A AfD conquistou vitória com folga na Saxónia-Anhalt com discurso antissistema, posicionando-se mais à direita, por exemplo, que seus pares de França e Itália: quer filhos de migrantes e crianças com deficiência a estudar em escolas à parte e defende reatar relações com a Rússia de Vladimir Putin. Crónica do correspondente da SBS em Português em Lisboa, Francisco Sena Santos.
Inge Steinmann nasceu em Magdeburg, capital da Saxônia-Anhalt, em 1977. Ainda este estado integrava a República Democrática da Alemanha (RDA), a Alemanha do leste, parte do Bloco Soviético.
O pai de Inge foi por duas vezes detido pela Stasi, a policia politica da então ditadura comunista. Um tio-avô foi preso pela Gestapo, a polícia secreta da ditadura nazista de Hitler.
Inge, que costuma passar férias na serra do Sotavento Algárvio, é investigadora em estudos europeus e define como traumático o triunfo da AfD nas eleições de domingo na Saxónia-Anhalt, um estado rural a perder população: são agora pouco menos de 2 milhões de pessoas. uma região envelhecida Eonde é muito forte o ressentimento, mesmo raiva, com a liderança politica da Alemanha, em Berlim.
O governo federal é acusado de negligenciar este que é um dos 16 land (estados) da Alemanha Federal. Muita gente da Saxónia-Anhalt perdeu a memória da opressão e do baixo nível de vida no tempo da RDA e rende-se à propaganda de que, na unificação alemã há 36 anos, a Alemanha Ocidental comeu a Alemanha de Leste, apesar da realidade mostrar colossais investimentos para valorizar os cinco estados orientais.
Num deles, na Turingia, há dois anos, a AfD já tinha ganho as eleições com 32% dos votos, mas o cordão sanitário funcionou e os outros partidos com o SPD (centro-esquerda), a CDU (centro-direita), os Verdes e os Liberais uniram-se para formar governo estadual.
A agora triunfante AfD na Saxóia-Anhalt tem como cabeça de lista Ulrich Siegmund, 35 anos, ares de estrela de cinema, carismático, sempre sorridente, parece personagem amigável. Fez sucesso como vendedor de produtos de higiene. Mas Inge Steinmann comenta esta AfD é muito diferente, ainda mais radical do que toda a atual extrema-direita nos principais países da Europa. É mais nacionalista social e culturalmente, mais hostil aos migrantes, às questões de diversidade, de género, ou climáticas, fortemente anti-União Europeia e, sobretudo, a favor da Rússia. Quer reintroduzir o ensino do russo nos programas escolares e contra qualquer apoio à Ucrânia.
Nada a ver, por exemplo com os Fratelli d Itália de Giorgia Meloni, há quatro anos no governo italiano, que deixou muito do radicalismo para se harmonizar com a União Europeia e alinhar nas politicas contra Putin.
Também diferente da dupla Le Pen-Bardella lançada para ganhar a liderança da França a partir de maio. É facto que também muito anti-migrantes e contesta as diretivas da Comissão de Bruxelas, mas já não quer a França fora da União Europeia – e já se distancia do antigo amigo Putin.
A AfD é uma extrema-direita soberanista xenófoba que pretende relativizar ou mesmo apagar a tirania de Hitler. É um partido que inclui nostálgicos do 3º Reich, ainda que muitos dos eleitores lastimem esses infernos do nazismo e votaramcontra os partidos das elites políticas.
E é assim que os eleitores da Saxónia-Anhalt arrasaram o tradicional sistema partidário alemão. Nessa rebelião, numa eleição com alta participação (76%), a AfD ultranacionalista e xenófoba triunfou com 44% dos votos, 26 pontos percentuais a mais que a CDU, que não chega aos 18%. Nas esquerdas, o SPD está pelos 9%, Die Linke e os Verdes, ambos com 8%. Os liberais do partido FDP, com 2,5%, ficam fora do parlamento.
A extrema-esquerda de Sarah Wagenknecht, pró-Rússia e anti-migrantes, está na barra decisiva dos 5%. Dado insólito: pode ser esta extrema-esquerda a viabiliZar o governo da extrema direita.
Ulrich Siegmund está destinado a ser o primeiro ultra como ministro presidente num dos 16 estados da Alemanha- depois do passado nazi. Entra com fúria contra os migrantes, embora sejam poucos neste estado: corta-lhes todos os subsídios, quer pô-los o mais possível fora da Alemanha - embora aí tenha um problema: essa competência é do governo federal.
Quer que não só os filhos de migrantes, mas também as crianças com deficiência estudem em escolas à parte. É o ataque à diversidade. Quer que os migrantes deixem de frequentar cursos de alemão para travar a integração. Quer recuperar o orgulho alemão, acabar com a arte que não seja pró-germânica e já classificou a arquitetura modernista da Bauhaus como uma aberração. Quer- já foi dito – relançar as relações com a Rússia e voltar a comprar energia russa.
A AfD pretende que a Saxônia-Anhalt seja um laboratório para a ambição de conquistar o governo da Alemanha. Este resultado é um choque. É grave a angústia no país. Lê-se no diário Die Zeit: Vovas e diferentes respostas são necessárias. No Frankfurter Allgemeine, análise crê que este resultado na Saxónia-Anhalt é um voto de um pequeno estado e não deve levar a especulações sobre o governo federal da Alemanha. Mas, é indiscutível, os partidos tradicionais saem derrotados, fragilizados.
Quanto à Europa, não está na previsão um terramoto assim, por exemplo, nas eleições do próximo domingo na Suécia.
É ainda inge Steinman quem deixa o alerta: quando aparece uma brecha num dique, é preciso trata-la de imediato para evitar o perigo de colapso da muralha.
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