Qual o impacto económico do conflito no Médio Oriente? Declarações do Banco Central da Austrália (RBA)

Petrol prices

A NRMA prevê que os preços nas bombas de combustível aumentem cerca de 10 por cento. Source: AAP

As declarações do Banco Central da Austrália surgem numa altura em que os australianos foram alertados para aumentos nos preços dos combustíveis, bem como para pressões mais amplas sobre o custo de vida, caso o conflito se prolongue.


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Michele Bullock, Presidente do Banco Central da Austrália (RBA), afirmou que o agravamento do conflito no Médio Oriente poderá exacerbar a inflação, embora o impacto global permaneça incerto.

Esta declaração surge numa altura em que os consumidores foram alertados para o eventual aumento do preço do combustível, como consequência da expansão da guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irão.

Fica também o alerta de que um conflito prolongado poderá conduzir a aumentos mais generalizados dos preços, o que reforça os argumentos a favor de novas subidas nas taxas de juro.

Bullock referiu também que o Banco Central da Austrália está a acompanhar de perto os acontecimentos no Médio Oriente, mas que será necessário algum tempo para compreender o seu impacto na inflação interna.

“É demasiado cedo para dizer qual será o impacto. Os acontecimentos estão a evoluir rapidamente e há diferentes formas de a situação se desenrolar”, afirmou na terça-feira, na Cimeira Empresarial do Australian Financial Review.

“Um choque de oferta pode, por exemplo, acrescentar pressão à inflação. E as potenciais implicações para as expectativas de inflação são algo a que estamos muito atentos.

“Mas, ao mesmo tempo, um impacto prolongado nos mercados energéticos pode ter efeitos adversos sobre a atividade económica global e resultar em pressão descendente sobre a inflação. Não é evidente como isto poderá evoluir.”

Bullock reconhece ainda que quem tem empréstimos “gostaria de ter mais certezas quanto à direção das taxas de juro”, mas afirma que o Reserve Bank não irá reivindicar uma certeza maior do que aquela que efetivamente possui.

Ondas de choque internacionais

As rotas comerciais marítimas e aéreas no Médio Oriente foram significativamente afetadas pelo conflito.

O tráfego aéreo na região foi perturbado, com milhares de voos cancelados e o espaço aéreo encerrado sobre o Irão, Iraque, Israel, Arábia Saudita, Kuwait e Emirados Árabes Unidos.

O Estreito de Ormuz, ou seja, a via marítima na fronteira sul do Irão, por onde transitam diariamente 20 milhões de barris de petróleo, ficou praticamente bloqueado, após a retaliação do Irão contra ataques norte-americanos e israelitas.

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O Estreito de Ormuz é um ponto de passagem estreito, com 33 quilómetros de largura, por onde passa aproximadamente 20 a 25 por cento de todo o petróleo e gás natural liquefeito transportado por via marítima. Credit: Joana Pereira

Um navio petroleiro na região estava em chamas na segunda-feira, pelo menos outros quatro sofreram danos e cerca de 150 navios ficaram retidos.

O preço do petróleo disparou na segunda-feira até 13%, atingindo o nível mais elevado desde janeiro de 2025.

Os custos do transporte marítimo de petróleo deverão também aumentar ainda mais na sequência dos incidentes, com seguradoras marítimas a cancelar coberturas de risco de guerra para embarcações. Prevê-se que tal aumente ainda mais a pressão sobre os custos.

Estes avisos de cancelamento são sinónimo de que as empresas de transporte marítimo com navios na região terão de procurar novas coberturas de seguro, a preços mais elevados, para manterem as suas apólices.

Dado o papel do petróleo como recurso essencial a toda a economia, um aumento acentuado do preço representa uma ameaça de impacto desproporcionado na inflação global, que está já bem acima da meta do Reserve Bank.

No pior cenário, os Estados Unidos ficam envolvidos num conflito prolongado com o Irão e o abastecimento de petróleo é interrompido por mais tempo. Shane Oliver, economista-chefe do grupo financeiro australiano AMP, explica que, se assim for, o preço do petróleo por barril pode dobrar e, assim, atingir cerca de 150 dólares norte-americanos.

A Ministra dos Serviços Sociais, Tanya Plibersek, afirmou que “naturalmente” haverá repercussões económicas internas decorrentes do agravamento do conflito no Médio Oriente.

Esta segunda-feira, Plibersek disse no programa Sunrise: “Houve um impacto económico da invasão da Ucrânia pela Rússia que afetou todo o mundo, incluindo a Austrália. O nosso petróleo e combustíveis, a nível global, acabam por ser afetados pelo que é produzido no Médio Oriente.”

Mas qual será, afinal, o impacto nas bombas de gasolina?

Uma regra prática, amplamente aceite, indica que cada aumento de 10 dólares norte-americanos no preço de um barril (equivalente a 14 dólares australianos) acrescenta cerca de 10 cêntimos por litro nos postos de combustível na Austrália.

Saul Eslake, economista independente e membro associado do vice-reitor da Universidade da Tasmânia, disse à SBS News o seguinte:

“Se chegar, por exemplo, aos 95 dólares norte-americanos (ou seja, 135 dólares australianos), podemos estar a falar de mais 25 a 28 cêntimos por litro, o que o coloca muito próximo, penso eu, dos 2 dólares por litro, dependendo da zona onde se encontra”.

Este domingo, a aliança petrolífera OPEP+ acordou aumentar a produção de petróleo em 206 mil barris por dia para abril. A Arábia Saudita, líder do grupo, tinha já aumentado a produção antes do conflito, como medida preventiva.

Saul Eslake explica que, em princípio, esta medida é sinónimo de que os preços do petróleo não sobem como subiram em 2022.

De que forma taxas de juro e outros bens podem ser impactados?

Embora o Reserve Bank não inclua bens voláteis, como combustíveis e tarifas aéreas, que tendem a subir com o aumento do preço do petróleo, Saul Eslake explica que, caso o conflito se prolongue por “dois a três meses”, os custos mais elevados do petróleo vão começar a impactar o transporte interno, o custo dos plásticos e os bens de consumo.

“Se isso vier a acontecer, e se o Reserve Bank se vir obrigado a aumentar de forma significativa as suas previsões para a taxa de inflação subjacente — que exclui estes itens voláteis — então quase de certeza terá de ponderar novos aumentos das taxas de juro.”

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