Duas baleias-jubartes identificadas por meio do padrão único de suas caudas surpreenderam cientistas ao estabelecer um recorde de migração entre áreas de reprodução no Brasil e na Austrália. Conversamos com dois pesquisadores envolvidos no estudo, Milton Marcondes, coordenador de pesquisa do Instituto Baleia Jubarte, e Stephanie Stack, co-autora da pesquisa e candidata a doutorado na Universidade Griffith, em Queensland.
Duas baleias-jubarte identificadas no Brasil e na Austrália estabeleceram um recorde de migração ao percorrer mais de 15 mil quilómetros entre áreas de reprodução dos dois países. A descoberta, publicada na revista científica Royal Society Open Science, foi possível graças à comparação de fotografias das caudas dos animais, consideradas únicas para cada indivíduo.
Milton Marcondes, coordenador de pesquisa do Instituto Baleia Jubarte, explica que o trabalho faz parte de um esforço internacional de monitorização da espécie.

“A jubarte tem um padrão único, tanto de manchas na cauda dela, como também o serrilhado. Cada indivíduo é diferente. A gente costuma comparar com a impressão digital”, afirmou.
As fotografias são inseridas na plataforma Happywhale, que utiliza tecnologia de reconhecimento de imagens para comparar registos feitos por pesquisadores de todo o mundo.
“A gente tem sempre feito a comparação de fotos. Todo ano a gente fotografa 400, 500 baleias e coloca nesse programa, o Happywhale, que faz uma triagem dessas fotos e compara com fotos do mundo todo. E aí, com isso, a gente tem começado a descobrir para onde as baleias vão quando elas saem do Brasil. E, para nossa surpresa, essa foi bem longe”, disse Marcondes.

A pesquisadora Stephanie Stack, da Griffith University, contou que a descoberta começou com uma mensagem inesperada enviada pelo fundador da plataforma.
“O fundador da Happywhale, o doutor Ted Cheeseman, entrou em contato conosco por e-mail e disse: ‘Vocês não vão acreditar no que descobrimos. Encontramos a mesma baleia que nadou entre a Austrália e o Brasil’”, relatou.
Embora os cientistas saibam onde os animais foram fotografados, ainda não é possível determinar o percurso exato realizado pelas baleias.

“A gente só sabe o intervalo entre as fotos e para onde elas foram. Agora, qual o caminho que elas fizeram, a gente não sabe”, explicou Marcondes.
Para os pesquisadores, a descoberta tem implicações importantes para a conservação da espécie. Segundo Stephanie Stack, a movimentação entre populações pode contribuir para a diversidade genética.
“Essa conectividade é importante para a saúde a longo prazo e para a resiliência, especialmente com as mudanças climáticas. É bom manter algum fluxo gênico entre populações que estão bastante distantes umas das outras.”
Marcondes destaca que a troca genética pode fortalecer a sobrevivência das populações no futuro.
“Quando você tem uma variabilidade genética, você tem mais chance de sobreviver, por exemplo, em eventos extremos, como mudanças climáticas.”
Os dois pesquisadores admitem que ainda não sabem o que levou essas baleias a passarem pela base de alimentação na Antártida e seguirem a viagem até a Austrália ou Brasil. Marcondes diz que há várias hipóteses.
"Pode ser um indivíduo mais jovem que está explorando novas áreas. Pode ter se encontrado com outras baleias de uma população diferente e resolver se juntar naquela população, talvez para tentar mais chance, por exemplo, de acasalamento," sugere.
Segundo Stephanie, "a hipótese é que algumas dessas baleias escolham seguir uma rota diferente e seguir outras baleias até uma área de reprodução diferente, por exemplo."
Mais do que um recorde de migração, ambos pesquisadores reconhecem que a travessia das duas jubartes entre Brasil e Austrália reforça a importância do fluxo genético para a sobrevivência da espécie.

Segundo os pesquisadores, essa variabilidade ajuda as baleias a responder melhor a desafios como mudanças climáticas, alterações na disponibilidade de alimento e outros eventos extremos.
A descoberta também mostra que a conservação das jubartes precisa ser pensada para além das fronteiras nacionais, refletindo a conexão entre oceanos e populações que, até há pouco tempo, eram consideradas isoladas.
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