Lô Borges, um dos principais nomes do que acabou virando uma espécie de movimento musical chamado Clube da Esquina, morreu aos 73 anos no último domingo, em Belo Horizonte. Ele não resistiu depois de semanas internado por uma intoxicação medicamentosa.
Lô, apelido de Salomão, era um dos 11 irmãos de uma família típica de classe média de Belo Horizonte de seu tempo.
Criada no bairro de Santa Tereza, a família Borges se mudou para o Edifício Levy, no centro da capital mineira, onde a amizade com Milton Nascimento floresceu.
Eram vizinhos no prédio, e um belo dia Milton tocava violão na escadaria, quando o pequeno Lô, ainda criança, se encantou pelo som e voz do cantor que Elis Regina viria a chamar de "a voz de Deus".
O irmão Marcio já era parceiro de Milton Nascimento quando Lô, no auge de seus 17 anos, interpelou Milton num bar, dizendo que também queria fazer música com eles, e pediu uma chance.

Dois anos depois, Milton convencia a gravadora Odeon a bancar um disco da dupla chamado Clube da Esquina. Pior, o álbum seria duplo, algo incomum na época.
A mistura da MPB, Bossa Nova e jazz de Milton com o rock beatlemaníaco de Lô Borges e Beto Guedes abriu caminhos musicais. Foi eleito por músicos e críticos em 2022 como o maior álbum brasileiro em todos os tempos, a partir da enquete promovida pelo podcast Discoteca Básica.
Tanto na obra dentro do Clube da Esquina quanto na pessoal, há essa originalidade que passa por tudo. Não estudou música formalmente, a intuição era seu primeiro norte, mas tinha ao lado alguns dos melhores músicos da época. A troca profunda com os amigos gerou aquela música que não se enquadra em nenhum rótulo.Daniel Gosling, sobre a obra de Lô Borges.
Mas não era apenas as soluções harmônicas únicas, simples e sofisticadas ao mesmo tempo. O Clube da Esquina era um trabalho em conjunto de um grupo de amigos que fizeram o disco acontecer.
Além de Milton e Lô, foram Marcio Borges, Beto Guedes, Fernando Brant, Tavito, Toninho Horta, Ronaldo Bastos, Nelson Angelo, Tavinho Moura, Wagner Tiso, Flavio Venturini, Robertinho Silva e outros nomes que marcaram a música brasileira a partir de então. Um trabalho marcado pela amizade, camaradagem e "mineirice", embora nem todos os participantes fossem de Minas Gerais.
O movimento e a própria carreira solo de Lô mudaram os caminhos da música brasileira e influenciou profundamente as gerações futuras, dos Titãs ao Skank, de Mônica Salmaso aos britânicos do Artic Monkeys.
Um "neto" do clube da esquina em Adelaide
Produtor audiovisual de profissão e músico nas horas vagas, Daniel Gosling nasceu e cresceu no bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte, onde tudo gira em torno do Clube da Esquina, que é parte também da vida de Daniel desde sempre e o inspirou a tocar e compor. Hoje ele mora em Adelaide.
Quando me mudei de BH, o afastamento mostrou minha identidade, não só musical. O Clube da Esquina e tudo aquilo que ali pra mim era natural... Percebi que carregava tudo aquilo de forma muito intensa e era o centro da minha visão de mundo.Daniel Gosling.
Em 2023, Daniel lançou uma música com a participação de Toninho Horta, e também apresentou músicas do movimento em um show do Adelaide Fringe daquele ano. Em 2025, Daniel Gosling lançou a canção Faial, com Edelson Pantera.
Por vizinhança e amizade familiar - sua avó era amiga da mãe de Lô Borges - Daniel Gosling teve alguma convivência com o fundador do Clube da Esquina e também com outros integrantes do grupo.

Nesta nova conversa com a SBS em Português, o belorizontino radicado na Austrália do Sul explica o legado de Lô para a nossa música e fala de momentos que se lembra junto do ídolo da música mineira.
Para ouvir, clique no botão 'play' desta página.
Siga a SBS em Português no Facebook, Twitter, Instagram e You Tube.
Ouça os nossos podcasts. Escute o programa ao vivo da SBS em Português às quartas-feiras e domingos ao meio-dia. Assine a 'SBS Portuguese' no Spotify, Apple Podcasts, iHeart Podcasts, PocketCasts ou na sua plataforma de áudio favorita.





