Desacelerar, escutar e criar espaço para reflexão num momento de guerras, polarização e excesso de ruído político e mediático. A curadoria da Bienal de Veneza 2026 propõe uma arte menos baseada no choque e mais na contemplação, no diálogo e na convivência.
Veneza é um ambiente construído. Uma criação cultural. Até aqui com o dique da engenharia hidráulica, a salvá-la da submersão pelas marés marinhas. Também muito exposta às marés turísticas humanas: 24 milhões de visitantes no ano passado, numa cidade aquática com apenas 48 mil residentes.
Por seis meses, é a montra múltipla do grande espectáculo do mais célebre acontecimento do calendário internacional da arte contemporânea: a Bienal de Veneza.
Este ano, propõe que escutemos sem a disrupção de gritarias.
Sempre com multidões, espectáculo mediático e, às vezes, polémicas geopolíticas, um espelho do mundo instável.
Sobretudo desta vez, o impacto mediático foi enorme ao longo do último mês, com a discussão geopolítica em torno da decisão do presidente da Bienal, Pietrangelo Buttafuoco, de acolher, entre os pavilhões de quase todos os países do mundo, os de dois países proscritos pela comunidade ocidental: a Rússia e Israel.
O argumento de Buttafuoco: a arte deve unir e não dividir.
Uma decisão que levou a enorme contestação, incluindo da Comissão Europeia, que cortou apoios, e que culminou, nos dias da inauguração, com greves e manifestações.
O embaixador da Rússia foi barrado pelas Pussy Riot, com centenas de apoiantes a desafiá-lo, de seios nus pintados de azul e amarelo, as cores da Ucrânia.
Noutro ponto do parque, cânticos, bandeiras da Palestina desfraldadas e a representação de corpos massacrados.
No dia da inauguração, 20 países não abriram as portas dos seus pavilhões, em protesto contra o acolhimento de russos e israelitas.
Depois da tensão política, prevalece agora a arte exposta nos múltiplos espaços, alguns vastíssimos, de uma Bienal que, pela primeira vez, teve uma mulher negra como curadora.
O tema é In Minor Keys, “em tons menores”, e o desafio é baixar o volume do som do mundo para que a arte se imponha como espaço de escuta e consenso.
Esta Bienal propõe que escutemos sem a disrupção de gritarias, escapando à estridência dos discursos, com foco no essencial. É a declaração de intenções da curadora camaronesa Koyo Kouoh, que faleceu antes da abertura da Bienal, mas cuja equipa faz tudo para que a exposição esteja exactamente como ela planeou.
Logo numa das entradas, “o mundo todo numa sala”: o Jardim Crioulo, onde múltiplas plantas diferentes convivem sem hierarquias e se protegem umas às outras.
Depois, múltiplos percursos, com uma constante: a palavra, uma certa forma de escuta, a cadência, as pausas, os ritmos.
Logo nas primeiras salas, a mostra desdobra-se em cenários de intensidade crescente: cerâmicas de artefactos negros animalários, figuras embalsamadas com resíduos industriais, murais onde o vegetal e o humano se confundem.
Em paralelo, tudo vai sendo contado pelo podcast La Biennale On Air.
Também há Banksy, com a criança migrante que o mestre britânico da arte mural criou em Veneza com stencil e sprays. Um fresco contemporâneo que se tornou emblema dos direitos dos migrantes, dos refugiados e também denúncia dos naufrágios nas rotas do Mediterrâneo.
Retrata uma criança de cabelos ao vento, com colete salva-vidas, segurando na mão direita o caule de uma planta queimada arrancada da terra e, na mão esquerda, uma tocha de sinalização rudimentar, da qual se levanta uma coluna de fumo.
A criança está de pé, mas as pernas permanecem imersas na água.
Este mural, obra frágil e poderosa que Banksy criou há quase uma década, foi restaurado depois de ter ficado parcialmente submerso, com algas e mexilhões aos pés. Está agora protegido por uma caixa de vidro climatizada e, neste fim-de-semana, foi destacado da parede do Palazzo San Pantalon e transportado pelo Grande Canal e em torno da Giudecca, em Veneza.
Num palácio à beira do canal, RedSkyFalls é a mostra do Pavilhão de Portugal. Cruza tecnologia, ciência, arte e som, com os estrondos dos movimentos sísmicos numa criação de Alexandre Estrela.
O cardeal José Tolentino de Mendonça, curador da presença da Santa Sé, escolheu o tema: “O ouvido são os olhos da alma”. Reuniu a voz de Carminho, a pintura poética de Ilda David, as artes multimédia de Brian Eno, a experiência acústica e coreográfica de Meredith Monk e a criadora total Patti Smith, que, ao entrar no pavilhão da Santa Sé, se pôs espontaneamente a cantar uma oração por um mundo melhor.
É essa a proposta desta Bienal em Veneza: baixar o tom, ouvir com calma, tentar construir um mundo melhor para todos.
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