Austrália tem o único grupo de pesquisa para medicamento que poderá ser alternativa à quimioterapia, diminuindo grandemente os efeitos colaterais que o tratamento convencional causa atualmente nas crianças, como infertilidade e risco de outros cânceres na fase adulta.
O projeto de pesquisa ousado do Children's Cancer Institute, em Sydney, pode levar ao primeiro medicamento eficaz para tratar o câncer cerebral mortal, o DIPG (glioma pontino intrínseco difuso), em crianças.
O PhD em bioquímica, o catarinense doutor Jean Bertoldo, lidera o único grupo de pesquisa na Austrália e no mundo, baseado no conceito de Target-Based Drug Design, medicamentos baseados na linha de precisão e personalização, ou seja, focado em atingir apenas as células cancerígenas e preservar as células saudáveis.
O grande problema dos tratamentos, como a quimioterapia, é o sofrimento durante o tratamento, que ainda pode prejudicar muito a vida adulta da criança e da famíliaexplica o doutor em bioquímica, Jean Bertoldo, líder do grupo de pesquisa da Children's Cancer Institute, em Sydney.
Estima-se que cerca de 750 crianças entre os 0 e os 14 anos são diagnosticadas com câncer todos os anos na Austrália. Em 2022, Quase metade (48%) de todas as crianças diagnosticadas com câncer na Austrália tinham entre 0 e 4 anos de idade no momento do diagnóstico.
A cena da pessoa em tratamento contra algum câncer raspando o cabelo é algo já bem emblemático na luta de muitas pessoas contra os cruéis tumores, mas a queda de cabelo é apenas um dos efeitos colaterais que os tratamentos atuais disponíveis contra o câncer podem causar.

Quando se trata de crianças, apenas o fato de ser um corpo menor, com células ainda em desenvolvimento, os efeitos químicos dos procedimentos atuais podem chegar a causar infertilidade e aumentar o risco de desenvolver outros cânceres na fase adulta, explica o bioquímico.
A quimioterapia atinge células ruins, mas também as boas. A nossa pesquisa foca em desenvolver um medicamento que ataque apenas as células ruinsDiz Jean Bertoldo
Tumores do sistema nervoso, como neuroblastoma, meduloblastoma, e o DIPG (glioma pontino intrínseco difuso), que é altamente agressivo podendo levar a orbito em menos de 9 meses, são o enfoque da pesquisa que segue a linha da medicina de precisão e personalizada
O que é medicina de precisão e personalizada?
Jean explica que o primeiro passo é entender as causas da doença e como ela se multiplica. “Entender como a doença ocorre e focar na raiz do problema, podendo assim atacar precisamente aquele tumor.”
Usando as ferramentas de ponta da quimioproteômica e da inteligência artificial, ele desenvolveu um sistema que visa especificamente uma mutação genética que se acredita ser o principal impulsionador do DIPG.

Isso significa que, através da tecnologia, o doutor Jean e sua equipe estão conseguindo mapear as células cancerígenas e o fator de mutação, atacando assim o agente causador da mutação e não apenas a célula já afetada. Isso é o que ele chama de “preciso”.
O “personalizado” seria que, apenas através do mapeamento de caso a caso, é possível definir que tipo de medicamento para cada paciente, diminuindo ainda mais o risco de qualquer efeito colateral durante e depois do tratamento.
“A ideia com a medicina precisa e personalizada seria ter um medicamento, que a pessoa vai tomar e esse vai controlar ou eliminar o tumor, mas a pessoa poderá continuar sua rotina de vida normal. Temos uma visão holística, focando em melhorar a qualidade de vida da criança e da família”, explica Jean.

A indústria farmacêutica estaria atrasando a descoberta da cura do câncer, por fins lucrativos?
Jean explica que as pesquisas na área de câncer infantil “são uma batalha constate”, já que a demanda de crianças afetadas por algum tipo de tumor cancerígeno é bem menor que o número de adultos. Outro fato seria o alto nível de mutação que câncer em crianças pode alcançar.
“Tratamentos atuais em crianças têm um índice baixo de resultados positivos devido à alta mutação dessas células. Cerca de apenas 15% dos casos conseguem alcançar a cura”, ressalta Jean.

Por conta dessas dificuldades, conseguir financiamento para as pesquisas são sempre um processo longo, que influencia no tempo de desenvolvimento dos medicamentos.
As fases de testes são muito caras, e os grupos de pesquisas precisam negociar as patentes com as empresas farmacêuticas para conseguir prosseguir com as pesquisas. Jean conta que um medicamento como esse, pode chegar (ou ultrapassar) o valor de US$ 1,5 milhões e levar até 10 anos para chegar ao público.
Mas o Bertoldo ressalta que a cura contra o câncer não é algo simples, já que essa é uma doença em constante mutação, que atinge diferentes partes do corpo, cada uma com sua particularidade.
A ideia de que a indústria farmacêutica não permite a cura do câncer é lenda urbana. Sim, há negociações, mas a pesquisa para qualquer câncer é complexa pela sua variedade de fatoresexplica o doutor Jean Bertoldo.
Causas, prevenção e esperança
Jean explica que, na Austrália, os pais podem solicitar a genotipagem de cada que mostra os genes dos pais ou dos filhos, e a pré-disposição para desenvolver um câncer.
Apesar das predisposições genéticas ser uma das razões para o desenvolvimento de tumores, o cientista enfatiza que a histórico familiar é apenas um fator, mas que um estilo de vida incluindo o consumo de tabaco, álcool ou entorpecentes, e um ambiente mais poluído no ar, água e solo, pode aumentar até 3 a 4 vezes a chance de desenvolvimento de células cancerígenas.

Doutor Jean segue otimista com a pesquisa e traz uma mensagem de esperança para todos os que têm que lidar com uma das mais cruéis doenças da modernidade.
Creio que no futuro o câncer não vai mais ser uma sentença de morte. E esse dia não está longeAcrescenta o doutor Jean Bartoldo.
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