Em 40 livros de romances e crónicas, António Lobo Antunes retratou o Portugal contemporâneo como nenhum outro, com todas as contradições e traumas que a ditadura e a guerra colonial deixaram na sua geração, e foi em anos sucessivos apontado para o Nobel da literatura.
Tem sido dito que o facto de outro português, José Saramago, ter sido Nobel em 98, barrou a possibilidade de prémio para outro português.
A rivalidade entre Lobo Antunes e Saramago, os autores portugueses mais internacionalmente celebrados entre os representantes da literatura pós-Revolução dos Cravos, tornou-se, nos meios literários de Lisboa, uma espécie de duelo semelhante ao entre os adeptos do Benfica e do Sporting, como se a admiração por um deles excluísse a admiração pelo outro. Uma dessas polarizações forçadas de antes da era da polarização universal.
Desde a publicação do seu primeiro livro, Memória de Elefante, em 1979, António Lobo Antunes escreveu cada obra como se fosse a última. Talvez porque encontrasse na literatura uma tábua de salvação, um refúgio dos dois caos que enfrentava: o interno e o externo.
A sua biografia é a de um sobrevivente: suportou dois anos em Angola, onde os soldados foram obrigados a despedir-se da adolescência e foram mortos, e superou três tipos de cancro, incluindo dois do pulmão que não o impediram de fumar. Como psiquiatra, explorou os traumas alheios e, perto dos oitenta anos, deixou claro a quem quisesse ouvir o que realmente valia a pena: “O amor e a amizade são as únicas coisas boas da vida. O resto é treta.”
A obra literária do psiquiatra e escritor António Lobo Antunes, construída ao longo de mais de quatro décadas, transformou profundamente a narrativa portuguesa contemporânea. Existe, sem dúvida, um estilo Lobo Antunes: uma escrita que fratura a narrativa tradicional, multiplica vozes e transforma o tempo num espaço circular onde a memória, a consciência e a experiência coexistem sem hierarquias. Os seus romances transcendem as fronteiras do género e criam um território literário único.
Os temas fundamentais que aborda constituem um território singular.
Em primeiro lugar, Portugal e a sua guerra colonial, transformada numa ferida aberta e numa fonte constante de dor. Na sua escrita, a guerra surge como um espaço fantasmagórico de desumanização e de memória traumática que marca o destino individual e coletivo do povo português.
Simultaneamente, Lobo Antunes transformou a doença — física ou mental — numa metáfora do tempo, da fragilidade humana e da persistência da memória. A estes temas acresce um foco constante na injustiça e nas vidas esquecidas: os derrotados, os marginalizados, os que habitam as margens da história.
E em tudo o que escreve, sempre, alta dimensão poética. Embora apresentados como romances, muitos dos seus livros podem ser lidos como imensos poemas em prosa com centenas de páginas. A sua escrita constrói-se através de imagens, elipses, repetições e associações líricas que arrastam o leitor numa corrente verbal de enorme intensidade emocional.
Uma doença degenerativa do cérebro fê.lo deixar de escrever há 3 anos. Agora, a morte aos 83 anos, levantou a grande homenagem a Lobo Antunes que o presidente Marcelo em último ato presidencial quis distinguir ao colocar sobre a urna a mais alta condecoração de Portugal.
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