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Escritor timorense Luís Cardoso: "Lamento que Xanana não tenha ido plantar abóboras"

Source: AAP

Confira a crônica desta semana do correspondente da SBS, em Lisboa, Francisco Sena Santos.

Timor não tem tradição na literatura, seja romance ou poesia. É facto que há registo de alguns poetas, como Fernando Sylvan, Rui Cinatti e Borja da Costa [autor da letra do hino nacional de Timor-Leste], que escreveram em tétum e em português, mas muito pouco mais.

Uma dessas exceções é Luís Cardoso, nasceu em 1958 e tem vindo, desde há mais de duas décadas — a sua estreia na literatura aconteceu, em 1997, com Crónica de Uma Travessia  —, a esboçar uma espécie de cartografia literária da identidade e da memória timorense.

A este romance seguiram-se, entre outros, A Última Morte do Coronel Santiago, e Para Onde Vão os Gatos Quando Morrem?  Os livros do timorense Luís Cardoso estão traduzidos em várias línguas, como o italiano, o sueco, o inglês, o alemão e o neerlandês.  Agora, O Plantador de Abóboras é o seu sétimo romance.

A ideia para este livro ocorreu-lhe há bastante tempo, durante uma ida a Timor-Leste depois do referendo sobre a independência, em 1999. Um dia, decidiu visitar o lugar de Maubisse, a poucas dezenas de quilómetros de Díli. Nesse tempo, a antiga pousada colonial ainda estava em ruínas e Cardoso sentou-se por ali algures a olhar a paisagem. Apareceu uma mulher, que ele julgou louca, que falava sozinha dirigindo-se aos espíritos e às montanhas que ambos tinham diante.

Não sabendo se ela apenas falava porque ele ali estava, escondeu-se no interior da casa e a mulher calou-se. Tempo depois ele voltou e a mulher recomeçou o monólogo. Ele entendeu que a mulher, apesar de não falar diretamente para ele, fazia dele um ouvinte necessário. Desde então, Luís Cardoso ficou sempre com a ideia de escrever um romance inspirado no monólogo desta mulher que falava para as montanhas e para os espíritos dos antepassados. Até que, há quatro anos, decidiu começar a escrevê-lo.

Dou voz a um parágrafo da escrita neste livro:

“Em vez de procurares na cidade de Díli uma forma hábil e fácil de te enriqueceres, como fizeram todos aqueles que abandonaram as suas terras e decidiram abandonar Manu-mutin com as suas latas vazias, vieste ter comigo para me dizeres que gostarias de plantar abóboras.”

É uma espécie de “recado”, de quase diatribe, a todos aqueles que pensaram enriquecer com o petróleo do Mar de Timor.

O escritor e jornalista português José Riço Direitinho – um grande escritor, dele disse há 20 anos o Nobel José Saramago – entrevistou Luís Cardoso, a propósito deste romance, para o jornal Público.

Nesta entrevista, Luís Cardoso fala de uma personagem do livro, o “irmão extraordinário”. Ele é Xanana Gusmão.

Nesta entrevista ao Público, Luís Cardoso fala do “irmão extraordinário”, Xanana Gusmão, e relaciona-o com o título do livro, O Plantador de Abóboras:

Luís Cardoso esclarece o título e a questão das abóboras em Timor: “Tudo o que Xanana diz (cito Luís Cardoso) tem efeitos nas pessoas. Toda a gente o ouve. É como se Timor-Leste tivesse dois Estados. Um Estado de Direito, com Presidente da República, Parlamento, e Governo. E um Estado informal, que é o Xanana Gusmão. Ele tem um poder natural, as pessoas temem-no e respeitam-no.

Mesmo quando não concordam com ele continuam a baixar a cabeça [em deferência]. No imaginário dos timorenses há este sonho de cada um ter uma horta onde possa plantar abóboras, que as possam ver crescer e que depois as possam comer. Da abóbora come-se tudo, até as flores, e os rebentos das plantas, em refogado. É a ideia de se comer o fruto do trabalho.

Quando Xanana Gusmão disse isso eu fiquei encantado, aquela era uma forma de dizer ao povo que podemos produzir no país para comermos, em vez de estarmos à sombra das bananeiras. Vamos nós produzir. Mas depois de o Xanana ter dito isso, não cumpriu o que prometeu.

É mais fácil gerir o dinheiro do petróleo do que viver do produto da agricultura e do trabalho. Ele deu o exemplo. Muitas pessoas acabaram a pensar que o melhor seria levarem também as latas vazias para encherem com petróleo.

Obviamente, nada tenho de pessoal contra ele. Mas foi pena que o Xanana não tivesse ido plantar abóboras para as montanhas. Ele seria, neste momento, uma figura moral em Timor, que se poderia impor fora da política. Haveria um maior sentimento de unidade e de respeito à volta dele.

Como aconteceu com Nelson Mandela, por exemplo, que depois da política passou a estar na retaguarda. Por tudo isto, lamento que o Xanana não tivesse ido plantar abóboras.”

É o sentimento de Luís Cardoso, raro escritor de Timor Leste, sentimento expresso em entrevista ao jornal Público.

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