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'O que sobe no combustível dificilmente volta a descer': António Costa Silva

Tech Leaders on Opening Day of Lisbon Web Summit 2023

Antonio Costa Silva, perito internacional em assuntos da energia, em particular, do petróleo. Source: Bloomberg / Zed Jameson/Bloomberg via Getty Images

António Costa Silva, o atual presidente do Conselho Europeu, ex-ministro da Economia e do Mar no governo de António Costa, fala à SBS em Português sobre a maior crise de oferta de energia da história. Engenheiro e académico com experiência internacional no setor petrolífero, defende acelerar a transição energética e reforçar a cooperação internacional.


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Olá, eu sou a Joana Pereira e hoje trago-lhe uma entrevista do nosso

correspondente em Lisboa, Francisco Sena Santos, a António Costa Silva, perito

internacional em assuntos de energia, em particular, do petróleo. O foco desta

entrevista: a crise global do combustível.

António Costa Silva é um perito internacional em assuntos da energia, em

particular do petróleo. Este engenheiro é académico, é professor, é gestor, foi

presidente da Partex, a empresa da Fundação Calouste Gulbenkian para gestão do

patrimônio em petróleo. Também foi ministro da Economia do Mar no governo de

António Costa, atual presidente do Conselho Europeu. António Costa Silva tem

amplo conhecimento presencial de todo o Médio Oriente. Em entrevista sobre o atual

sobressalto energético global, ele diz-nos que estamos perante a maior crise

de sempre sobre oferta de energia.

A

crise que estamos a viver é a maior crise da história em termos de oferta de

energia. É a maior, sem dúvida,

porque quando analisa, por exemplo, a crise que existiu em 1979, foi o segundo

choque petrolífero, que estava relacionado com o facto de o Irão, na altura, ser o

segundo maior produtor de petróleo do mundo, produzia seis milhões de barris por

dia.

Quando o Ayatollah Khomeini chegou em fevereiro

de 1979

a Teerão, a produção

tinha caído para cerca de 800 mil barris por dia. Isso foi suficiente para

lançar o mercado mundial numa grande convulsão. Hoje, o que temos são vários

grandes produtores mundiais que estão concentrados no Golfo Pérsico, que

não conseguem, nem produzir, nem fazer o escoamento dos seus produtos. Portanto,

por dia

temos em falta no mercado mundial quinze milhões de barris de crude por dia, cinco

milhões de barris de refinados. Atenção ao jet fuel e ao diesel. E a Europa também

depende muito do diesel, ali daqueles mercados que está em

falta. Trinta por cento dos fertilizantes mundiais. Já estamos a ter uma crise

alimentar

e ainda há dias estava a ver no Financial Times as queixas

muito retumbantes dos agricultores norte-americanos, porque estão numa

situação também muito difícil, difícil com o preço dos fertilizantes a

crescer. E se eles estão numa situação difícil, no resto, muito particularmente

os países mais vulneráveis vão ter mais dificuldade.

Tem sido muito valorizada a questão do Estreito de Ormuz para os

combustíveis, mas os fertilizantes são também...

São. Nós temos uma crise alimentar mundial que se vai começar a desenhar. E isso é

inelutável, porque depois os fertilizantes, há um tipo de fertilizantes

que são os nitrogenados, que sobretudo dependem da ureia. E aqueles

países do Golfo Pérsico produzem 50% da ureia no mundo. E o que é que

diz a FAO, a Organização das Nações Unidas,

que gere as questões da alimentação e da agricultura? Ela diz que

50% da produção agrícola mundial depende destes fertilizantes

nitrogenados. E os outros fertilizantes, que são os fosfatados, dependem do

enxofre, que os países do Golfo Pérsico exportam 40% do enxofre no

mundo. E depois há, por exemplo, os semicondutores. Os semicondutores são vitais

para todo o funcionamento das indústrias. Eles produzem hélio, cerca de 45%

do hélio mundial sai dali. O hélio é um gás inerte, mas é fulcral

para a manufatura dos semicondutores e também para outras áreas da indústria

aeronáutica, de defesa. Quer dizer, nós estamos aqui a brincar com fogo, como

costumo dizer,

é um centro nevrálgico do sistema energético internacional ainda hoje,

porque as transições energéticas são sempre lentas. Se olhar pra 1992, na

Conferência do Rio, a matriz energética mundial dependia em 86,5 de combustíveis

fósseis. E hoje, o que é que se passa? Depende em 81%. Repare, em mais de trinta

anos, nós temos uma redução muito pouco significativa, 0,15%,

relativamente ao que é a dependência dos combustíveis fósseis, porque eles ainda

são muito dominantes no setor dos transportes, no aquecimento para os edifícios

e pra uma série de indústrias, sobretudo as indústrias que têm a ver...

as siderúrgicas, as cimenteiras, mas também a indústria dos fertilizantes, a indústria

dos plásticos. E isso condiciona muito o que se está a passar. Portanto,

esta crise

significa paralisar, digamos, o coração ainda do sistema energético internacional

e paralisar a horta. Porque depois tem o problema que está aqui adjacente, que é o

fecho do Estreito de Ormuz. E o que que aconteceu? Muitos daqueles países que

estavam a produzir tiveram que encerrar a sua produção, porque já não conseguiam

escoar, a capacidade de armazenamento ficou esgotada. E em cima disso ainda teve

a destruição de infraestruturas energéticas. São mais de setenta e são

infraestruturas críticas. Eu conheço muito bem aquelas infraestruturas, trabalhei em

muitos daqueles países. E quando Israel, logo no segundo dia da guerra, bombardeou

as infraestruturas energéticas do Irão, aliás, estava nessa altura na RTP, num

programa de televisão, eu disse: "Amanhã os iranianos vão começar a bombardear as

infraestruturas energéticas dos países do Golfo". E eles bombardearam o porto de Ras

Tanura,

que é o maior do mundo na Arábia Saudita, que tem ao lado o complexo de Abqaiq, é o

maior complexo petroquímico do mundo, processa oito milhões de barris por dia e

tem o campo de Ghawar, que tem trezentos quilómetros de extensão, que também é o

maior campo do mundo.

E, portanto, os sauditas dizem que estão a lidar com a

danificação que foi feita, mas o problema muito mais importante é também o gás.

Gás liquefeito.

O gás natural liquefeito. Porquê? Porque

é produzido sobretudo no Qatar, vinte por cento da produção mundial. Atenção, o gás

natural liquefeito é uma das grandes descobertas da engenharia. Os

engenheiros descobriram que levando o gás a temperaturas de menos 162

graus Celsius, ele liquidifica, transforma-se em líquido, e o

líquido ocupa um volume que é 600 vezes inferior ao volume que ele ocupa

normalmente. E é por isso que ele é carregado em navios criogénicos e

transportado para todo lado do mundo. E a crise de Fukushima, no Japão, em 2011,

desenvolveu muito este mercado, que cresceu muito. O que é que se passa? Os

cataris têm ali catorze

instalações de liquefação de gás. Atenção que estas são das máquinas mais

extraordinárias que a espécie humana já conseguiu produzir, porque os circuitos

de refrigeração são muito complexos. E os cataris dizem que eles

danificaram entre três a quatro destes trens de liquefação e para reporem para a

normalidade vai demorar entre três a cinco anos. Isto é mesmo que a guerra terminar

amanhã. Todos estes fatores vão se conjugar uns com os outros para desencadear

uma crise multidimensional na energia,

na alimentação, nas cadeias de abastecimento.

Prolongada no tempo. Há cerca de mil e

seiscentos navios, uns sequestrados dentro do Golfo e outros ali no Estreito de

Hormuz. São vinte mil marinheiros que estão numa situação muito difícil. A

Organização Marítima Internacional ainda hoje publicitou que aquilo é contra todas

as regras que regulam o comércio internacional. E ainda por cima temos dois

beligerantes,

que são imprevisíveis. De um lado, a imprevisibilidade do presidente Trump e da

sua administração,

porque não tem estratégia nenhuma,

vira-se para onde dá.

Há um grande

analista de estratégia que é o professor Colin Gray, que escreveu um livro que é Modern

Strategy. Ele diz que quando se trata das forças militares, a estratégia é a ponte

que liga os meios militares com os objetivos políticos. Aqui, como não há

objetivos políticos, isto colapsa tudo. E do lado iraniano, que é uma ditadura

teocrática, é um regime

que é um regime execrável. Portanto, segundo a revista Time,

naqueles protestos de janeiro deste ano mataram milhares de pessoas. E o que é que

se passa? A ditadura teocrática agora ainda está mais militarizada e mais

radicalizada. E, portanto, é uma situação que é de grande incerteza.

Já nos disse que esta crise está para durar. Isto é, se

subitamente houvesse um entendimento, um acordo dos Estados Unidos e Irão, mesmo

que um memorando de entendimento que permita desbloquear o Estreito de Ormuz,

parando a guerra,

os efeitos vão, portanto, prolongar-se. Prolongar-se por quanto tempo e que tipo

de efeitos vamos ter? Sim, eu acho que os efeitos, pelo menos

um, dois anos, vamos viver situações muito difíceis. Portanto, este ano vai ser já

extremamente difícil,

e o próximo. Esta crise, com todos os contornos que estivemos aqui a discutir, é

uma crise de preços que está-se a transformar numa crise de abastecimento.

Atenção ao que se está a passar já na Ásia. A Ásia vai ter repercussões

depois ao que se vai passar na Europa. Há países que já estão com circulação

alternada. Exato. E com crise de abastecimento, as

Filipinas, a Tailândia, a Índia também é um problema, é mais sério, mas depois vai

repercutir-se na Europa. E porquê? Porque os mercados petrolíferos, é muito

interessante, quando há os ciclos normais, eles funcionam num regime a que chamamos

contango. O que é que isto significa? Significa que os preços do mercado spot,

da venda física diária dos barris, é sempre inferior aos preços do mercado de

futuros, ao Brent, ao B-MAX, o WTI dos Estados Unidos da América. Hoje, os

mercados estão a funcionar exatamente no regime oposto, a que chamamos, os

especialistas chamam backwardation. Traduzimos por reversão, mas é um mercado

de extrema reversão. Isto é uma desconexão total hoje entre os preços de venda

física diária dos barris de crude, de jet fuel, de diesel, com aquilo que

são os preços do mercado de futuros. Para lhe dar alguns exemplos, na Ásia, o barril

de jet fuel está-se a negociar a duzentos dólares por barril.

O diesel a negociar a cento e oitenta, cento e noventa dólar. E por quê? Porque

os operadores, as companhias,

tudo aquilo que intervém neste sistema estão com a perceção de que vai haver

escassez e estão a correr atrás de todos os barris que existem no mundo. E a mesma

coisa nos mercados de gás. Repare que no meio disto tudo, há aqui um grande

combate,

é a minha interpretação, a nível de quem vai dominar a matriz energética mundial no

século XXI. O presidente Trump que se quer que sejam os combustíveis fósseis,

que é um desastre, porque há uma degradação ambiental do clima do planeta.

Isso vai ser

inexorável, como estamos a ver. E depois há a China, que é o maior eletroestado do

mundo. Há uma luta entre petrostados e eletrostados. Mas repare que nesta crise,

dos grandes produtores mundiais de petróleo e gás, quem é que sai sempre a

ganhar? Os Estados Unidos da América. Porque os Estados Unidos da América

fizeram a revolução do shale oil e do shale gás. O shale significa argila,

rocha argilosa. Durante cento e cinquenta anos, o paradigma com que se trabalhou na

indústria petrolífera, os hidrocarbonetos geram-se nestas rochas argilosas e depois,

com a compactação da crosta, migram para altos estruturais,

anticlinais, onde se vão alojar os fluidos.

Isto confirma muito aquela ideia do Joseph Schumpeter, que é um economista

austríaco, dizia muitas vezes "as grandes inovações vêm, não do mainstream, mas das

margens do sistema". E são estudantes saídos das universidades. Os jovens são

sempre extraordinários. É por isso que quando eu era professor

no Instituto Superior Técnico, estimulava muitos alunos a pensarem fora da caixa. E

eles chegam a empresas de média e pequena dimensão e dizem: "Por que é que não

vamos perfurar diretamente na rocha mãe?" E a descoberta foi extraordinária,

quarenta por cento de hidrocarbonetos.

Ficaram na rocha mãe. É por isso que os Estados Unidos têm hoje três bacias,

Bacon, no Dakota do Norte, Eagle Ford e Permian, no Texas. Cada uma delas é

equivalente a um país do Golfo Pérsico, a produzir petróleo dentro dos Estados

Unidos. E o presidente Trump desestabilizou todo o Médio Oriente,

desestabiliza o Golfo Pérsico.

Desestabilizou o mundo, na prática. Já tomou conta da Venezuela,

quer agora tomar conta também dos recursos do Irão e está a apostar nesta

superpotência energética. Os Estados Unidos, de facto, hoje, são uma

superpotência energética. Repare, estão a produzir catorze milhões e meio de barris

de petróleo por dia. Em 2008, produziam seis milhões. Nunca aconteceu antes esta

evolução absolutamente incrível. E depois, no gás, já passaram a Rússia, já são os

primeiros produtores mundiais de gás. E no início deste mês de abril tivemos uma

situação impensável há poucos anos. Sessenta e oito navios

superpetroleiros, estavam ancorados nos Estados Unidos para se abastecerem

de petróleo e de gás natural liquefeito para trazer esses recursos para o resto do

mundo. E por isso o presidente Trump tem razão quando diz que está a lucrar e as

companhias, só que ele... Mesmo assim, para o consumidor americano,

nos Estados Unidos, eles estão a pagar o galão de combustível a preço,

mais caro. Tem toda a razão. Portanto

aquilo era uma parte da equação. A outra que eles esquecem é que o mercado

petrolífero é o mercado líquido global que funciona. E, portanto, os preços

são regulados e vão atingir os consumidores americanos. É

muito interessante o que está a dizer, Francisco, porque há um limiar que é o

preço do galão. Um galão

de gasolina é cerca de 3.7 litros e o preço do galão, quando chega a

quatro dólares, é um sinal de alarme para os consumidores americanos.

Já está. Já passou. Muitos estados estão a seis

dólares. Na Califórnia, está a oito dólares. Se combinar isto com aquilo que é

o impacto das tarifas e das guerras tarifárias do presidente Trump, repare que

é uma coisa perfeitamente inacreditável, porque ele desafia a

teoria económica tradicional sobre o comércio livre do David Ricardo e diz que

as tarifas iam reverter para os Estados Unidos e para desenvolver a economia

americana. Um estudo da Penn University diz que oitenta por cento dos custos das

tarifas estão a ser pagos por quem? Pelos consumidores americanos e

pelas companhias americanas, como o resto do mundo adapta-se, procura outros

mercados, os vários blocos reforçam as suas relações. E tudo isto

está combinado, preços já muito grandes em termos de petróleo

nos Estados Unidos. Nas bombas de gasolina, do diesel, está também o custo

de vida a aumentar. A inflação subiu de uma forma impressionante nos Estados

Unidos e, portanto, todas estas variáveis vão criar condições muito difíceis

Isso leva à questão para o presidente e para as eleições

intercalares. Ele está com quinze pontos de simpatia

negativa. Portanto, isso era antes do atentado. Depois surgem

estes atentados e vamos ver agora o impacto que pode ter.

Vamos ver o

que é que vai acontecer, justamente.

Antes de 28 de fevereiro, antes do começo da guerra de Israel e Estados Unidos

sobre o Irão

nas bombas de gasolina portuguesas, o litro de gasolina estava à volta de um e

setenta, um e setenta e qualquer coisa. Agora está acima dos dois

euros. Pode voltar a um euro e setenta ou nunca mais voltará?

Vai ser muito difícil nos próximos anos nós retornarmos à normalidade por todas as

razões que estivemos aqui a discutir, porque isso exige um reequilíbrio do

mercado mundial e nós não sabemos quanto tempo.

O que sobe dificilmente desce. Exatamente. Quanto tempo é que vai demorar

até se restabelecer todo o funcionamento

no estreito de Ormuz? E depois a Autoridade Marítima Internacional ainda

hoje alertou

para que

não vai ser fácil restabelecer o fluxo e o tráfico marítimo. Porquê? Porque eles

têm muito medo de minas e dos ataques do Irão. Aliás, eles referenciam que desde o

início deste conflito, vinte e oito petroleiros e navios foram atacados no

Golfo Pérsico. E atenção, isto faz um paralelo com a guerra entre o Irão e o

Iraque. Sim.

Se se recordam, entre 1980 e 1988. Segundo a Lloyd's, que é a maior base

de tráfico marítimo internacional, houve sessenta e oito ataques nessa

altura, onde os navios americanos, que é o Samuel Roberts,

chocou com uma mina iraniana, ficou com um rombo de quatro metros no casco. E,

portanto, houve vários navios que também foram atingidos. E isto desde o início

deste conflito. As seguradoras são muito atentas, os donos dos navios têm

muito receio de exporem os seus navios a esta situação.

Os custos vão disparar. O frete marítimo

já aumentou mais de cinco, seis vezes e, portanto, tudo isto está a asfixiar.

O Irão está a reclamar uma compensação pela travessia do...

Sim, mas eu acho que isso se... Então, qual é o receio aqui? É que o presidente

Trump danifica todas as suas alianças. Aliás, vemos a relação que ele tem com a

Europa, minou completamente as alianças com a Europa. Está a minar

a aliança dos Estados Unidos com os países do Golfo Pérsico. Os países do Golfo

Pérsico hoje estão-se a perguntar, as várias monarquias: nós investimos, temos

aqui as bases americanas, não contribuíram para a

defesa destes países. E, ainda por cima, o presidente Trump concentrou-se muito na

agenda de Israel. E Israel sai daqui como a superpotência do Médio Oriente. É

evidente que os outros países do Golfo Pérsico estão inquietos e estão a pensar

como é que vai ser o seu futuro. Todo o seu modelo de negócio.

Países que confiavam na prosperidade

E de repente veem tudo abalado. Tem toda a razão. Veja o Dubai, o centro

financeiro, a estabilidade, tudo isso está em causa. Mas no meio deste conflito,

ele ordenou às forças americanas para desmantelarem alguns sistemas de defesa na

Ásia, na Coreia do Sul e no Japão. E criou os aliados asiáticos que hoje estão

também muito inquietos. Repare, tudo isto é vindo de um presidente que é

impulsivo,

que decide pensando que é um iluminado. Repare que o Wall Street Journal já

relatou como é que foi a decisão dele para invadir, para atacar o Irão. Ele

foi alertado pelo general Dun-Duncan, que é o chefe do Estado-Maior Conjunto das

Forças Armadas, e o general Duncan, aqui há uma dissonância completa entre a

preparação e a competência das Forças Armadas americanas, que é indiscutível, e

depois a impreparação e a superficialidade da liderança política. E ele alertou o

senhor presidente: se atacar o Irão, o Irão vai fechar o estreito de Ormuz. E ele

terá respondido: isso nunca vai acontecer, porque o regime vai colapsar em

quarenta e oito horas. E, portanto, decide com base nisto. E repare, não é

preciso ser-se muito inteligente para ser presidente dos Estados Unidos da América,

tem muitos serviços, muitas coisas, mas um presidente altamente impulsivo,

superficial, ainda por cima narcisista.

Teme-se o pior. Aliás, leva para negociações, privatiza

o sistema de negociações com o genro, um promotor imobiliário, é

parceiro dele antes de ser presidente, o Kushner.

É uma espécie de equipa da Remax a fazer negociações de geopolítica internacional.

Com todo o respeito pela Remax e pelo setor imobiliário, mas não se pode

transferir daí para as grandes

complexidades geopolíticas. E ele faz isso repetidamente.

Que mundo virá a seguir, António Costa Silva?

É, eu penso que o mundo que vem a seguir depende muito do combate que as

grandes democracias mundiais conseguirem fazer

à atual situação. Nós temos aqui uma luta muito grande

entre aquilo que

se pode chamar os predadores. Repare que nós tínhamos duas grandes potências

revisionistas da ordem internacional que existia. E a ordem internacional é uma

ordem liberal, democrática, estabelecida depois da Segunda Guerra Mundial, com os

países europeus e a liderança dos Estados Unidos da América.

Tínhamos duas potências revisionistas dessa ordem, a China e a Rússia. Agora

temos uma terceira, que é os próprios Estados Unidos da América, através de um

presidente que está a ignorar completamente as lições do passado e as

lições da história. Ele vai bater com a cabeça na parede. O presidente Trump

é uma figura que tem pés de barro. Portanto, esses pés de barro cada vez se

vão mais sentir ao longo do seu mandato. O meu ponto é as grandes democracias

europeias e sobretudo a União Europeia, têm que reagir e agir de forma mais

assertiva. E porquê? Porque como diz o Fareed Zakaria no seu livro Era de

Revoluções, o destino deste século vai depender deste combate entre o

nacionalismo agressivo, o protecionismo, os predadores e aquilo que as democracias

liberais conseguirem fazer. E a União Europeia é herdeira da grande tradição do

Iluminismo do século XVIII. Se olhar para a nossa

grande tradição europeia no século XVIII, o que os iluministas defenderam foi

o primado da razão contra o obscurantismo, foi defender a ciência

contra a ignorância, foi defender os direitos humanos, foi defender a soberania

dos países,

foi defender todo este conjunto e o primado do direito. E tudo isso é

absolutamente vital hoje e a Europa tem que fazer muito mais. Tem feito algumas

coisas. Por exemplo, o tratado Mercosul é muito importante, com o tratado com a

Índia, com a Austrália, com o Canadá. Tem que fazer aquilo que o Mark Carney, o

primeiro-ministro do Canadá, disse em Davos, as potências médias coligarem-se,

desenvolverem várias alianças. E quanto mais alianças existirem...

Vê que essa possibilidade esteja a crescer? Ou seja, é um entendimento

entre os países outros? Sim, sim, isso está a crescer, mas eu

gostaria que crescesse muito mais, porque é um bocado o que dizia o grande poeta

irlandês William Butler Yeats. Ele escreveu em 1919 um poema

extraordinário que é The Second Coming. E ele dizia: "O centro está-se a desmoronar,

os extremos crescem em toda a parte. Aos melhores falta a convicção, enquanto os

piores estão animados de uma intensidade apaixonada." Nós vivemos num mundo em que

os melhores, porque têm dúvidas, ficam mais ou menos paralisados e os piores,

baseados em ideias simplistas e completamente erradas, tentam dominar o

mundo. E este combate é um combate muito fulcral.

Até que ponto a transição energética está posta em causa agora? Que impactos é que

esta crise toda pode ter

sobre a emergência climática? O Brasil, países como a África do Sul,

como o Canadá, que é extremamente importante, como o Reino Unido, como a

Índia, como a Coreia do Sul, o Japão, a Austrália, Nova Zelândia... nós temos que

acelerar a transição energética. E porquê? Porque, repare uma coisa, a guerra da

Ucrânia pôs em causa o modelo energético europeu. A Europa dependia de quarenta e

cinco por cento do gás barato russo. E se for ver hoje os números, para onde é que a

Europa se virou para os Estados Unidos da América? Cinquenta por cento das

importações de gás natural liquefeito que a Europa fez em 2025 vêm dos Estados

Unidos da América. Estados Unidos da América com essa liderança é uma liderança

imprevisível. Aliás, a grande questão destes predadores que dirigem algumas

destas superpotências é que usam a energia, o comércio, a tecnologia, as

cadeias de abastecimento como armas geopolíticas, como armas de guerra. E,

portanto, a única maneira é a Europa avançar

na eletrificação das suas economias, na aposta das energias renováveis, ligar todo

o sistema energético europeu. Eu muito antes de ser ministro da

Economia, fui convidado por deputados portugueses ao Parlamento Europeu,

como a atual ministra da Energia e do Ambiente, para ir discutir as políticas

energéticas europeias. E levava nessa altura um mapa que mostrava a dependência

dos países do centro e do leste da Europa, alguns noventa por cento, cem, a Alemanha

naquela altura sessenta por cento do gás russo. E eu dizia: é fundamental criar-se

o mercado único da energia, que continua a não existir hoje, ligar a Península

Ibérica, porque na Península Ibérica já temos mais de cinquenta por cento de

receção da capacidade de importar gás natural liquefeito. E eles nunca quiseram

isso. Disseram não, a Rússia é um parceiro fiável. Eu dizia que quem era um

parceiro fiável era a União Soviética. Tinha o Druzhba Line, o Grand Pipeline,

mesmo no auge da Guerra Fria, nunca interromperam o abastecimento. Mas que o

presidente Putin interrompeu várias vezes. E eu disse do presidente Putin, fez uma

tese que é de mestrado, que é como usar a energia como arma geopolítica. Isto vai

acontecer, acabou por acontecer. Mas depois, a União Europeia, e eu sou

profundamente europeísta, mas depois não tira as ilações e nós substituímos uma

dependência por outra, quando devíamos acelerar toda a transição energética. E

por que é que digo isto? É ver o caso de Portugal. Portugal entrou no século XXI e

dependíamos em oitenta e nove por cento dos combustíveis fósseis, petróleo,

gás, carvão. Hoje dependemos sessenta e quatro por cento. Não há muitos países do

mundo que tenham reduzido vinte e cinco pontos percentuais em pouco mais de duas

décadas, mas oitenta por cento da eletricidade que nós consumimos hoje no

país é eletricidade renovável. Vem da eólica e da solar.

É um número extraordinário. O que é que acontece? É um número

extraordinário. Vai ver os dados do Eurostat. Os preços de produção de

eletricidade em Portugal são vinte por cento inferiores à média europeia. É uma

grande vantagem competitiva. O que é que temos que resolver aqui? Depois temos um

Estado que é muitas vezes guloso e põe aqui em cima custos políticos, custos de

sistema e, portanto, quando chega a fatura final aos consumidores e às empresas,

digamos, esta grande vantagem é um bocado obnubilada. E não pode, não pode

acontecer isso. Eu penso que isso é absolutamente fulcral. Mas nós não podemos

esquecer, eu sempre disse, desde há muitos anos, por exemplo, que a energia

solar ia ser uma das grandes energias deste século. E porquê? Porque todos os

dias que passam nós recebemos do sol oito mil vezes mais energia que toda

aquela que o planeta consome. E com a criatividade humana, o espírito de

inovação, isso hoje está aí.

E nos últimos dez anos, o custo da energia solar reduziu noventa por cento, a

da eólica trinta por cento. Estas fontes são muito competitivas e, portanto, a

Europa também tem que apostar nas redes, tem que ligar todo o sistema energético

europeu e o sistema elétrico. Se fizer isso, estão estimados entre quarenta a

quarenta e três mil milhões de euros de poupanças para os consumidores europeus.

Isto é absolutamente vital. E depois as redes podem funcionar e evitar apagões se

se usarem, portanto, os inversores de última geração, que é os chamados

inversores grid forming, que estabelecem,

o restart autónomo dos sistemas, geram toda a potência reativa, gerem bem a

potência reativa. Portanto, há soluções tecnológicas. É preciso é apostar nisso,

senão vamos voltar ao mesmo. E olhe para os números de 2025, a Europa gastou

trezentos e oitenta mil milhões de euros a importar petróleo, gás e alguns países

carvão. E só no mês de março,

em cima desse valor, o aumento é de mais vinte e quatro mil milhões de euros. Isto

é, com o aumento dos preços dos, dos combustíveis fósseis, nós arriscamos a ter

um ano de 2026 e 2027 em que essas despesas vão ser colossais, quando

devíamos reorientar completamente o sistema, apostar nos recursos domésticos,

na eletrificação das economias e sobretudo três setores que são vitais e que também

explicam porque é que Portugal ainda depende muito de combustíveis

fósseis, que é a frota automóvel, por exemplo, em Portugal temos mais de seis

milhões de veículos. Só cinco por cento é que está eletrificado. Precisamos avançar.

Seria o momento para lançar a

eletrificação da mobilidade. Absolutamente. E nos edifícios é a mesma

coisa, no aquecimento. Aliás, há uma grande agenda mobilizadora do PRR, que é

dirigida pela

Bosch Portugal, que é a agenda eAllianz. Eles estão a descobrir soluções

energeticamente sustentáveis para os edifícios, por exemplo, esquentadores

elétricos instantâneos, bombas de calor, tecnologias híbridas. E depois é a

descarbonização das indústrias. Também temos uma agenda, temos um programa do PRR

que é a descarbonização da indústria, setecentos e quinze milhões de euros para

as cimenteiras, as siderúrgicas, a petroquímica, que estão já a adotar

eletrificação dos sistemas, coprocessamento de resíduos e várias

soluções tecnológicas que podem ser importantes para o futuro. E tudo isso

temos que acelerar. Seremos muito mais autossustentáveis e não dependeremos

destas crises que, em cascata, estão a sacudir o mundo.

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