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Relembrando Renan Antunes de Oliveira, ex-correspondente no Brasil do Programa em Português da Rádio SBS da Austrália

Renan Antunes de Oliveira, correspondente da SBS no Brasil entre 2009 e 2013. Source: Supplied

Consagrado jornalista que foi o correspondente no Brasil da SBS em Português, entre 2009 e 2013, morreu em Florianópolis, Brasil, aos 70 anos.

Foi com muita tristeza e pesar que soubemos da morte do jornalista Renan Antunes de Oliveira, aos 70 anos, em Florianópolis, no Brasil, de parada cardíaca, no dia 19 de abril - em plena pandemia do coronavírus.

Renan foi correspondente no Brasil do Programa em Português da Rádio SBS da Austrália, entre 2009 e 2013, enviando boletins semanais.

Repórter consagrado, Renan ganhou o prêmio máximo do jornalismo brasileiro, o Prêmio Esso, em 2004.

Por onde passou e trabalhou, no Brasil e no exterior, ele deixou sua marca e quem esteve em contato com ele, com certeza, nunca vai esquecê-lo.

Relembramos Renan com sua última participação na SBS em Português.

Não foi um de seus boletins semanais - já não era mais nosso correspondente - mas uma entrevista que fizemos com ele em 2015 sobre os dois brasileiros que estavam no corredor da morte na Indonésia: Rodrigo Gularte e Marco Archer.

Renan esteve com ambos Marco Archer e Rodrigo Muxfeldt Gularte e os entrevistou na prisão, na Indonésia, nove antes de serem fuzilados pelo governo indonésio, por tráfico de drogas.

Neste podcast, ouça a entrevista com Renan e leia aqui a transcrição da entrevista.

SBS: Boa noite! Renan. Você esteve na Indonésia nove anos atrás, entrevistando os dois brasileiros no corredor da morte. Qual era a atitude deles em relação à condenação à morte, especialmente do Marco Archer Moreira?

RENAN. O Marco Archer Moreira, quando o encontrei na cadeia de Tangerang, era um sujeito que estava desafiante, não acreditava que seria executado.

Ele achava que haveria uma manobra, que com o tempo ele poderia obter esta clemência.

Por sua personalidade, ele era muito pra fora, positivo, bem humorado, “vou fazer todo o possível, vou lutar para sair dessa”.

Ao mesmo tempo, ele revelava toda sua personalidade.

Ele foi um homem que começou na adolescência como traficante.

Foi alguém que viveu 25 anos no narcotráfico, sem nunca ter sido preso.

E, pra ele, foi um momento de azar na vida quando foi preso no aeroporto da Indonésia.

Ele não encarou aquilo com a seriedade que estava escrito, com a dureza do que se sabia das autoridades da Indonésia com o narcotráfico.

Ele achou que não... “vou dar um jeito e vou sair"e passou a tentar mobilizar a opinião pública brasileira, mas nunca conseguiu decolar, a não ser num grupo fechado de redes sociais entre amigos.

Ele acreditava que o governo brasileiro iria pedir clemência e que ele iria conseguir.

Como houve um tsunami na Indonésia, ele via cada avião brasileiro que chegava lá com ajuda, com remédios e coisas, ele comemorava, como se fosse um gol, um ponto, como se fosse algo que o governo indonésio iria olhar para o Brasil e dizer “tudo bem, nós vamos te entregar este traficante”. 

Ele não se deu conta da realidade.

Quando a ficha dele caiu foi agora, uma semana atrás - “agora você vai ser fuzilado”.

Aí ele se abraçou na tia, que foi visitá-lo, e chorou, aos 53 anos de vida. 

Por 17 anos morou em Ipanema, no Rio de Janeiro, por 25 foi traficante, e 11 passou na cadeia.

E dessa vez, ele foi executado. 

SBS: Renan, ele também tinha uma atuação importante no tráfico de drogas em Bali, não é?

RENAN. Em Bali, durante uns 15 anos que morou lá, ele sempre levou droga, sempre viveu disso.

Ele fazia - e confessou não só para mim, e depois se arrependeu -, ele fazia o tráfico de drogas do Peru para o Brasil, vinha do Brasil para Jacarta e de Jacarta ele ia para Bali, sempre carregando 13, 14 ou 15 quilos de cocaína de cada vez.

Na época, a cotação da mercadoria - porque ele levava mercadoria muito pura, e agregava outros componentes como talco, pó disso, pó daquilo, pra misturar, pra aumentar o volume - uma carga como aquela que ele levava, a grama de cocaína era vendida por 50 dólares nas praias de Bali.

Na época, calculava-se a carga que ele levava no valor de 3.5 milhões de dólares.

Então, ele era um cara que estava ligado com os narcotraficantes diretamente na Colômbia.

Ele começou no alto da pirâmide, em Medellin e ele se orgulhava disso.

Ao contrário de outras pessoas, quando ele dava entrevista, contava “olha, eu sou traficante, eu sei de traficante, é só o que eu sei fazer na vida. Em toda minha vida eu nunca votei, nunca servi no exército, nunca fiz imposto de renda, nunca tive um talão de cheques, só vivia do tráfico. Eu tinha apartamento no Havaí, tinha apertamento em Bali, na Holanda, e eu vivia nesse mundo. Tomei todo tipo de drogas que existia”.

E é isso, os amigos o idolatravam porque ele nunca tinha dado um tiro, nunca tinha andado armado, era só esperteza.

Malandragem carioca, mas o malandro carioca no final se estrepou.

Claro que as pessoas que não apoiam a pena de morte no Brasil ficam assim, existe a coisa do politicamente correto, “olha, coitado, ele merecia uma segunda chance”, “foi só uma vez que ele traficou”.

Foi só uma vez que o pegaram.

Eu, como repórter, quando fui conversar com ele, ele pediu “ajuda na minha campanha de libertação”.

Repórteres não estão aí para ajudar ninguém em campanha nenhuma deste tipo, “olha, eu sou um traficante, me ajudem a sair da cadeia”.

Fiquei, assim, paralisado, não sabia como deveria fazer.

Aliás, sabia, porque ele inclusive me fez uma pergunta uma vez: “Olha, pelo dinheiro que eu tava fazendo isso, você também não faria?”.

Olha, eu não, se eu quisesse fazer narcotráfico, já teria feito. Tenho 65 anos, na época era mais velho do que ele. Esta é a situação que se criou ali.

O companheiro dele, o Rodrigo Muxfeldt Gularte, que está preso lá também (os dois pertenciam a gangues diferentes), vem de uma situação diferente. 

Este é um cara, não vou dizer que merece pois merecimento não sou eu que digo, mas este, na iminência de ser fuzilado agora em fevereiro, está numa situação diferente da do Marco.

Este, por outras razões entrou no tráfico e por outras razões viveu dentro dele.

O Gularte era um milionário de nascença, um filhinho de papai.

Ele era um Che Guevara mauricinho ao contrário.

Quando ele fez 18 anos e ganhou um carro dos pais, ele saiu a viajar pela América Latina.

Botou os amigos no carro e saiu, foi pro Paraguai. Lá no Paraguai foi aos bordéis.

“Vamos para o Peru”, e cheiravam cocaína.

“Vamos para outro lugar”, e tomaram o santo daime, “vamos tomar a ayahuasca”.

Experimentaram todo tipo de droga que existia na América Latina, viajando de carro com dinheiro de mamãe e de papai.

Ele não era um traficante por necessidade.

Ele foi para Bali levando alguns quilos de cocaína porque lá ele queria se estabelecer sozinho, independente dos pais.

Uma visão “agora vou mostrar como já cresci, como sou adulto”. 

Aos 32 anos ele iria mostrar que ele era o adulto. 

Claro que, olhando assim, nenhum de nós pode jogar uma pedra em ninguém, porque… quem nunca fez alguma coisa errada?

Mas a sequência, a história de vida dele, e a mãe contou isso muito bem, “olha, eu tentei uma creperia pra ele, não deu certo, tentei dar uma loja de massas, não deu certo. Botei na minha fazenda pra trabalhar, não deu certo”. 

Em nenhum lugar ele vinha dando certo e a mamãe sempre acobertava tudo que ele fazia.

Teve um episódio no qual ele foi preso ainda e ela subornou a polícia com mil dólares para que ele fosse solto. 

Então ele nunca tinha essa referência de autoridade, então pensou “agora vou pra lá, vou ficar morando em Bali, cercado de mulheres com o dinheiro que vou ganhar no tráfico”.

Foi preso.

Ele não sabia de uma coisa só: quando ele embarcou com as pranchas de surfe cheias de cocaína, que o governo japonês havia doado para o governo indonésio um novo tipo de raio-X que localizava qualquer coisa dentro das pranchas de surfe.

Porque eles já tinham percebido que isso já vinha acontecendo e não conseguiam identificar.

Aí ele botou o material dele e pegaram.

Foi pra cadeia.  Mas lá, esse rapaz, o Rodrigo, tentou o suicídio.

Ele não tinha aquela malandragem carioca do outro, que era veterano traficante.

Era um homem pra quem a cadeia era novidade.

Pegaram um garotão de praia brasileiro, acostumado a viver bem, tinha uma suíte gigantesca em seu quarto, tinha o carro do ano, dinheiro e viajava pra qualquer lugar do mundo com dinheiro da mamãe e cartão de crédito da família.

E de repente o jogaram numa cadeia na Indonésia, e a gente sabe quais são as condições de uma cadeia no terceiro mundo.

Jogaram ele lá pra dentro. Ele não resistiu a esse baque. Tentou até o suicídio lá dentro.

E agora está aguardando.

As condições emocionais dele… está devastado, até pela expectativa de ser fuzilado.

Esse é um cara que vem aquela famosa compaixão, que justifica uma clemência, já “pagou os pecados”. 

Mas quem somos nós pra dizer quem deve pagar pelos pecados?  

SBS. Renan, você se encontrou com eles dentro da prisão?

RENAN. Existe uma coisa na Indonésia que é patético e engraçado até: eu não sabia como faria para entrar na cadeia.

Mas como cheguei na porta pra fazer o reconhecimento do terreno, eu vi que tinha uma policial embaixo de um toldo na frente, e lá ela anotava o nome das pessoas e recebia um dinheiro.

Pensei, estão pagando para entrar, parece um show…

E de fato era isso. Ela me virou com um caderno, botei meu nome, botei o nome dele, que queria visitá-lo, e estendi as notas de rúpias indonésias e a mulher começou a recolher o dinheiro da minha mão, pegou uma, duas três, aí olhei, ela tá pegando demais... 

Ela ficou rindo e pegava o dinheiro rapidinho e botava no bolso.

E eu deixei, era menos de 100 dólares que eu troquei, valia 2 milhões de rúpias.

Aí me levaram lá para dentro, para a sala do comandante. 

O comandante apontou para o meu bolso e pediu mais dinheiro.

Comecei a distribuir dinheiro pra eles, 'toma, toma!'

Aí abri os bolsos, mostrei que não tinha mais, eles ficaram com aquela cara fechada. Aí eu disse “Tomorrow… dollar!”. 

Aí eles começaram a rir de novo e me levaram pra cela de onde os dois brasileiros estavam.

Os brasileiros viviam lá dentro numa mordomia sem tamanho. 

As mães deles mandavam 100, 200, 500 dólares, e lá isso era uma fortuna… e conseguiram uma cela exclusiva que tinha televisão, som, geladeira.

Os presos pobres serviam de garçons, pedicure, faxineiro, e lavavam as roupas…

Eles tinham uma cela que tinha um laguinho, era aberto pra um jardinzinho, e tinham bonsai, peixinho.

Tinham uma liberdade total ali dentro.

O Marco Archer era um cozinheiro muito bom, ele cozinhava para o comandante da cadeia, cozinhava salmão com arroz à piemontesa, leite achocolatado com castanhas, eles tinham toda essa mordomia lá dentro enquanto não foram para o corredor da morte, naquela primeira etapa.

Então se sentiam onipotentes lá dentro, que iriam conseguir dar um jeito naquele problema, e foram sustentando os carcereiros e os outros presos em volta deles.

Até que bateu o juizo final, Beatriz.

SBS. Agradeço Renan Antunes de Oliveira, ao vivo, desde o Brasil, contando sua experiência com os dois brasileiros no corredor da morte na Indonésia.   

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