O campo de Metche abriga, agora, oficialmente, 47 mil pessoas refugiadas em fuga desesperada do Sudão – mas a equipa dos Médicos Sem Fronteiras (MSF), coordenada pela francesa Myriam Larroussi, que instalou em Metche um hospital de campanha, garante que aos refugiados neste campo são muitos mais.
Será de dizer muitas mais. 9 de cada 10 refugiados são mulheres ou crianças.
Fogem de toda a violência há 25 meses outra vez instalada no Sudão
Uma dessas mulheres é Ahalam.
Em maio de 23 , toda a família, ela, o marido, Awad, eletricista, e os 5 filhos deixaram a moradia que até tinha ar condicionado e varanda no 1º andar, em Omdurman, cidade que já teve, há 3 anos, 3 milhões de pessoas na margem ocidental do Nilo, mesmo em frente a Cartum.
Fugiram de um mês de ferozes combates entre as tropas do presidente e as milícias do vice-presidente.
Ahalam e a família tentaram refúgio no sul do enorme Sudão, então mais ou menos poupado à crueldade ds combates.
Regressaram faz agora um ano, Encontraram a casa em ruínas.
Tinha sido saqueada e depois queimada, tal como milhares de outras, todas as daquela devastada imensa e caótica cidade em frente à capital.
Durante um mês, Awad juntou tijolos e com a ajuda da família começou a tentar reconstruir a casa. Outros vizinhos também meteram mãos à obra e todos se ajudavam uns aos outros. Recuperavam destroços.
Mas ainda não tinha passado um mês e as milícias apareceram outra vez a arrasar tudo e a violentar as pessoas.
Ahalam e as duas filhas conseguiram esconder-se numa ruína a 200 m do que era a casa deles. Awad e os 2 filhos tentaram entender-se com os guerrilheiros, apesar de terem a noção de que aquilo era gente ruim.
Mataram Awad com 3 ou 4 tiros, os filhos, então com 15 e 12 anos foram levados. Não se sabe deles.
Awad era de uma tribo não árabe, os Masalit. Foi morto por isso – está em curso a limpeza étnica de várias tribos do Sudão.
Ahalam com as duas filhas juntou-se a outras mulheres, arranjaram burros para as ajudar na viagem e voltaram a fugir, desta vez para oeste. Atravessaram a terra árida ao longo de várias semanas, enfrentaram temperaturas acima dos 45º c – chegaram ao Chad.
Estão agora abrigadas no campo de Metche. Ahalam terá contado a Larissa, dos MSF, o pesadelo o que passou neste 2º êxodo. Ambas entendem que ainda não é tempo para contar.
O terror está a ser arma de guerra.
Por poder por território - e também supremacia étnica e tribal.
Muito da guerrilha terrorista reaberta há 25 meses no enorme Sudão, o 3º mais extenso país de África.
É a terra de mais de 50 milhões de pessoas – mais de 13 milhões estão deslocadas – precisaram do êxodo – em fuga do terror dos bandoleiros nos 2 campos rivais
Esta nova e devastadora guerra civil no Sudão teve início há 25 meses - a 15 de abril de 2023, quando eclodiram combates generalizados entre – por um lado - o exército sudanês, comandado pelas forças do general presidente, por outro, as chamadas Forças de Apoio Rápido (RSF) paramilitares comandadas pelo general vice-presidente, acusado de sucessivos crimes de guerra, como os massacres de Cartum em 2019.
Netes 25 meses de violência extrema as duas forças opostas fortemente armadas e com organização em bandos têm travado confronto barbaro, no qual os civis são tratados, or um lado e pelo outro com crueldade selvagem.
Sucedem-se relatos de aldeias saqueadas depois incendiadas.
Num dos relatos, os 50 homens de uma aldeia foram colocados na borda de um rio e executados a rajadas de metralhadora. As mulheres da aldeia – violadas, há relato de violações coletivas simultâneas com as crianças obrigadas a ver tudo.
Há testemunhos de múltiplas histórias assim. Por isso tantas pessoas em fuga, algumas para o Egito outras para o Chad, os principais lugares próximos de refúgio.
A União Europeia tem em Bjamena um coordenador do apoio aos campos de refugiados. É Pierre Yves Sotto. Desde o fim do apoio da US AID, terminado com Trump, a Unão Europeia reforçou o suporte aos campos de refugiados. Mas ainda não compensa o perdido com o fim da ajuda dos Estados Unidos.
O Prgrama Alimentar Mundial também sofreu cortes e antes já não chegava.
Tudo é escassez para as mais de 3 milhões de pessoas refugiadas nos 21 campos junto à linha de fronteira.
Em Metche está a ser possível fornecer 5 litros de água por dia a 50 mil pessoas.
5 litros parece quantidade folgada - mas com temperaturas habitualmente acima dos 38 graus – seria preciso o triplo.
E a falta de água implica falta de higiene.
Sucedem-se doenças infecciosas tratadas no que for possivel no hospital do MSF.
A malária dispara com as invasões de mosquitos. Fica pior a seguir à chuva, quando esta aparece.
A equipa dos MSF conta com Aline – ela cresceu num campo de refugiados mais para o sul de África ela é tutsi sofreu o que está classificado como genocídio praticado em 94 pelos hutus na região dos grandes lagos de africa – tinha 9 anos, perdeu os pais, também os irmãos. foi acolhida num campo de refugiados no leste do Congo.
Agora, com 31 anos, depois de estudar psicologia, Aline integra uma das equipas do MSF no centro de África, a tarefa dela, desmontar o medo entranhado nas crianças testemunhas de tanto horror.
As crianças são estimuladas para praticas artísticas, música, dança, pintura, teatro – modos de dar a vlta ao stress postraumatico – e de abrir projetos de vida.
Aline também é ajudante de parteira – muitas das mulheres que chegam ao campo de Metche – estão gravidas – após tantas violações.
Neste dia em que se levantam – veementes – as vozes de gvernamtes europeus que protestam perante Netanyahu – é inaceitável o que estão a fazer em Gaza.
Há que reconhecer faltam vozes fortes – para parar esta atrocidade em curso no sudã e dar horizonte a tantos milhões de pessoas.
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