Alimentos ultraprocessados, como refrigerantes, chips e refeições prontas, estão cada vez mais presentes no dia a dia, e podem ter efeitos além da saúde física.
Um estudo da Universidade Monash, em Melbourne, liderado pela doutora em nutrição e pesquisadora brasileira Barbara Cardoso, aponta que esses produtos estão associados à piora da atenção e a fatores de risco ligados à demência.
A pesquisa analisou dados de mais de 2 mil australianos de meia-idade e idosos sem demência e encontrou uma relação direta entre o consumo desses alimentos e o desempenho cognitivo.
“Qualquer mudança na dieta que aumente o consumo de ultraprocessados parece ter uma associação negativa com a capacidade cognitiva, especialmente com a atenção”, alerta Barbara.

Os chamados ultraprocessados passam por alto grau de industrialização e levam ingredientes que não fazem parte da cozinha tradicional.
“Esses produtos passam por um processamento que transforma a matriz do alimento e introduz ingredientes que a gente normalmente não teria em casa, como corantes, emulsificantes e conservantes”.
Segundo a pesquisadora, esses alimentos são formulados para serem mais baratos, duráveis e atrativos ao paladar, o que ajuda a explicar o alto consumo. Na Austrália, eles já representam mais de 40% da ingestão calórica média da população.
Um dos achados mais importantes do estudo é que mesmo aumentos pequenos no consumo já fazem diferença.
A cada aumento de 10% no consumo de ultraprocessados, a gente observa uma piora na atenção. Isso pode equivaler, por exemplo, a um pacote pequeno de batata chips por dia.Barbara Cardoso, pesquisadora na Universidade Monash
Outro ponto que chama a atenção dos pesquisadores é que os efeitos negativos aparecem independentemente da qualidade geral da dieta. Ou seja, mesmo quem segue padrões considerados saudáveis não está totalmente protegido.
“Mesmo pessoas que seguem a dieta do Mediterrâneo, na qual nos baseamos, mas consomem muitos ultraprocessados, não apresentam proteção em relação a essa queda na atenção”, explica Barbara.
Embora o estudo não tenha encontrado relação direta com perda de memória, o impacto na atenção já é considerado relevante, por ser uma função essencial no dia a dia.
“A atenção é fundamental para atividades como estudar, trabalhar e até dirigir com segurança. Esse pode ser um primeiro sinal de impacto cognitivo”.
Além disso, o maior consumo desses produtos também está ligado a condições como obesidade, doenças cardiovasculares e diabetes, fatores conhecidos por aumentar o risco de demência.
Para a pesquisadora, os resultados reforçam a necessidade de olhar além dos nutrientes e considerar também o nível de processamento dos alimentos.
O que a gente espera é que as pessoas tenham mais informação para fazer escolhas conscientes e que haja também mais regulamentação sobre esses produtos.Barbara Cardoso, pesquisadora na Universidade Monash
Como orientação prática, ela recomenda reduzir o consumo sempre que possível e prestar atenção aos rótulos.
“Se você olha a lista de ingredientes e encontra coisas que não reconhece ou que não teria na sua cozinha, esse produto provavelmente é ultraprocessado e deve ser evitado.”
A pesquisa agora avança para uma nova fase, acompanhando participantes ao longo do tempo para entender melhor os impactos no desenvolvimento de demência, um passo importante para consolidar as evidências sobre a relação entre dieta e saúde do cérebro.
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