Um ano após ter sido eleito pelo conclave, Leão XIV acaba de publicar a encíclica com o título Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade). Tem subtítulo mais explícito sobre a proteção da pessoa humana no tempo da Inteligência Artificial. O Papa reflete sobre onde nos vai levar o algoritmo, reivindica o que nos faz sermos humanos e adverte: pequenos grupos, com o muito poder que lhes dá o controlo da inteligência artificial, podem orientar informações e consumos, condicionar escolhas e processos democráticos e incidir nas dinâmicas económicas em benefício próprio.
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“Rerum Novarum”, traduzindo do latim, significa “das coisas novas”.
Há 135 anos, em 1891, perante a mudança de época introduzida pela Revolução Industrial (com os avanços que trouxe à produtividade, mas também a crise social e a desumanização que significou), Leão XIII, o italiano que foi Papa por 25 anos, publicou a encíclica que fundou a doutrina social da igreja.
Ao longo dos séculos, as encíclicas como manifesto do pensamento dos Papas influenciaram o curso da história. Há um ano, o Papa nascido em Chicago, ao escolher Leão - Leão XIV - para o nome que o identifica como Papa, quis dar o sinal de que se quer continuador desse Papa da Rerum Novarum. Agora, um ano depois de ter sido eleito pelo conclave, acaba de publicar a encíclica com o título Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade). Tem subtítulo mais explícito sobre a proteção da pessoa humana no tempo da Inteligência Artificial.
O texto, com 110 páginas e 5 capítulos, para além da introdução e da conclusão, tem uma voz de alarme. É sobre o controlo da inteligência artificial por um grupo muito reduzido de pessoas – os tecno oligarcas - que poderá vir a impor a visão da realidade dessas pessoas, ou seja, a visão moral dessas pessoas.
O Papa reflete sobre onde nos vai levar o algoritmo – reivindica o que nos faz sermos humanos e adverte: pequenos grupos, com o muito poder que lhes dá o controlo da inteligência artificial, podem orientar informações e consumos, condicionar escolhas e processos democráticos, incidir nas dinâmicas económicas em beneficio próprio (contradizendo a justiça social e a solidariedade entre os povos).

Leão XIV, contundente, chama a atenção para o facto de vivermos numa época de cegueira espiritual e cultural e para a necessidade de reflexão ética e humanizadora, sem a qual há o risco de o mundo ser conduzido para novas atrocidades, piores que as do passado que hoje deploramos.
Daí que o Papa, nesta primeira encíclica que publica, também na continuidade da laudato si do Papa Francisco (essa projetando a questão ecológica dentro da doutrina social da igreja), agora Leão XIV age sobre a inteligência artificial colocando-a como centro de gravidade do nosso tempo.
A arquitetura do texto desta encíclica assenta sobre a figura bíblica De Babel: uma única linguagem, poder centralizado construído, assente na uniformidade. Leão XIV nomeia os novos monopólios da IA e uma assimetria epistémica, económica e politica, que classifica de incompatível com o bem comum.
Daí que volte ao verbo que repetiu na varanda da Basílica de S. Pedro naquela tarde em que foi escolhido como Papa, o verbo desarmar. Nessa primeira intervenção papal, Leão XIV falou de uma paz desarmada e desarmante; agora nesta encíclica incita a que se desarme a inteligência artificial.
Este Papa tem formação cientifica, é licenciado em matemáticas e para a escrita deste texto consultou cientistas, professores e engenheiros – longe dele renunciar à tecnologia e ao progresso. Mas entende que é preciso impedir a tecnologia de dominar – e manipular – o humano. Insiste: é preciso subtraí-la ao monopólio de uns poucos e colocá-la como bem comum, pedindo aos estados que intervenham nesse sentido. Não basta regulá-la, é preciso desarmá-la.
Leão XIV nesta encíclica denuncia o efeito venenoso das redes sociais e de novos modos de comunicação, que puxam para deriva totalitária e para narrativas mediáticas polarizadas, que recorrem à desinformação, à ridicularização do adversário, à construção sistemática de medos e ressentimentos, levando a que a diversidade do outro seja sentida como ameaça.
O Papa chama a que abracemos o humano. Ler esta encíclica, o mais importante documento pontifício, que cita a filósofa Hannah Arendt, que passa por Tolkien, por Beethoven, pela Guernica e por um filme como a lista de Schindler – é um exercício precioso.
Diz-nos que a resposta ao desafio tecnológico não é um algoritmo melhor. É uma perspetiva diferente sobre a qualidade humana do progresso. O Papa fala connosco sobre as novas formas de desumanização – alerta mesmo para o uso do ecrã do telemóvel pelos mais novos.
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