Com o estatuto de Professor antes dos 50 anos, o português nascido em Moçambique, Armando Teixeira-Pinto é dos poucos a conseguir esta proeza na Academia.
Mas a isso deve-se o facto de ser, por natureza, um homem de coragem e de espírito de missão que parece atirar-se à vida, à família (esposa, Susana e dois filhos, Afonso e Inês), à ciência e à comunidade com a paixão de um português que 'não deixa para amanhã o que pode fazer hoje'.

Nasceu em África, viveu a maior parte da sua vida no Porto, em Portugal, mas assim que surgiu a hipótese de ir estudar para uma das mais prestigiantes universidades do mundo - a famosa Harvard, nos Estados Unidos - não hesitou.
Com o mesmo espírito de aventura, fez as malas e, em 2012, atravessou o mapa para viver a experiência australiana.
Hoje, não só é Professor e investigador na instituição de ensino superior de topo em Down Under - Universidade de Sydney, como ainda acumula a função de co-líder no Centro de Investigação Renal.
Mais recentemente, sentiu o apelo de servir a comunidade civil australiana e, não se acanhou - alistou-se nas Forças Armadas e está já, depois das cinco semanas obrigatórias de recruta, na sua caminhada para Oficial do exército, como reservista em regime part-time.

Nesta entrevista à SBS em Português, o Professor Armando Teixeira-Pinto explicou a sua área científica, Bioestatística e como a mesma, tal como todos os campos do conhecimento relacionadas com a estatística, foi exponencialmente aplicada na fase da pandemia da COVID-19.
Realizei trabalhos de investigação no contexto da pandemia, onde demonstramos o aumento de mortalidade na população dos doentes crónicos renais – muito susceptível à COVID-19 – e algumas formas de combater essa mortalidadeArmando Teixeira-Pinto
O investigador, conta também como viu um dos seus projectos de investigação nos Media e nas Redes Sociais australianas, sem que ele nem os seus colegas de trabalho tivessem qualquer intenção que isso acontecesse.
Tratou-se de um projecto comparativo, ainda na área da COVID-19, entre a taxa de mortalidade da Austrália e a do Reino Unido - já que geograficamente, ambas são ilhas com um conjunto suficiente de características similares para levar a cabo este estudo - em que Teixeira-Pinto e os seus colegas concluiram que a Austrália tinha tido uma taxa de mortalidade bastante mais baixa.
O estudo acabaria, para grande espanto da equipa de investigação, por ser referenciado publicamente pelo Primeiro Ministro australiano em prol das políticas de saúde australianas durante a pandemia.
Houve outro trabalho, que foi quase um exercício académico de 'secretária', em colaboração com quatro colegas, onde demonstramos que a mortalidade na Austrália tinha sido, na época [pandemia da COVID-19], bastante inferior em relação ao Reino Unido.Armando Teixeira-Pinto

Os media acabaram por apanhar esse trabalho que, tendo sido publicado entretanto, acabou por ser citado pelo Primeiro Ministro australiano como que provando o sucesso das políticas de combate à COVID-19. Acabou por haver um aproveitamento político do nosso trabalho, e não era esse o nosso objetivo científico”Armando Teixeira-Pinto
Confirmando que entre a comunidade científica e académica a discussão da vacinação da COVID-19 é tão acesa e presente quanto na comunidade em geral, o Professor esclarece o que se passa afinal:
Todos os experts na área das vacinas, consideravam na época ser impossível criar uma vacina em menos de cinco anos. Mas conseguiu-se fazê-lo em tempo record. Não é 100% eficaz e tem efeitos secundários, como qualquer outra vacina.Armando Teixeira-Pinto
Contudo, para Teixeira-Pinto, embora hajam questões que irão para sempre alimentar esta discussão, não há motivos para tanta teoria da conspiração, assegura:
"Os efeitos secundários da vacina da Covid-19 existem, nomeadamente o aumento da incidência de patologias cardíacas - em particular, entre os jovens do sexo masculino. E eventuais efeitos secundários continuam a ser analisados, testados e debatidos."
Não antevejo nenhum cenário catastrófico nem nenhuma patologia ou efeito secundário advindos da vacina da Covid-19, que sejam tão dramáticos no futuro como ouvimos nas teorias da conspiração das redes sociaisArmando Teixeira-Pinto
O principal problema parece ser o de sempre, em situações de grande exposição à opinião pública e de grande desespero e incerteza como foi o caso da pandemia da COVID-19:
"A questão da vacinação da Covid-19 é muito polémica, há muito ruído e teoria da conspiração nas redes sociais. Toda a gente 'é' expert na matéria."
A verdade é que também não há consenso na comunidade académica.Armando Teixeira-Pinto

Mas Teixeira-Pinto não é só um académico e investigador, pai, marido e apaixonado por 'bush walks' e a natureza em geral.
Este português, agora já também cidadão australiano, quer servir a comunidade australiana na sua diversidade cultural e social, nos bons e nos maus momentos.
Pensando na sua herança familiar, naquilo que considera quase como a sua responsabilidade social e cívica na Austrália, e aproveitando o facto dos seus filhos estarem mais crescidos e de lhe sobrar mais tempo, Teixeira-Pinto decidiu em 2019 alistar-se no exército australiano.
"O meu avô era Oficial no exército português e eu sempre tive um interesse na carreira militar. Mas o que também me levou à ideia de ser reservista no exército australiano foi achar que deveria contribuir de alguma forma para a minha comunidade aqui", começou por explicar.
Acima de tudo, percebi claramente, com os incêndios de 2019 e, a seguir, com as cheias em Queensland, que o exército australiano tem um papel fundamental de apoio às vítimasArmando Teixeira-Pinto
Outro dos motivos para esta tomada radical de decisão, numa idade em que a maior parte das pessoas pensa em abrandar o seu ritmo de vida e raramente embarcam em missões tão absorventes e exigentes como o serviço no exército, é que o Professor Teixeira-Pinto teme pelo futuro do mundo, no contexto das guerras atuais e outras que potencialmente podem vir a acontecer, e nas quais a Austrália pode vir a estar envolvida.
Olhando para o mundo neste momento, onde a possibilidade da Austrália participar numa guerra não é alta mas também não é assim tão reduzida, seguir a carreira militar como reservista ainda me fez mais sentidoArmando Teixeira-Pinto

O processo desde o seu primeiro contacto com as Forças Armadas até à sua partida para as cinco semanas de recruta em Wagga Wagga, no Outback australiano, foi árduo:
"Foi um processo longo, principalmente porque, desde que entrei em contacto com as Forças Armadas em 2019, aconteceu a pandemia. Entretanto, tive ainda que reunir uma data de documentos e fazer testes físicos, psicológicos e médicos.", diz Teixeira-Pinto.
Desde a entrevista que resultou, finalmente, na minha aprovação até iniciar o treino de recruta, ainda demorou cerca de um anoArmando Teixeira-Pinto
Agora que a recruta está ultrapassada, o reservista Teixeira-Pinto olha para trás com alguma saudade do seu tempo em Wagga Wagga.
Contudo, garante que a experiência foi muitíssimo mais dura, a todos os níveis, do que algum dia poderia supor:
"A minha recruta foi um treino muito duro, física e psicologicamente. Foram 5 semanas de treino que condensaram o treino de 12 meses normal de soldado em regime de full-time, à exceção de dois módulos que envolvem granadas e morteiros."
Acordávamos às 5:45 da manhã e estávamos a treinar intensivamente até cerca das 10 da noite, todos os dias. Eu não diria que foi divertido. Foi um desafio importanteArmando Teixeira-Pinto
O elemento psicológico desta primeira experiência no exército australiano, talvez ainda tenha superado o esforço físico, tal como confessa o novo reservista:
"Na minha inocência achei que seria mais fácil. Para minha surpresa foi muito duro e intensivo, a todos os níveis. Mas, agora olhando para trás, até tenho saudades da minha recruta"
Enquanto estive em Wagga Wagga, tal como os meus colegas de pelotão, só queria regressar a casa e à minha família, com quem só pude falar três vezes pelo telefone nestas 5 semanas.Armando Teixeira-Pinto
Já para não falar que para alguém como Teixeira-Pinto, que é um líder por natureza, também foi particularmente desafiante aceitar e conviver tranquilamente com as regras e as pressões do universo militar.
"Tive de puxar várias vezes do meu racionalismo e pensar que tudo aquilo era uma espécie de 'jogo'", recorda o Reservista.
Custa muito ver um Cabo com metade da minha idade, a gritar-me ao ouvido ou diretamente na cara, para eu fazer isto ou fazer aquilo. Mas, agora que já passou, estou muito satisfeito por ter concluído a minha recruta.Armando Teixeira-Pinto

Depois, ainda há o fator financeiro que, embora não tenha sido o foco nesta decisão de Armando Teixeira-Pinto, é gratificante saber que o exército australiano oferece condições boas a quem se aventura na carreira militar já em idade mais avançada.
"O exército australiano tem uma grande tradição no serviço part-time. Como reservista, e para a função específica do meu cargo de Oficial, é esperado de mim que sirva cinco blocos de treino que se estendem por cerca de dois a três anos. Juntamente com esse treino, e em blocos de duas ou três semanas, é esperado que um reservista sirva uma vez por semana, três horas - entre as 7 e as 10 da noite; mais um fim de semana por mês; e, finalmente, duas ou três semanas por ano. Mas há flexibilidade.", informa o Professor-Soldado.
Todas as horas de serviço no exército australiano são pagas e isentas de impostos.Garante, Armando Teixeira-Pinto
Mas para ouvir sobre todas estas questões, opiniões, experiências e aventuras deste Académico-Soldado, incluindo as suas valiosas dicas para os alunos de PhD da comunidade da SBS em Português interessados em estudar na Austrália ou entrarem e vingarem na Academia em Down Under, entre muitas outras coisas interessantes e divertidas de escutar pela boca de Armando Teixeira-Pinto, não deixe de clicar no PLAY, acima neste artigo, e ouvir o podcast na íntegra.
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