Universidades, representantes da indústria, pesquisadores e autoridades do Brasil e da Austrália vão se reunir neste mês em São Paulo para discutir o futuro dos minerais críticos e o papel dos dois países no desenvolvimento de cadeias produtivas mais sustentáveis e inovadoras. Idealizado pelo pesquisador brasileiro Marc Picavet, da Universidade de Tecnologia de Queensland (QUT), o Fórum Austrália-Brasil sobre Minerais Críticos busca fortalecer a cooperação bilateral em áreas como pesquisa, processamento mineral e desenvolvimento tecnológico, em um momento de crescente demanda global por esses recursos.
Key Points
- Fórum que será realizado em 29 de setembro em São Paulo reunirá pesquisadores, governo e indústria de mineração de Brasil e Austrália
- Minerais críticos são essenciais para baterias, energia renovável e tecnologias digitais.
- Dos 31 minerais considerados críticos pelos dois governos, 27 estão presentes em ambos os países.
- Brasil lidera as reservas mundiais de nióbio, enquanto a Austrália se destaca em lítio e zircônio.
Brasil e Austrália figuram hoje no topo da lista dos três principais países com potência de exploração de minerais críticos no mundo. De acordo com o USGS, Serviço Geológico dos Estados Unidos, o Brasil concentra a maior reserva de nióbio do mundo, com 93% e a Austrália tem mais de 30% das minas de lítio e zircônio.
Tendo em vista esta ligação, o brasileiro e pesquisador da Universidade de Tecnologia de Queensland,(QUT) em Brisbane, Marc Picavet desenvolveu em conjunto com outros profissionais o Fórum Austrália Brasil sobre Minerais Críticos, que vai acontecer em 29 de setembro, em São Paulo.
Os minerais críticos são muito importantes para a transição energética, ou seja, são utilizados para baterias de carros elétricos, para energia eólica, mas são também utilizados para novas tecnologias, chips de computador, o chip que tá dentro do seu celular, chip de data center para inteligência artificial. Então, há uma demanda muito crescente por esses minerais na Austrália e no Brasil, ambos são países que têm reservas enormes.
“Está tendo todo um processo dos países como Estados Unidos, China, União Europeia, em que eles estão competindo para tentar encontrar fornecedores desses minerais. E eu acredito que o Brasil e a Austrália tem muito em comum, porque eles têm grandes reservas e tem desafios similares, como por exemplo, como ir além da extração dos minerais para para um produto mais acabado, processado, um produto final que agrega mais valor”.
O que são os minerais críticos?
Atualmente, de acordo com listas atualizadas pelos governos brasileiro e australiano, 31 minerais são considerados críticos. Ao todo 27 deles estão presentes em ambos os países. O nióbio, maior mineral crítico em reserva no Brasil, é utilizado na construção civil para criação de aço de alta resistência, também na indústria automotiva na produção de veículos mais leves, no setor de turbinas aeroespaciais, em supercondutores e também em equipamentos médicos para criar resistência a corrosão.
Já o zircônio, mineral disponível na Austrália em abundância, é usado em programas de energia nuclear, indústria aeroespacial, catalisadores químicos e ligas metálicas resistentes à corrosão. E o lítio, mais comumente conhecido, é amplamente utilizado para o desenvolvimento de baterias recarregáveis para dispositivos eletrônicos, como celulares e notebooks, além do uso para baterias de veículos elétricos.
Criação do Fórum
Na Austrália há 3 anos, Marc explica que a promoção do Fórum para discussão desses recursos ocorreu por meio de uma chamada de projetos aberta pelo Ministério de Relações Exteriores da Austrália (DFAT) juntamente com o COALAR (Conselho de Relações Austrália e América Latina).
"Eu já sou pesquisador aqui faz três anos e minha área foca em governança e políticas públicas, principalmente em torno de inovação e sustentabilidade. E o meu interesse é entender como o governo, empresas, universidade e a sociedade podem trabalhar juntos em torno de grandes desafios para um futuro melhor. Foi pensando nisso e por ser brasileiro, eu quis fazer um projeto onde os dois países pudessem colaborar e aí os minerais críticos apareceram naturalmente, porque é uma questão estratégica para os dois países", explica Marc.
O objetivo do Fórum é promover o intercâmbio de informações, pesquisas e conhecimento entre instituições de ensino, como a Universidade de Tecnologia de Queensland e a Fundação Getúlio Vargas (FGV), associações do setor de minérios críticos de ambos os países e empresas mineradoras atuantes no mercado.
“A gente tem os dois grandes parceiros que são a Queensland University of Technology e a FGV. Temos vários centros aqui de pesquisa de cada uma das universidades que vai participar. Convidamos outras universidades brasileiras, como a Unicamp, a Universidade Federal de Minas Gerais e, da Austrália, a Universidade de Queensland. Além disso, chamamos a Associação de Minerais Críticos da Austrália e a Associação de Minerais Críticos do Brasil. O IBRAM, o consulado da Austrália em São Paulo , o MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação), a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e a Fundação de Meio Ambiente de Minas Gerais. Além de várias empresas do setor de minerais críticos”.
A ideia é fazer com que os dois países, que são concorrentes em algumas partes do setor de minérios, consigam trabalhar juntos por soluções para a indústria.
“Graças ao Coalar, a gente organizou esse primeiro evento. A ideia é a cada ano ou a cada dois anos, fazer um evento similar onde a gente possa discutir como está evoluindo essa colaboração no setor de minerais críticos. O Brasil e Austrália são concorrentes em mineração, com o ferro, por exemplo. Mas em minerais críticos, é mais complicado porque são dezenas de minerais. Então tem alguns minerais que os dois países vão ser concorrentes, por exemplo, o lítio, ou níquel, mas em outros minerais, eles não vão ser concorrentes”
Mesmo se os países são concorrentes isso não impede a colaboração. Você pode ter uma competição comercial entre empresas, mas ao mesmo tempo você pode colaborar em pesquisa, em como fazer uma regulamentação melhor, políticas melhores
Segundo o pesquisador, os principais desafios da indústria devem ser debatidos em torno de questões de sustentabilidade, já que hoje o grande gargalo não é a mineração e sim o refino destes minerais, que são encontrados espalhados pelo solo e precisam de processos químicos fortes para serem separados, causando grande preocupação com questões de contaminação por agentes químicos.
“O tema principal é como tornar essas cadeias mais responsáveis e sustentáveis. A gente tem um time bem interdisciplinar. Por exemplo, tem o Center of Future Enterprise, eles vão olhar mais para empresas e tecnologia. Então, blockchain, que é a tecnologia para rastrear os minerais críticos, para ter certeza que a origem é uma origem sustentável. Outro centro é é mais focado na extração de minerais críticos sustentável, como pegar os resíduos da mineração e fazer eles terem mais valor. Extrair mais minerais desses resíduos ou reaproveitar os resíduos.
“Tem também todos os nossos parceiros do Brasil que tem esse olhar mais de sustentabilidade mesmo de como proteger as comunidades, como o FGVCES, que é o um centro de sustentabilidade da FGV e o FGV Earth".
O evento vai ter um especialista de cada área, da sociedade civil, do governo para falar das políticas, um professor que vai falar de mineração, ou a associação associação de minerais críticos que vai apresentar as empresas. Cada um vai trazer sua perspectiva e depois vai ter um painel de discussão.
O Fórum acontece presencialmente em São Paulo, com entrada gratuita e inscrições por e-mail disponíveis no site da Universidade de Tecnologia de Queensland (QUT). Para acessar a transmissão simultânea do evento, que contará com tradução em inglês basta clicar no link.
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