O grande poeta português, Eugénio de Andrade, faria 100 anos caso ainda estivesse entre nós.
Eugénio de Andrade, palavra a palavra, com palavras que "são de luz/ e são a noite", disse e escreveu o que sentia e tinha para dizer.
Fê-lo de modo tão poderoso, emocional, sensível que muitos adolescentes portugueses recorrem à poesia dele para se inspirarem para a escrita de versos de amor.
O poema “Foi o Sorriso” é apenas um dos muitos e bonitos exemplos da obra de Eugénio de Andrade que continuam a inspirar muitos em Portugal:
“Foi o sorriso quem abriu a porta
O teu sorriso com muita luz lá dentro,
Apetece entrar nele.
Tirar a roupa, ficar nu dentro desse sorriso,
Correr, navegar, viver e morrer dentro desse sorriso”
Eugénio de Andrade nasceu há exatamente 100 anos numa aldeia do interior de Portugal, nas faldas da Serra da Estrela.
Viveu grande parte dos 82 anos de vida na cidade do Porto, com os pés assentes na paisagem da foz do rio Douro, numa casa onde esteve sempre acompanhado por livros, quadros, flores e gatos.
Eugénio é um dos poetas portugueses mais genuinamente lidos, estudados e traduzidos do século XX em Portugal, homenageado em vida com inúmeras iniciativas e distinções, incluindo, em 2001, o Prémio Camões, o mais importante em língua portuguesa.
Eugénio forma com Sophia de Mello Breiner, com Herberto Helder e com Fernando Pessoa o quarteto de enormes poetas no século XX português.
Reconhecido não apenas pelos pares e pela crítica como um dos nomes cimeiros da lírica portuguesa do século XX, mas também um poeta capaz de chegar a um público que não se resumia aos leitores habituais de poesia, o que explica que, à entrada neste milénio, em 2001, livros como As Mãos e os Frutos (1948) já andassem pelas vinte edições.
Assente num vocabulário conciso e luminoso, a sua poesia com uma beleza sedutora, centrada no mundo natural e alheia às grandes convulsões políticas põe no papel e na palavra, no muito católico Portugal, um sensualíssimo corpo feliz, encantado.
No final da década de 40 e nos anos 50, como aponta o investigador Carlos Mendes de Sousa, Eugénio de Andrade “trouxe o corpo erótico para a poesia de maneira muito afirmativa, por vezes eufórica até, e esta foi uma contribuição muito importante para a renovação da lírica portuguesa de então e para a sua resistência ao falso moralismo do Estado Novo”.
Num dos últimos poemas, Arrepio na Tarde, publicado no livro Os Sulcos da Sede (2001), quando estava com 80 anos e se sentia à beira do fim, que veio dois anos depois, Eugénio deixou escrito:
"Não sei quem, nem em que lugar,/ mas alguém me deve ter morrido./ Senti essa morte num arrepio da tarde./ Qualquer amigo, um dos vários/ que não conheço e só a poesia/ sustenta. Talvez a morte fosse/ outra: a de uma estrela, porque também/ elas morrem”.
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