.

Fernanda lembra que em 2020, quando vários países registravam números altíssimos de casos e de mortes por COVID, a vida na Austrália era praticamente normal. Por isso ela acha que pode ter sido mais chocante para a comunidade local de brasileiros saber da morte por COVID de uma brasileira em Sydney.  

Vacinação e movimento anti-lockdown

Ao falar de vacinação, pois Adriana não estava vacinada quando foi infectada pela COVID-19, Fernanda diz que se vacinou e que nem se preocupou com a composição da vacina, já que desde que era criança no Brasil se vacinava, e sabe da proteção que a vacina gera.

“Eu sei que mesmo vacinada posso ser infectada, mas a infecção vai ser mais fraca, e se eu transmitir para alguém, também vou transmitir algo mais fraco. Eu tomei a vacina porque acho que é certo”, opina Fernanda.

Sobre a manifestação anti-lockdown realizada nas ruas de Sydney um dia antes da morte de Adriana, que foi muito criticada nas redes sociais por vários brasileiros que vivem na cidade, enquanto lamentavam a morte da brasileira, Fernanda diz que não quer julgar ninguém, mas acredita que a medida de confinamento adotada pelo governo estadual naquele momento foi tomada para o bem da população.

“Se as pessoas que estavam lá (na manifestação anti-lockdown) acham que estavam fazendo a coisa certa e foram dormir com a consciência tranquila, tudo bem. Eu não iria. Na verdade, nem teria como ir porque estava vendo minha amiga morrer.”

Se as pessoas que estavam na manifestação (anti-lockdown) acham que estavam fazendo a coisa certa, tudo bem. Eu não iria, nem teria como ir porque estava vendo minha amiga morrer. 

Quando Fernanda fala das lembranças que a amiga deixou, ela diz que o fato de Adriana sempre ter sido batalhadora é algo que a motiva a ser assim também, além de solidária. “Ela era uma pessoa muito sorridente que ajudava os outros sempre que podia. Eu quero  lembrar disso e tentar ao máximo ajudar as pessoas da melhor maneira possível”.

Adriana Midori
Fernanda Batista sobre a amiga Adriana Midori: “Ela era uma pessoa muito sorridente que ajudava os outros sempre que podia."
Facebook

Perguntada sobre o que a pandemia gerou, além de dor e sofrimento a muita gente, Fernanda fala da importância de valorizar as pessoas queridas, principalmente os amigos que são fundamentais para aqueles que, como ela, moram longe da família. E afirma: “Por mais que a vida seja corrida, a gente deve sempre se lembrar dos amigos e ter um tempinho para falar um ‘oi’. Porque infelizmente eu não pude falar um ‘oi’ para a minha amiga e ouvir a voz dela.”

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