Olá, eu sou a Joana Pereira e hoje
trago-lhe uma entrevista do nosso
correspondente em Lisboa, Francisco Sena
Santos, a António Costa Silva, perito
internacional em assuntos de energia, em
particular, do petróleo. O foco desta
entrevista: a crise global do combustível.
António Costa Silva é um perito
internacional em assuntos da energia, em
particular do petróleo. Este engenheiro é
académico, é professor, é gestor, foi
presidente da Partex, a empresa da
Fundação Calouste Gulbenkian para gestão do
patrimônio em petróleo. Também foi
ministro da Economia do Mar no governo de
António Costa, atual presidente do
Conselho Europeu. António Costa Silva tem
amplo conhecimento presencial de todo o
Médio Oriente. Em entrevista sobre o atual
sobressalto energético global, ele
diz-nos que estamos perante a maior crise
de sempre sobre oferta de energia.
crise que estamos a viver é a maior crise
da história em termos de oferta de
energia. É a maior, sem dúvida,
porque quando analisa, por exemplo, a
crise que existiu em 1979, foi o segundo
choque petrolífero, que estava relacionado
com o facto de o Irão, na altura, ser o
segundo maior produtor de petróleo do
mundo, produzia seis milhões de barris por
Quando o Ayatollah Khomeini chegou em
fevereiro
tinha caído para cerca de 800 mil
barris por dia. Isso foi suficiente para
lançar o mercado mundial numa grande
convulsão. Hoje, o que temos são vários
grandes produtores mundiais que estão
concentrados no Golfo Pérsico, que
não conseguem, nem produzir, nem fazer o
escoamento dos seus produtos. Portanto,
temos em falta no mercado mundial quinze
milhões de barris de crude por dia, cinco
milhões de barris de refinados. Atenção ao
jet fuel e ao diesel. E a Europa também
depende muito do diesel, ali
daqueles mercados que está em
falta. Trinta por cento dos fertilizantes
mundiais. Já estamos a ter uma crise
e ainda há dias estava a ver no Financial
Times as queixas
muito retumbantes dos agricultores
norte-americanos, porque estão numa
situação também muito difícil, difícil com
o preço dos fertilizantes a
crescer. E se eles estão numa situação
difícil, no resto, muito particularmente
os países mais vulneráveis vão ter mais
dificuldade.
Tem sido muito valorizada a questão
do Estreito de Ormuz para os
combustíveis, mas os fertilizantes são
também...
São. Nós temos uma crise alimentar mundial
que se vai começar a desenhar. E isso é
inelutável, porque depois os
fertilizantes, há um tipo de fertilizantes
que são os nitrogenados, que sobretudo
dependem da ureia. E aqueles
países do Golfo Pérsico produzem 50% da
ureia no mundo. E o que é que
diz a FAO, a Organização das Nações
Unidas,
que gere as questões da
alimentação e da agricultura? Ela diz que
50% da produção agrícola
mundial depende destes fertilizantes
nitrogenados. E os outros fertilizantes,
que são os fosfatados, dependem do
enxofre, que os países do Golfo Pérsico
exportam 40% do enxofre no
mundo. E depois há, por exemplo, os
semicondutores. Os semicondutores são vitais
para todo o funcionamento das indústrias.
Eles produzem hélio, cerca de 45%
do hélio mundial sai dali.
O hélio é um gás inerte, mas é fulcral
para a manufatura dos semicondutores e
também para outras áreas da indústria
aeronáutica, de defesa. Quer dizer, nós
estamos aqui a brincar com fogo, como
é um centro nevrálgico do sistema
energético internacional ainda hoje,
porque as transições energéticas são
sempre lentas. Se olhar pra 1992, na
Conferência do Rio, a matriz energética
mundial dependia em 86,5 de combustíveis
fósseis. E hoje, o que é que se passa?
Depende em 81%. Repare, em mais de trinta
anos, nós temos uma redução muito pouco
significativa, 0,15%,
relativamente ao que é a dependência dos
combustíveis fósseis, porque eles ainda
são muito dominantes no setor dos
transportes, no aquecimento para os edifícios
e pra uma série de indústrias, sobretudo
as indústrias que têm a ver...
as siderúrgicas, as cimenteiras, mas também a
indústria dos fertilizantes, a indústria
dos plásticos. E isso condiciona muito o
que se está a passar. Portanto,
significa paralisar, digamos, o coração
ainda do sistema energético internacional
e paralisar a horta. Porque depois tem o
problema que está aqui adjacente, que é o
fecho do Estreito de Ormuz. E o que que
aconteceu? Muitos daqueles países que
estavam a produzir tiveram que encerrar a
sua produção, porque já não conseguiam
escoar, a capacidade de armazenamento
ficou esgotada. E em cima disso ainda teve
a destruição de infraestruturas
energéticas. São mais de setenta e são
infraestruturas críticas. Eu conheço muito
bem aquelas infraestruturas, trabalhei em
muitos daqueles países. E quando Israel,
logo no segundo dia da guerra, bombardeou
as infraestruturas energéticas do Irão,
aliás, estava nessa altura na RTP, num
programa de televisão, eu disse: "Amanhã
os iranianos vão começar a bombardear as
infraestruturas energéticas dos países do
Golfo". E eles bombardearam o porto de Ras
que é o maior do mundo na Arábia Saudita,
que tem ao lado o complexo de Abqaiq, é o
maior complexo petroquímico do mundo,
processa oito milhões de barris por dia e
tem o campo de Ghawar, que tem trezentos
quilómetros de extensão, que também é o
E, portanto, os sauditas dizem que
estão a lidar com a
danificação que foi feita, mas o problema
muito mais importante é também o gás.
O gás natural liquefeito. Porquê? Porque
é produzido sobretudo no Qatar, vinte por
cento da produção mundial. Atenção, o gás
natural liquefeito é uma das grandes
descobertas da engenharia. Os
engenheiros descobriram que levando o gás
a temperaturas de menos 162
graus Celsius, ele
liquidifica, transforma-se em líquido, e o
líquido ocupa um volume que é 600
vezes inferior ao volume que ele ocupa
normalmente. E é por isso que ele é
carregado em navios criogénicos e
transportado para todo lado do mundo. E a
crise de Fukushima, no Japão, em 2011,
desenvolveu muito este mercado, que
cresceu muito. O que é que se passa? Os
instalações de liquefação de gás.
Atenção que estas são das máquinas mais
extraordinárias que a espécie humana já
conseguiu produzir, porque os circuitos
de refrigeração são muito
complexos. E os cataris dizem que eles
danificaram entre três a quatro destes
trens de liquefação e para reporem para a
normalidade vai demorar entre três a cinco
anos. Isto é mesmo que a guerra terminar
amanhã. Todos estes fatores vão se
conjugar uns com os outros para desencadear
uma crise multidimensional na energia,
na alimentação, nas cadeias de
abastecimento.
Prolongada no tempo.
Há cerca de mil e
seiscentos navios, uns sequestrados dentro
do Golfo e outros ali no Estreito de
Hormuz. São vinte mil marinheiros que
estão numa situação muito difícil. A
Organização Marítima Internacional ainda
hoje publicitou que aquilo é contra todas
as regras que regulam o comércio
internacional. E ainda por cima temos dois
que são imprevisíveis. De um lado, a
imprevisibilidade do presidente Trump e da
porque não tem estratégia nenhuma,
analista de estratégia que é o professor
Colin Gray, que escreveu um livro que é Modern
Strategy. Ele diz que quando se trata das
forças militares, a estratégia é a ponte
que liga os meios militares com os
objetivos políticos. Aqui, como não há
objetivos políticos, isto colapsa tudo. E
do lado iraniano, que é uma ditadura
que é um regime execrável. Portanto,
segundo a revista Time,
naqueles protestos de janeiro deste ano
mataram milhares de pessoas. E o que é que
se passa? A ditadura teocrática agora
ainda está mais militarizada e mais
radicalizada. E, portanto, é uma situação
que é de grande incerteza.
Já nos disse que esta crise está para
durar. Isto é, se
subitamente houvesse um entendimento,
um acordo dos Estados Unidos e Irão, mesmo
que um memorando de entendimento que
permita desbloquear o Estreito de Ormuz,
os efeitos vão, portanto, prolongar-se.
Prolongar-se por quanto tempo e que tipo
de efeitos vamos ter?
Sim, eu acho que os efeitos, pelo menos
um, dois anos, vamos viver situações muito
difíceis. Portanto, este ano vai ser já
e o próximo. Esta crise, com todos os
contornos que estivemos aqui a discutir, é
uma crise de preços que está-se a
transformar numa crise de abastecimento.
Atenção ao que se está a passar já na
Ásia. A Ásia vai ter repercussões
depois ao que se vai passar na Europa.
Há países que já estão com circulação
alternada.
Exato. E com crise de abastecimento, as
Filipinas, a Tailândia, a Índia também é
um problema, é mais sério, mas depois vai
repercutir-se na Europa. E porquê? Porque
os mercados petrolíferos, é muito
interessante, quando há os ciclos normais,
eles funcionam num regime a que chamamos
contango. O que é que isto significa?
Significa que os preços do mercado spot,
da venda física diária dos barris, é
sempre inferior aos preços do mercado de
futuros, ao Brent, ao B-MAX, o WTI dos
Estados Unidos da América. Hoje, os
mercados estão a funcionar exatamente
no regime oposto, a que chamamos, os
especialistas chamam backwardation.
Traduzimos por reversão, mas é um mercado
de extrema reversão. Isto é uma desconexão
total hoje entre os preços de venda
física diária dos barris de crude,
de jet fuel, de diesel, com aquilo que
são os preços do mercado de futuros. Para
lhe dar alguns exemplos, na Ásia, o barril
de jet fuel está-se a negociar a duzentos
dólares por barril.
O diesel a negociar a cento e oitenta,
cento e noventa dólar. E por quê? Porque
os operadores, as companhias,
tudo aquilo que intervém neste sistema
estão com a perceção de que vai haver
escassez e estão a correr atrás de todos
os barris que existem no mundo. E a mesma
coisa nos mercados de gás. Repare que no
meio disto tudo, há aqui um grande
é a minha interpretação, a nível de quem
vai dominar a matriz energética mundial no
século XXI. O presidente Trump que se
quer que sejam os combustíveis fósseis,
que é um desastre, porque há uma
degradação ambiental do clima do planeta.
inexorável, como estamos a ver. E depois
há a China, que é o maior eletroestado do
mundo. Há uma luta entre petrostados e
eletrostados. Mas repare que nesta crise,
dos grandes produtores mundiais de
petróleo e gás, quem é que sai sempre a
ganhar? Os Estados Unidos da América.
Porque os Estados Unidos da América
fizeram a revolução do shale oil e do
shale gás. O shale significa argila,
rocha argilosa. Durante cento e cinquenta
anos, o paradigma com que se trabalhou na
indústria petrolífera, os hidrocarbonetos
geram-se nestas rochas argilosas e depois,
com a compactação da crosta,
migram para altos estruturais,
anticlinais, onde se vão alojar os
fluidos.
Isto confirma muito aquela ideia
do Joseph Schumpeter, que é um economista
austríaco, dizia muitas vezes "as grandes
inovações vêm, não do mainstream, mas das
margens do sistema". E são estudantes
saídos das universidades. Os jovens são
sempre extraordinários. É por isso que
quando eu era professor
no Instituto Superior Técnico, estimulava
muitos alunos a pensarem fora da caixa. E
eles chegam a empresas de média e
pequena dimensão e dizem: "Por que é que não
vamos perfurar diretamente na rocha mãe?"
E a descoberta foi extraordinária,
quarenta por cento de hidrocarbonetos.
Ficaram na rocha mãe. É por isso que os
Estados Unidos têm hoje três bacias,
Bacon, no Dakota do Norte, Eagle Ford e
Permian, no Texas. Cada uma delas é
equivalente a um país do Golfo Pérsico, a
produzir petróleo dentro dos Estados
Unidos. E o presidente Trump
desestabilizou todo o Médio Oriente,
desestabiliza o Golfo Pérsico.
Desestabilizou o mundo, na prática.
Já tomou conta da Venezuela,
quer agora tomar conta também dos recursos
do Irão e está a apostar nesta
superpotência energética. Os Estados
Unidos, de facto, hoje, são uma
superpotência energética. Repare, estão a
produzir catorze milhões e meio de barris
de petróleo por dia. Em 2008, produziam
seis milhões. Nunca aconteceu antes esta
evolução absolutamente incrível. E depois,
no gás, já passaram a Rússia, já são os
primeiros produtores mundiais de gás. E no
início deste mês de abril tivemos uma
situação impensável há poucos anos.
Sessenta e oito navios
superpetroleiros, estavam ancorados nos
Estados Unidos para se abastecerem
de petróleo e de gás natural liquefeito
para trazer esses recursos para o resto do
mundo. E por isso o presidente Trump tem
razão quando diz que está a lucrar e as
companhias, só que ele...
Mesmo assim, para o consumidor americano,
nos Estados Unidos, eles estão a pagar o
galão de combustível a preço,
mais caro.
Tem toda a razão. Portanto
aquilo era uma parte da equação. A outra
que eles esquecem é que o mercado
petrolífero é o mercado líquido global que
funciona. E, portanto, os preços
são regulados e vão
atingir os consumidores americanos. É
muito interessante o que está a dizer,
Francisco, porque há um limiar que é o
de gasolina é cerca de 3.7
litros e o preço do galão, quando chega a
quatro dólares, é um sinal de alarme para
os consumidores americanos.
Já está.
Já passou. Muitos estados estão a seis
dólares. Na Califórnia, está a oito
dólares. Se combinar isto com aquilo que é
o impacto das tarifas e das guerras
tarifárias do presidente Trump, repare que
é uma coisa perfeitamente
inacreditável, porque ele desafia a
teoria económica tradicional sobre o
comércio livre do David Ricardo e diz que
as tarifas iam reverter para os Estados
Unidos e para desenvolver a economia
americana. Um estudo da Penn University
diz que oitenta por cento dos custos das
tarifas estão a ser pagos por
quem? Pelos consumidores americanos e
pelas companhias americanas, como o resto
do mundo adapta-se, procura outros
mercados, os vários blocos
reforçam as suas relações. E tudo isto
está combinado, preços já muito grandes em
termos de petróleo
nos Estados Unidos. Nas bombas de
gasolina, do diesel, está também o custo
de vida a aumentar. A inflação subiu de
uma forma impressionante nos Estados
Unidos e, portanto, todas estas variáveis
vão criar condições muito difíceis
Isso leva à questão
para o presidente e para as eleições
intercalares.
Ele está com quinze pontos de simpatia
negativa. Portanto,
isso era antes do atentado. Depois surgem
estes atentados e vamos ver agora o
impacto que pode ter.
que é que vai acontecer, justamente.
Antes de 28 de fevereiro, antes do começo
da guerra de Israel e Estados Unidos
nas bombas de gasolina portuguesas, o
litro de gasolina estava à volta de um e
setenta, um e setenta e qualquer coisa.
Agora está acima dos dois
euros. Pode voltar a um euro e setenta ou
nunca mais voltará?
Vai ser muito difícil nos próximos anos
nós retornarmos à normalidade por todas as
razões que estivemos aqui a discutir,
porque isso exige um reequilíbrio do
mercado mundial e nós não sabemos quanto
tempo.
O que sobe dificilmente desce.
Exatamente. Quanto tempo é que vai demorar
até se restabelecer todo o funcionamento
no estreito de Ormuz? E depois a
Autoridade Marítima Internacional ainda
não vai ser fácil restabelecer o fluxo e o
tráfico marítimo. Porquê? Porque eles
têm muito medo de minas e dos ataques do
Irão. Aliás, eles referenciam que desde o
início deste conflito, vinte e oito
petroleiros e navios foram atacados no
Golfo Pérsico. E atenção, isto faz um
paralelo com a guerra entre o Irão e o
Se se recordam, entre 1980 e 1988. Segundo
a Lloyd's, que é a maior base
de tráfico marítimo internacional,
houve sessenta e oito ataques nessa
altura, onde os navios americanos, que é o
Samuel Roberts,
chocou com uma mina iraniana, ficou
com um rombo de quatro metros no casco. E,
portanto, houve vários navios que também
foram atingidos. E isto desde o início
deste conflito. As seguradoras são
muito atentas, os donos dos navios têm
muito receio de exporem os seus navios a
esta situação.
Os custos vão disparar.
O frete marítimo
já aumentou mais de cinco, seis vezes e,
portanto, tudo isto está a asfixiar.
O Irão está a reclamar uma compensação
pela travessia do...
Sim, mas eu acho que isso se... Então,
qual é o receio aqui? É que o presidente
Trump danifica todas as suas alianças.
Aliás, vemos a relação que ele tem com a
Europa, minou completamente as alianças
com a Europa. Está a minar
a aliança dos Estados Unidos com os países
do Golfo Pérsico. Os países do Golfo
Pérsico hoje estão-se a perguntar, as
várias monarquias: nós investimos, temos
aqui as bases americanas, não
contribuíram para a
defesa destes países. E, ainda por cima, o
presidente Trump concentrou-se muito na
agenda de Israel. E Israel sai daqui como
a superpotência do Médio Oriente. É
evidente que os outros países do Golfo
Pérsico estão inquietos e estão a pensar
como é que vai ser o seu futuro. Todo o
seu modelo de negócio.
Países que confiavam na prosperidade
E de repente veem tudo abalado.
Tem toda a razão. Veja o Dubai, o centro
financeiro, a estabilidade, tudo isso está
em causa. Mas no meio deste conflito,
ele ordenou às forças americanas para
desmantelarem alguns sistemas de defesa na
Ásia, na Coreia do Sul e no Japão. E
criou os aliados asiáticos que hoje estão
também muito inquietos. Repare, tudo isto
é vindo de um presidente que é
que decide pensando que é um iluminado.
Repare que o Wall Street Journal já
relatou como é que foi a decisão dele para
invadir, para atacar o Irão. Ele
foi alertado pelo general Dun-Duncan, que
é o chefe do Estado-Maior Conjunto das
Forças Armadas, e o general Duncan, aqui
há uma dissonância completa entre a
preparação e a competência das Forças
Armadas americanas, que é indiscutível, e
depois a impreparação e a superficialidade
da liderança política. E ele alertou o
senhor presidente: se atacar o Irão, o
Irão vai fechar o estreito de Ormuz. E ele
terá respondido: isso nunca vai
acontecer, porque o regime vai colapsar em
quarenta e oito horas. E, portanto,
decide com base nisto. E repare, não é
preciso ser-se muito inteligente para ser
presidente dos Estados Unidos da América,
tem muitos serviços, muitas coisas, mas um
presidente altamente impulsivo,
superficial, ainda por cima narcisista.
Teme-se o pior.
Aliás, leva para negociações, privatiza
o sistema de negociações com o genro,
um promotor imobiliário, é
parceiro dele antes de ser presidente,
o Kushner.
É uma espécie de equipa da Remax a fazer
negociações de geopolítica internacional.
Com todo o respeito pela Remax e pelo
setor imobiliário, mas não se pode
transferir daí para as grandes
complexidades geopolíticas. E ele faz isso
repetidamente.
Que mundo virá a seguir, António Costa
Silva?
É, eu penso que o mundo que vem a
seguir depende muito do combate que as
grandes democracias mundiais conseguirem
fazer
à atual situação. Nós temos aqui uma luta
muito grande
se pode chamar os predadores. Repare que
nós tínhamos duas grandes potências
revisionistas da ordem internacional que
existia. E a ordem internacional é uma
ordem liberal, democrática, estabelecida
depois da Segunda Guerra Mundial, com os
países europeus e a liderança dos Estados
Unidos da América.
Tínhamos duas potências revisionistas
dessa ordem, a China e a Rússia. Agora
temos uma terceira, que é os próprios
Estados Unidos da América, através de um
presidente que está a ignorar
completamente as lições do passado e as
lições da história. Ele vai bater
com a cabeça na parede. O presidente Trump
é uma figura que tem pés de barro. Portanto, esses pés de barro cada vez se
vão mais sentir ao longo do seu mandato. O
meu ponto é as grandes democracias
europeias e sobretudo a União Europeia,
têm que reagir e agir de forma mais
assertiva. E porquê? Porque como diz o
Fareed Zakaria no seu livro Era de
Revoluções, o destino deste século vai
depender deste combate entre o
nacionalismo agressivo, o protecionismo,
os predadores e aquilo que as democracias
liberais conseguirem fazer. E a União
Europeia é herdeira da grande tradição do
Iluminismo do século
XVIII. Se olhar para a nossa
grande tradição europeia no século XVIII,
o que os iluministas defenderam foi
o primado da razão contra o
obscurantismo, foi defender a ciência
contra a ignorância, foi defender os
direitos humanos, foi defender a soberania
foi defender todo este conjunto e o
primado do direito. E tudo isso é
absolutamente vital hoje e a Europa tem
que fazer muito mais. Tem feito algumas
coisas. Por exemplo, o tratado Mercosul é
muito importante, com o tratado com a
Índia, com a Austrália, com o Canadá. Tem
que fazer aquilo que o Mark Carney, o
primeiro-ministro do Canadá, disse em
Davos, as potências médias coligarem-se,
desenvolverem várias alianças. E quanto
mais alianças existirem...
Vê que essa possibilidade esteja a
crescer? Ou seja, é um entendimento
entre os países outros?
Sim, sim, isso está a crescer, mas eu
gostaria que crescesse muito mais, porque
é um bocado o que dizia o grande poeta
irlandês William Butler Yeats. Ele
escreveu em 1919 um poema
extraordinário que é The Second Coming. E
ele dizia: "O centro está-se a desmoronar,
os extremos crescem em toda a parte. Aos
melhores falta a convicção, enquanto os
piores estão animados de uma intensidade
apaixonada." Nós vivemos num mundo em que
os melhores, porque têm dúvidas, ficam
mais ou menos paralisados e os piores,
baseados em ideias simplistas e
completamente erradas, tentam dominar o
mundo. E este combate é um combate muito
fulcral.
Até que ponto a transição energética está
posta em causa agora? Que impactos é que
sobre a emergência climática?
O Brasil, países como a África do Sul,
como o Canadá, que é extremamente
importante, como o Reino Unido, como a
Índia, como a Coreia do Sul, o Japão, a
Austrália, Nova Zelândia... nós temos que
acelerar a transição energética. E porquê?
Porque, repare uma coisa, a guerra da
Ucrânia pôs em causa o modelo energético
europeu. A Europa dependia de quarenta e
cinco por cento do gás barato russo. E se
for ver hoje os números, para onde é que a
Europa se virou para os Estados Unidos da
América? Cinquenta por cento das
importações de gás natural liquefeito que
a Europa fez em 2025 vêm dos Estados
Unidos da América. Estados Unidos da
América com essa liderança é uma liderança
imprevisível. Aliás, a grande questão
destes predadores que dirigem algumas
destas superpotências é que usam a
energia, o comércio, a tecnologia, as
cadeias de abastecimento como armas
geopolíticas, como armas de guerra. E,
portanto, a única maneira é a Europa
avançar
na eletrificação das suas economias, na
aposta das energias renováveis, ligar todo
o sistema energético europeu. Eu
muito antes de ser ministro da
Economia, fui convidado por deputados
portugueses ao Parlamento Europeu,
como a atual ministra da Energia e do
Ambiente, para ir discutir as políticas
energéticas europeias. E levava nessa
altura um mapa que mostrava a dependência
dos países do centro e do leste da Europa,
alguns noventa por cento, cem, a Alemanha
naquela altura sessenta por cento do gás
russo. E eu dizia: é fundamental criar-se
o mercado único da energia, que continua a
não existir hoje, ligar a Península
Ibérica, porque na Península Ibérica já
temos mais de cinquenta por cento de
receção da capacidade de importar gás
natural liquefeito. E eles nunca quiseram
isso. Disseram não, a Rússia é um
parceiro fiável. Eu dizia que quem era um
parceiro fiável era a União Soviética.
Tinha o Druzhba Line, o Grand Pipeline,
mesmo no auge da Guerra Fria, nunca
interromperam o abastecimento. Mas que o
presidente Putin interrompeu várias vezes.
E eu disse do presidente Putin, fez uma
tese que é de mestrado, que é como usar a
energia como arma geopolítica. Isto vai
acontecer, acabou por acontecer. Mas
depois, a União Europeia, e eu sou
profundamente europeísta, mas depois não
tira as ilações e nós substituímos uma
dependência por outra, quando devíamos
acelerar toda a transição energética. E
por que é que digo isto? É ver o caso de
Portugal. Portugal entrou no século XXI e
dependíamos em oitenta e nove por
cento dos combustíveis fósseis, petróleo,
gás, carvão. Hoje dependemos sessenta e
quatro por cento. Não há muitos países do
mundo que tenham reduzido vinte e cinco
pontos percentuais em pouco mais de duas
décadas, mas oitenta por cento da
eletricidade que nós consumimos hoje no
país é eletricidade renovável. Vem da
eólica e da solar.
É um número extraordinário.
O que é que acontece? É um número
extraordinário. Vai ver os dados do
Eurostat. Os preços de produção de
eletricidade em Portugal são vinte por
cento inferiores à média europeia. É uma
grande vantagem competitiva. O que é que
temos que resolver aqui? Depois temos um
Estado que é muitas vezes guloso e põe
aqui em cima custos políticos, custos de
sistema e, portanto, quando chega a fatura
final aos consumidores e às empresas,
digamos, esta grande vantagem é um bocado
obnubilada. E não pode, não pode
acontecer isso. Eu penso que isso é
absolutamente fulcral. Mas nós não podemos
esquecer, eu sempre disse, desde há
muitos anos, por exemplo, que a energia
solar ia ser uma das grandes energias
deste século. E porquê? Porque todos os
dias que passam nós recebemos do sol
oito mil vezes mais energia que toda
aquela que o planeta consome. E com a
criatividade humana, o espírito de
inovação, isso hoje está aí.
E nos últimos dez anos, o custo da
energia solar reduziu noventa por cento, a
da eólica trinta por cento. Estas fontes
são muito competitivas e, portanto, a
Europa também tem que apostar nas redes,
tem que ligar todo o sistema energético
europeu e o sistema elétrico. Se fizer
isso, estão estimados entre quarenta a
quarenta e três mil milhões de euros de
poupanças para os consumidores europeus.
Isto é absolutamente vital. E depois as
redes podem funcionar e evitar apagões se
se usarem, portanto, os inversores de
última geração, que é os chamados
inversores grid forming, que estabelecem,
o restart autónomo dos sistemas, geram
toda a potência reativa, gerem bem a
potência reativa. Portanto, há soluções
tecnológicas. É preciso é apostar nisso,
senão vamos voltar ao mesmo. E olhe para
os números de 2025, a Europa gastou
trezentos e oitenta mil milhões de euros a
importar petróleo, gás e alguns países
carvão. E só no mês de março,
em cima desse valor, o aumento é de mais
vinte e quatro mil milhões de euros. Isto
é, com o aumento dos preços dos, dos
combustíveis fósseis, nós arriscamos a ter
um ano de 2026 e 2027 em que essas
despesas vão ser colossais, quando
devíamos reorientar completamente o
sistema, apostar nos recursos domésticos,
na eletrificação das economias e sobretudo
três setores que são vitais e que também
explicam porque é que Portugal ainda
depende muito de combustíveis
fósseis, que é a frota automóvel, por
exemplo, em Portugal temos mais de seis
milhões de veículos. Só cinco por cento é
que está eletrificado. Precisamos avançar.
Seria o momento para lançar a
eletrificação da mobilidade.
Absolutamente. E nos edifícios é a mesma
coisa, no aquecimento. Aliás, há uma
grande agenda mobilizadora do PRR, que é
Bosch Portugal, que é a agenda eAllianz.
Eles estão a descobrir soluções
energeticamente sustentáveis para os
edifícios, por exemplo, esquentadores
elétricos instantâneos, bombas de calor,
tecnologias híbridas. E depois é a
descarbonização das indústrias. Também
temos uma agenda, temos um programa do PRR
que é a descarbonização da indústria,
setecentos e quinze milhões de euros para
as cimenteiras, as siderúrgicas, a
petroquímica, que estão já a adotar
eletrificação dos sistemas,
coprocessamento de resíduos e várias
soluções tecnológicas que podem ser
importantes para o futuro. E tudo isso
temos que acelerar. Seremos muito
mais autossustentáveis e não dependeremos
destas crises que, em cascata, estão a
sacudir o mundo.
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