Aquele dia de infâmia vitimou quase 3 mil pessoas, mudou a vida no mundo e alterou toda a arquitetura de segurança. A reação ao terrorismo levou ao retrocesso da liberdade e da democracia. Crónica do correspondente da SBS em Português em Lisboa, Francisco Sena Santos.
Foi há 25 anos, mas nem é preciso o aniversário. Todos continuamos a viver aquele 11 de setembro de 2001 que mudou a América e o nosso modo de estar no mundo.
Todos os que já tínhamos idade para receber notícias, todos nos lembramos onde estávamos. Naquela terça-feira, partilhamos a angústia, a dor, o desespero, mesmo de quem tinha casa longe de nós e da comunidade de cada um de nós. E assim foi vivido, momento a momento, com tremenda intensidade por milhares de milhões de pessoas que, em qualquer lugar do mundo, então ainda muito analógico, tinham acesso a um aparelho de rádio ou de televisão.
Então ficámos a suspeitar o que a seguir viríamos a saber. A América e com ela o nosso modo de viver estavam sob ataque. 19 terroristas-suicidas da Al Qaeda tomaram o controlo de quatro aviões de passageiros e transformaram-nos em bombas, dois contra as torres gémeas de Nova York, outro contra o Pentágono, simbolo em Washington e da potência militar americana. O quarto fracassou o alvo dos terroristas após corajoso motim dos passageiros. Precipitou-se sobre um bosque da Pensilvânia.
Sabemos que aquele dia de infâmia mudou a vida no mundo e alterou toda a arquitetura de segurança.
Muitos de nós teremos começado por julgar, ao olhar o ecrã, era em Portugal hora de almoço, tudo começou às 8 e 46 da manhã em NY. Pensou-se que talvez alguma avioneta tivesse perdido o rumo e chocado com a torre norte do WTC, uma das Torres Gémeas no coração da cidade. Passados 17 minutos, vimos um avião de passageiros, um Boeing 767 da United Airlines, aparelho que voa a 500 quilómetros por hora, a perfurar andares de topo da outra das torres gémeas.
A verdade tomava a estrutura da ficção. Váamos o mundo tornar-se mortalmente real. Vimos pedaços que se soltavam de andares altos das Torres Gémeas e que se precipitavam no vazio.
Percebemos que, logo a seguir, também tombavam seres humanos. Pessoas que confinadas à terrivel alternativa entre arder vivas ou conseguir abreviar o fim para sempre num salto rápido para o vazio, assim, desgraçadamente libertador – fizeram essa segunda escolha.
Até que – 102 minutos depois do primeiro ataque – as duas torres, uma após a outra, também deixaram de aguentar. O aço que reforçava a estrutura de betão armado derreteu-se com o fogo de milhares de litros de queroseno, deixou de ser suporte, e tudo se desmoronou a amontoar um gigantesco sarcófago de escombros que esmagaram 2.606 seres humanos que já estavam a trabalhar no World Trade Center, e mais 346 bombeiros , policias e outros socorristas. No céu de NY ficou uma aterradora imensa nuvem de poeiras.
Naquele momento não soubemos, sabemos hoje 25 anos depois, que, por causa do que aquele terrorismo desencadeou ,centenas de milhar de outras vidas passaram as portas da morte em outros infernos – Afeganistão, Iraque, Sudão, muitos outros. Ficou ativada a engrenagem do terror cego. Os atentados de Madri, 2004, Londres, 2005, o Bataclan em Paris em 2015 , e tantos outros na guerra que começou neste dia de há 25 anos. Dia em que a reação ao terrorismo levou ao retrocesso da liberdade e da democracia. E ficámos numa guerra que parece eterna e tem agora cenário no Irão e propaga-se pelo Médio Oriente.
Sabemos que aquele de infâmia mudou a vida no mundo e alterou toda a arquitetura de segurança. Muita gente não tinha nascido naquele 11 de setembro de há 25 anos. A arte tem ajudado percebermos. No cinema. O World Trade Center, de Oliver Stone, e o Fahreneit 9/11, de Michael Moore.
Na literatura, por exemplo Don de Lillo com the Falling Man, o homem em queda, Keith o homem que conseguiu sair vivo de uma das torres, e volta a casa de Kianne a mulher de quem se tinha separado. Explica-lhe: agora estamos prontos para nos afundarmos nas pequenas coisas da nossa existência.
Vale contar o que começou faz hoje 25 anos para que se entenda como chegámos a este dia.
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