Novo relatório conclui que muitos australianos continuam a enfrentar dificuldades no acesso a cuidados de saúde mental, desde a procura de ajuda ao acompanhamento especializado. O estudo, divulgado pelo projeto Embrace Multicultural Mental Health da Mental Health Australia, mostra que pessoas que chegaram mais recentemente à Austrália, assim como jovens e mulheres, apresentam maior probabilidade de virem a enfrentar piores condições de saúde mental do que os seus pares locais. Para complementar as ideias deste novo estudo, conversamos com Inês Carvalho Araújo, psicóloga clínica e terapeuta comportamental a viver em Sydney, na Austrália.
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O relatório mostra também que australianos de origens culturais diversas enfrentam obstáculos sociais e estigma no acesso ao apoio psicológico, além de barreiras mais práticas no acesso a estes cuidados.
Adriel Appathurai, ativista da organização de saúde mental juvenil Orygen, disse à SBS News que, embora existam alguns pontos em comum, diferentes grupos culturais enfrentam desafios distintos no acesso aos cuidados de saúde mental.
Adriel nasceu no Sri Lanka e garante que crescer na Austrália como filho de refugiados criou uma mentalidade que dificultava pedir ajuda.
“Penso que, para qualquer pessoa que tenha vindo do estrangeiro, especialmente de contextos de refugiados ou requerentes de asilo, existe uma grande pressão para ter sucesso, bem como para não falhar”, afirmou.
“Pode vir mais diretamente dos pais, mas também pode ser essa interiorização de que: ‘os meus pais trabalharam tanto para me trazerem para aqui, sacrificaram tanto, e agora é minha responsabilidade sustentá-los, cuidar deles, ter sucesso e ser bem-sucedido’.”
“Estigma considerável”
A diretora-executiva da Mental Health Australia, Carolyn Nikoloski, afirmou que a investigação identificou várias pressões vividas por australianos com origens multiculturais e por pessoas nascidas no estrangeiro.
“Sabemos que o processo de mudar de país é, por si só, uma experiência muito stressante, e isso pode ser um fator de risco para problemas de saúde mental”, disse à SBS News.
“Sabemos também que, quando as pessoas ficam separadas da família, dos amigos e de outras redes de apoio, isso pode contribuir para problemas de saúde mental.”
A organização concluiu que australianos com origens multiculturais têm maior probabilidade de sofrer racismo e discriminação, causando impactos negativos adicionais na sua saúde mental.
Segundo Nikoloski, o racismo e a discriminação podem criar estigma, agravado por sentimentos de julgamento dentro da própria família ou comunidade cultural.
“Particularmente nas comunidades multiculturais, sabemos que ainda existe um estigma considerável associado à saúde mental. E esse estigma pode estar ligado a sentimentos de vergonha e à preocupação de não querer preocupar os familiares”, explicou.
Inês Carvalho Araújo, psicóloga clínica e terapeuta comportamental a viver em Sydney, reflete também sobre o impacto de uma mudança de país a nível mental. A especialista explica que o processo é, por norma, entusiasmante e sedutor para quem vê de fora, mas também que o mesmo tende a não ser aplicável a quem de facto o vive.
Problemas sistémicos
Existem também barreiras práticas no acesso ao apoio psicológico, como o próprio sistema de serviços ser confuso e difícil de navegar.
O coautor da investigação, Dr. Andre Renzaho, afirmou que o atraso dos australianos multiculturais na procura de apoio para a saúde mental demonstra a existência de barreiras sistémicas e estruturais que impedem uma integração eficaz no sistema de saúde.
“Os australianos nascidos no país tinham maior probabilidade de receber 20 ou mais consultas do que os migrantes, o que é realmente problemático e revela questões sistémicas”, afirmou Renzaho, professor da Universidade de Western Sydney especializado em saúde e desenvolvimento.
Segundo ele, os desafios para os migrantes começam muitas vezes logo à chegada à Austrália, quando tentam compreender o “complexo” sistema de saúde do país.
“Conseguir comunicar dentro desse sistema, compreender os processos de encaminhamento, ou até perceber a diferença entre os serviços prestados por um médico de clínica geral e por um profissional de saúde mental são aspetos difíceis de navegar”, disse.
Mesmo depois de conseguirem marcar uma consulta adequada, algumas pessoas enfrentam outros obstáculos, como barreiras linguísticas, dificuldades de transporte e problemas financeiros. Segundo Renzaho, isto pode criar uma “lacuna de segurança” que alimenta desconfiança e incompreensão.
“Os migrantes podem ter uma compreensão diferente da saúde mental, incorporando também construções tradicionais e crenças culturais que influenciam a forma como procuram ajuda”, afirmou.
“E essas crenças culturais e normas sociais podem não ser compreendidas pelos profissionais de saúde mental.”
O relatório apresenta várias recomendações para responder a estas preocupações, incluindo educação em saúde mental culturalmente sensível e a formação de uma força de trabalho bicultural na área da saúde mental.
Leitores que precisem de apoio relacionado com saúde mental podem contactar a Beyond Blue através do número 1300 22 4636. Mais informações estão disponíveis no site da organização. O programa Embrace Multicultural Mental Health apoia pessoas de origens culturais e linguísticas diversas.
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