Agora foi numa sala de teatro a abarrotar em Bochum, cidade do noroeste alemão, na bacia industrial do Ruhr.
Em palco, a peça teatral, provocadora e muito premiada, concebida plo dramaturgo português tiago rodrigues, "Catarina e a beleza de matar fascistas" – o titulo é oviamente polémico, remete para uma reflexão sobre o que é o fascismo e sobre o paradoxo se é ou não legitimo ser tolerante com os intolerantes. Ou se para defender a tolerância é aceitável ser-se intolerante com os intolerantes. O dramaturgo Tiago Rodrigues não pretende nesta peça teatral dar a resposta – coloca a questão à discussão entre os espetadores – fiel ao princípio de que agitar a discussão de ideias é uma das funções do teatro.
Nesta estreia alemã da peça, esta semana, no teatro de Bochum aconteceu o que já tinha acontecido repetidamente nos últimos 6 anos em salas de teatro de Portugal.
Estreou em setembro de 2020, em Guimarães, e o que aconteceu também em teatros de Espanha, de Itália, de França, da Bélgica, da Polónia, da Grécia, do Reino Unido e de outros países.
Quando as cerca de 2 horas de representação entram nos 15/20 minutos finais, fica em palco, sozinho, um ator que diz um monólogo. Esse ator representa um fascista que acaba de ser libertado – e profere então o que aparece como discurso de vitória das ideias dele. É um discurso longo, por vezes sussurrado, com argumentação (propositadamente tão execrável – como pretende o texto de Tiago Rodrigues) que gera indignação entre o público na sala – há pateadas, assobios – há mesmo quem tão irritado com o que está a ser dito no palco – se levante e abandone a sala – como aconteceu vai para um mês em noites de apresentação no teatro da Culturgest em Lisboa.
Agora, em Bochum, conta Deborah Cole – correspondente do jornal britanico The Guardian – a plateia foi começando a agitar-se, as pessoas começaram a assobiar e a vaiar, a mostrar náusea e a insultar o ator e a pedir-lhe que parasse.
Houve quem atirasse em direção ao ator laranjas do menu que acompanhava o serão teatral.
Houve mesmo lá em Bochum dois espetadores que em movimento rápido, em fúria, saltaram para o palco com notória intenção de tirar o ator de cena. Os teatros desta representação estão prevenidos – foi ativado o protocolo de segurança – o ator provocador chegou ao fim a proclamar com voz mais inflamada e elevada – o futuro pertence-nos!
Passada a efervescência da reação ao monólogo ultra, o aplauso final à peça foi longo e vibrante.
Na emissora pública WDR, da Renânia do Norte o repórter e critico de teatro Christoph Ohrem, num relato com 6m 34s, mostrou o protesto veemente do público plo monólogo da voz do fascismo.
Christoph Ohrem, comentou que tinha acontecido teatro, porque a dramaturgia de Tiago Rodrigues tirou os espectadores da passividade na zona de conforto. Comentou - “É realmente surpreendente que uma peça de teatro volte a suscitar reações agora em 2026, como no teatro do tempo de Shakespeare”,
Esta dramaturgia de Tiago Rodrigues – que assume não ser neutral – parte do atroz assassinato em 1954 em Baleizão da ceifeira alentejana Catarina Eufêmia. Foi abatida, com o filho ao colo, pelos três tiros disparados por um guarda da patrulha chamada pelo capataz da ceifa, que queria reprimí-la por incitar as outras a juntarem-se a ela a exigir dinheiro para o pão e paga igual para mulheres e homens.
O guarda foi absolvido em tribunal por um juiz que considerou a falta de probidade da ceifeira, supostamente adúltera.
Tiago Rodrigues partiu desta realidade com Catarina como simbolo feminista e do combate histórico antifascista para criar uma ficção centrada numa família antifascista, com moral distorcida que a torna criminosa, que cumpre anualmente o ritual de vingança e assassina um fascista.
Tradição familiar de décadas, é posta em causa pelo membro mais novo da família, Sara-Catarina, assaltada pela dúvida quanto à justiça da acção, espoletando dessa forma uma reflexão sobre democracia e ditadura e os limites da luta pela liberdade, frente à retórica ultra ou fascista no sentido histórico da expressão.
Catarina e a beleza de matar fascistas, peça provocatória, cumpriu também na Alemanha e o propósito de levar o publico a reagir a intenção de levantar o dilema sobre a relativa impotência da democracia face à extrema-direita, e também o paradoxo da tolerância de Karl Popper. Podemos ser tolerantes com os intolerantes, arriscando a destruição da democracia, ou temos o direito de ser intolerantes com os intolerantes, para assim defender a tolerância. A pergunta no palco fica aberta.
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