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Como a crónica de António Pigafetta nos leva por caminhos de imensa dor humana ao grande feito da primeira viagem ao redor do mundo

Descobrimento do Estreito de Magalhães, em 1520, pela expedição de Fernão de Magalhães, que tinha como integrante António Pigafetta. Source: AAP/MARY EVANS PICTURE LIBRARY

Gabriel García Márquez em seu discurso ao ganhar o Nobel de Literatura: "O relato de Pigafetta no breve e fascinante livro 'Relato da Primeira Viagem em Torno do Mundo' é um assombroso testemunho da realidade daqueles tempos – e é uma semente para os relatos nos romances do nosso tempo."

Gabriel Garcia Marquez iniciou o discurso em Estocolmo de aceitação do Prémio Nobel da Literatura de 1982, com todo um parágrafo dedicado a António Pigafetta. Ele é apresentado assim pelo escritor daquele realismo mágico que é 100 anos de solidão:

"Pigafetta é o navegador florentino que acompanhou Fernão de Magalhães na primeira viagem em volta do mundo" (entra aqui um parentesis –, para meio atrapalhado anotar uma imprecisão do grande Gabo – de facto deveria ter dito que a viagem foi de Magalhães mas também do basco Elcano, como o elogiado Pigafetta tão bem narra).

Acrescenta com precisão Garcia Marquez no discurso Nobel: "O relato de Pigafetta no breve e fascinante livro 'Relato da Primeira Viagem em Torno do Mundo' é um assombroso testemunho da realidade daqueles tempos – e é uma semente para os relatos nos romances do nosso tempo."

Pigafetta é um dos 240 marinheiros que em 1519 partiram da Andaluzia na expedição com 5 navios sob o comando do visionário português Fernão de Magalhães e é um dos 18 que no único navio que ficou a salvo – regressou 3 anos depois ao ponto de partida. 

A crónica por Pigafetta desses 3 anos de viagem – é uma crónica que supera a mais audaz imaginação – relata sofrimentos, rebeliões, traições, doenças, escorbuto, canibalismos, combates com tribos nativas, fome, bruxarias, povos estranhos, faunas e floras extraordinárias.

Pigafetta também contou nesse relato de há 5 séculos como aquela expedição com incríveis protagonistas, com, 2 comandantes, primeiro o português Magalhães e, depois de este ter sido morto, o basco Elcano, navegou  72 mil kms – sulcando 3 oceanos o Atlantico, o Pacifico e o Indico – circumnavegou o mundo e provou que este é redondo.

Num dia como o de hoje, na última semana de novembro, mas há exatamente 501 anos – já só restavam 3 dos 5 barcos que 15 meses antes tinham zarpado da Andaluzia

Magalhães continuava a ser o comandante, continuavam a navegar para poente, em busca das terras das especiarias, e  após 36 dias de mar de tempestade,  no estreito entre a Patagonia, sul do Chile a ilha grande da terra do Fogo, as 3 naus, a vitoria, a concepcion e a trinidad concretizavam a ambição: chegar ao Oriente por ocidente, e assim aquele ficou para sempre batizado – o estreito de Magalhães.

Seguiram por mar encrespado para o arquipélago de São Lazaro, Filipinas, e aí chegaram à ilha Moluca – o lugar onde Fernão de Magalhães foi morto, num episódio que Pigafetta descreve com fervor:  "Os índigenas lançaram-se sobre ele com espadas e machetes, usaram todas as armas que tinham e acabaram com ele, (escreve ainda Pigafetta) o nosso espelho, a nossa luz, o nosso consolo, o nosso verdadeiro guia".

O relato de Pigafetta também é uma fonte para o popular austríaco Stephem Zweig, que nos anos 30 do século passado, a viver no Brasil, escreveu as 320 páginas do livro 'Magalhães, o homem e o seu feito' (editado em Portugal pela Assírio e Alvim) em que Magalhães é definido como empreendedor e líder, minucioso ao extremo, paciente e determinado.

Zweig escreve, a partir dos relatos que procurou, que a odisseia iniciada por Magalhães e completada por Elcano é a “viagem marítima talvez mais terrível alguma vez realizada, cheia de privações e que documenta a capacidade humana de sofrimento”.

Inspira-se certamente na crónica de bordo de Pigafetta que conta por exemplo como durante 3 meses e 20 dias nunca puderam comer alimentos frescos – e esta fome por entre tempestades, escorbuto a bordo e combates com tribos indígenas quando chegavam a alguma terra.

Bem explicou nesse tempo Pedro Nunes: os nossos mareantes partiam mui ensinados e providos de instrumentos e regras de astrologia e geometria.

É assim que foi conseguida há 5 séculos a primeira volta ao mundo

O cronista Pigafetta sobreviveu a todas as tormentas para nos deixar a crónica da odisseia – que também é uma historia da capacidade humana para resistir ao sofrimento.

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