Uma notícia sobre o mercado de comunicação australiano passou abaixo do radar das principais manchetes em janeiro deste ano: as rádios 2GB, de Sydney, 3AW, de Melbourne, 4BC, de Brisbane, e a 6PR, de Perth, foram vendidas pelo grupo Nine à bilionária família Laundy, que fez fortuna no mercado de pubs em todo o país.
As quatro rádios, muito tradicionais e conservadoras, com foco em debates e participação do público, foram negociadas juntas por 56 milhões de dólares australianos.

Pra se ter uma ideia, o tradicional pub Hotel Steyne, de Manly, nas Northern Beaches de Sydney, foi vendido em 2019 por um valor maior que isso à época: 60 milhões de dólares, que, se calculada a inflação desde então, equivalem a 74 milhões no dinheiro de hoje. Quase 20 milhões de dólares a mais que as quatro rádios juntas.
O Hotel Stayne foi vendido a um grupo sem qualquer relação com a família Laundy, e o uso aqui é meramente como parâmetro de valores.
Este baixo valor é um sintoma de mudança geracional de como as pessoas consomem notícias. As plataformas de comunicação antigas, como rádio e TV dão cada vez mais espaço, mais que à internet, ao mundo dominado por redes sociais, big techs e algoritmos cujos critérios são obscuros.
A ideia da AI generativa é que, a partir dos dados que ela tem, gere outros novos. Mas há muitos resultados que chamamos de "alucinação" (resultados incorretos ou enganosos apresentados de forma confiante).Mathias Felipe de Lima Santos, da USNW.
As fronteiras entre informação e desinformação são cada vez mais tênues. E a presença da inteligência artificial já está mudando ainda mais a maneira como o cidadão comum consome notícias — e o faz cada vez menos de fontes primárias de jornalismo, área que será uma das mais afetadas pela AI pelos próximos anos, depois de profundamente modificada pelas redes sociais nas últimas duas décadas.
Para entender este mundo em que as notícias estão à mercê de algoritmos, a competir nos feeds com cachorrinhos, memes, dicas de maromba, e também com toda uma cadeia internacional de desinformação política orquestrada, conversamos com o jornalista e professor brasileiro da Universidade de Nova Gales do Sul, Mathias Felipe de Lima Santos.

Paulista de São José dos Campos, Mathias junta dois mundos que hoje se conectam profundamente. Primeiro formou-se em Ciências da Computação na USP, depois em Jornalismo na Federal do Rio de Janeiro.
Depois de atuar como jornalista, iniciou uma extensa carreira acadêmica na Europa, que culminou em um doutorado em Comunicação na Universidade de Navarra, na Espanha.
O professor Mathias de Lima Santos é reconhecido como um dos maiores talentos emergentes do mundo na pesquisa que junta comunicação e tecnologia. Tem mais de 49 artigos publicados em periódicos acadêmicos e livros, sendo 27 destes classificados como de primeira linha. Segundo a universidade em que trabalha, foi reconhecido pelo jornal The Australian e pela Academia Australiana de Humanidades como uma estrela em ascensão na área de Comunicação e Estudos Culturais.
'A AI vai ser utilizada de maneira questionável, mas é um processo que não temos como escapar. A AI generativa chegou para ficar, tem um interesse do mercado muito forte na absorção dessas ferramentas.'Mathias Felipe de Lima Santos.
Nesta conversa com a SBS em Português, Mathias Felipe de Lima Santos contextualiza as mudanças no consumo de informação das pessoas com a chegada da inteligência artificial -e de como isso impacta na noção do que é informação e desinformação.
Ele também explica os cenários possíveis com a introdução massiva da inteligência artificial na área, e dá sugestões de como o cidadão comum pode se precaver de informações falsas em meio a um universo em constante mudança dominado por algoritmos cujo funcionamento é mantido em segredo pelas empresas que dominam a comunicação digital.
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