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Como é a vida dirigindo caminhões gigantes em minas no Outback

Monica Holanda

A brasileira Mônica Holanda dirige os caminhões gigantes em plantas de mineração no interior da Austrália, depois de começar lavando pratos na cozinha dos alojamentos. 'Você faz muitos amigos nas minas, porque está todo mundo no mesmo barco, né? Acaba vendo trabalhos melhores do que o seu que às vezes não precisam de muita formação".

A brasileira Mônica Holanda deixou uma ascendente carreira de aeromoça para fazer um pé de meia nas plantas de mineração no interior da Austrália, que costumam ter salários anuais na casa dos seis dígitos. Hoje, ela dirige os enormes veículos que carregam o minério extraído durante longos turnos sob o sistema FIFO (Fly In, Fly Out): duas semanas 'internada', duas semanas de volta à sua casa em Perth. Nesta conversa com a SBS em Português, ela conta os prós e contras da vida nas minas.


Segundo o governo federal, cerca de 66% das exportações australianas vêm da exploração de minérios e energia. A famosa qualidade de vida material da população se deve, em grande parte, ao que é extraído no interior do vasto continente ou dos mares.

Isso é ainda mais evidente na Austrália Ocidental, estado que tem quase metade do Produto Interno Bruto, o PIB, proveniente da mineração.

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Mônica Holanda começou nas minas na área de hospitalidade. "Nunca imaginei trabalhar com caminhões. Tinham algumas meninas lá que já faziam isso, eu as achava superpoderosas, né? E elas falavam, você precisa tirar sua (carteira de habilitação na categoria) 'heavy rigid'. Eu fui atrás. Hoje, adoro operar máquinas gigantes".

Não por acaso, trabalhar para as mineradoras é uma ótima opção pra quem sonha em fazer um pé de meia em um tempo relativamente curto. Há uma ampla oferta de vagas com treinamentos simples no esquema FIFO (Fly in, Fly Out). Ou seja, voar pra entrar, voar pra sair. A empresa paga o transporte, geralmente de avião, até um campo de mineração e fornece toda a estrutura aos empregados. Os trabalhadores passam um tempo "internados" na mina, com quase nenhuma despesa, e depois voltam pra casa de folga por um período similar.

Eu cursei publicidade no Brasil e não consegui fazer meu trabalho aqui, então fiquei muito em 'hospitality'. Eu tinha essa ambição de juntar grana e não via muito futuro, também não como aeromoça. Então eu vi (a vida nas minas) como uma saída pra ter uma reserva maior de dinheiro, pra talvez conseguir comprar uma casa. Os salários são todos acima de 100 mil.
Mônica Holanda.

O trabalho costuma ser pesado, com turnos longos em regiões de clima extremo. Para muitos, pode ser psicologicamente desafiador. A compensação é o salário, quase sempre na casa dos seis dígitos anuais.

A brasileira Mônica Holanda é uma dessas pessoas que se acertaram no esquema FIFO. A carioca criada em Fortaleza trabalhou um bom tempo no setor de hospitalidade na Austrália e chegou a iniciar uma carreira de aeromoça.

Mineração
Um caminhão em uma mina de carvão nos EUA. Veículo similar ao que a brasileira Mônica Holanda dirige em WA. Credit: AP

Porém, ao sair de um relacionamento, seu foco passou a ser a independência financeira. Foi o que a atraiu para tentar a vida nas mineradoras. O caminho que ela encontrou foi ser motorista daqueles caminhões gigantes que recebem o minério extraído diretamente das máquinas de escavação.

São veículos gigantes, de cinco metros de altura e mais de 100 toneladas, mas que, com a tecnologia atual, são relativamente fáceis de se dirigir.

Eu queria crescer (na carreira) como aeromoça, mas vinha de uma separação. Daí, 'apliquei' como 'kitchen hand' numa mineradora, sem precisar de skills, no esquema FIFO. Era um valor bem maior do que o que ganhava como aeromoça. De lá, me achei. Foi um mundo novo pra eu aprender, para minha própria segurança financeira.
Mônica Holanda.

Nessa conversa com a SBS em português, Mônica Holanda, que mora em Perth, conta como é a vida pilotando essas máquinas enormes em turnos de 12 horas no esquema FIFO.

A brasileira relata os prós, os contras e dá detalhes pra quem cogita tentar a sorte profissional neste mundo particular da vida australiana.

—-

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[música suave] Segundo o governo federal, cerca de 66% das exportações

australianas vêm da exploração de minérios e energia.

A famosa qualidade de vida material da população se deve, em grande parte, ao que

é extraído no interior do vasto continente ou dos mares.

Isso é ainda mais evidente na Austrália Ocidental, estado que tem quase metade do

Produto Interno Bruto, o PIB, proveniente da mineração.

Não por acaso, trabalhar para as mineradoras é uma ótima opção pra quem

sonha em fazer um pé de meia em um tempo relativamente curto.

Há uma ampla oferta de vagas com treinamentos simples no esquema FIFO ou

fly in fly out, ou seja, voar pra entrar, voar pra sair. A empresa paga o

transporte, geralmente de avião, até um campo de mineração, e fornece toda a

estrutura aos empregados. Os trabalhadores passam um tempo internados na mina, com

quase nenhuma despesa, e depois voltam pra casa de folga por um período similar.

O trabalho costuma ser pesado, com turnos longos em locais de clima extremo.

Para muitos, pode ser psicologicamente desafiador.

A compensação é o salário, quase sempre na casa dos seis dígitos anuais.

-[música suave] -A brasileira Mônica Holanda é uma dessas

pessoas que se acertaram no esquema FIFO.

A carioca criada em Fortaleza trabalhou um bom tempo no setor de hospitalidade na

Austrália e chegou a iniciar uma carreira de aeromoça. Porém, ao sair de um

relacionamento, seu foco passou a ser a independência financeira. Foi o que a

atraiu para tentar a vida nas mineradoras.

O caminho que ela encontrou foi ser motorista daqueles caminhões gigantes que

recebem o minério extraído diretamente das máquinas de escavação.

São veículos gigantes, de cinco metros de altura e mais de 100 toneladas, mas que,

com a tecnologia atual, são relativamente fáceis de se dirigir. Nessa conversa com a

SBS em Português, Mônica Holanda, que mora em Perth, conta como é a vida

pilotando essas máquinas enormes em turnos de 12 horas no esquema FIFO.

A brasileira relata os prós, os contras e dá detalhes pra quem cogita tentar a sorte

profissional neste mundo particular da vida australiana.

-[música suave] -Mônica, primeiramente, conta pra gente

quem é a Mônica, da onde é do Brasil, quanto tempo tem de Austrália.

Obrigada. Eu nasci no Rio de Janeiro, mas fui criada em Fortaleza. Tô com 42. Eu

cheguei aqui na Austrália com 24. Eu consegui o meu visto pelo casamento. Eu

fui casada por cinco anos

com um australiano e

eu consegui me tornar aeromoça.

Eu trabalhei pra aerolinhas pequenas aqui, que chama Skippers e a Coban,

que são aerolinhas que levam pras mineradoras.

E essa empresa aérea que fazia Perth até os destinos da mineração no interior de

-Western Australia, é isso? -Exatamente. Que foi o meu primeiro contato

em relação a esse mundo. Então a gente viajava levando de manhã cedo o pessoal

das minas, engenheiro, geologista, todo mundo. E eu comecei a fazer meio que

amizade, comecei a conhecer outras pessoas, comecei a me interessar um pouco

mais, comecei a ver lá de cima do avião aquele mundo enorme lá embaixo

e comecei a falar com algumas pessoas e comecei a ver que eles ganham muito bem.

Não só o pessoal com algum tipo de skill, mas pessoal da cozinha, todo mundo que

tava lá. Então eu comecei a me interessar. Aí tava aplicando pra outros empregos,

querendo crescer na área de aeromoça.

Nesse tempo eu me separei

e eu fui chamada pra trabalhar pra Qantas. E ao mesmo tempo, por brincadeira, assim,

só por vamos ver no que que dá, eu apliquei como kitchen hand, lavando prato

numa mineradora, que não precisava de skills nenhum, né, no caso. Vi essa

oportunidade e era um valor bem maior do que o que eu ganhava como aeromoça.

Então pra mim, que já vindo duma separação, foi um step up, né? Um mundo

novo pra eu aprender e também financeiramente, pra minha própria

-segurança. -Foi uma fome e a vontade de comer então.

Você tá ali naquela depressão, naquela coisa triste da separação. Foi uma decisão

até difícil, porque eu queria subir pra Qantas, que é uma empresa ótima, ou ir pra

uma mineradora que foi pra ISS,

que é uma catering que trabalhava pra BHP. Então eu larguei uma, uma certeza, né?

Uma Qantas, que teria mais prestígio,

mas eu iria ganhar menos. Como eu me separei, eu escolhi ficar com a

independência financeira.

Na época eu acho que era em torno de

noventa e cinco mil por ano. Isso há uns 12 anos atrás.

Naquela época, como aeromoça, eu ganhava em torno de quarenta e sete mil por ano.

-Cê quase dobrou o salário então. -Exatamente. Eu sabia que ia trabalhar

muito mais, mas eu queria um pouco, é, mais de dinheiro naquele momento. Eu fui e

foi ótimo na época.

É um trabalho bem mais hard work, 12 horas lá.

O trabalho não para, cê tem uma hora de break, meia hora a cada seis horas,

fazendo café da manhã, é, limpando ou então pro jantar.

Então você foi pra ganhar muito bem como assistente de cozinha.

-Exato. -E era pra trabalhar internado também. Tem

um jargão pra isso, que é o FIFO, né? Tipo, cê passa tantos dias dentro da mina

e volta, e aí você tem os mesmos dias proporcionalmente de descanso.

O FIFO significa fly in fly out. Na cozinha, eu fazia duas semanas on, uma

semana off. E a grande sacada é que quando você tá lá, eles têm alimentação,

internet e acomodação, né? Então você não gasta muito, né?

Imagino que tenha só com algum divertimento, ir no pub, alguma coisa

assim.

Se você quiser ainda, mas se não, cê não gasta nada. Cê tem alimentação o dia

inteiro, é, o seu quarto tem uma pessoa que limpa. Muitos sites eles providenciam

até o sabão em pó, sabonete, então você não gasta nada. Então é, é um extra,

que se você fosse calcular, seriam uns quase uns quinhentos dólares por semana a

mais de supermercado, por exemplo.

E você então começou lá como auxiliar de cozinha. Como é que você evoluiu?

É, eu não tinha minha carteira ainda de, de motorista heavy rigid, que chama. Eu

tinha carteira de motorista normal. Aí quando eu tava lá nas minas, que come--

você começa a conhecer outras pessoas

e eu fui fazendo pergunta, as pessoas foram me falando, né? Tem todo tipo de

trabalho lá que cê nem imagina. Tem gente que trabalha com landscape lá, tem gente

que trabalha como dining room attendant, que é a pessoa que fica só cuidando da

cafeteria. Tem gente que trabalha no bar, academia, não é só o-operadores, né?

Tem um pessoal que trabalha na vila, que era onde eu ficava. Aí conversando com as

pessoas que vinham jantar depois de trabalho, cê vai descobrindo os tickets

que precisa. Os tickets, no caso, são os treinamentos, né, que eles dão

certificado. Então eu acabei tirando alguns que demoram só uma semana pra

tirar, trabalhando em confined space, trabalhando working em heights, tirei

white cards. Tem alguns mini cursos que cê faz, é como se guinasse o seu currículo.

Então, assim, devagarzinho, fui tirando

e de repente fiquei ciente desse trabalho de trabalhar em caminhão, que eu nunca

imaginei trabalhar. Tinham várias-- algumas meninas já lá, eu achava elas

assim superpoderosas, né?

E elas falavam: "Você precisa tirar sua carteira de heavy rigid."

E aqui só uma rápida informação de contexto. Heavy rigid é uma das categorias

da licença pra dirigir caminhões pesados na Austrália.

Naquela época era muito fácil tirar. Hoje em dia acho que tá bem mais competitivo. E

o meu objetivo era,

de novo, dinheiro, né? Tentar achar uma profissão melhor, porque eu não queria

ficar como kit hand também

por muito tempo nas minas. Era um campo com 1500 pessoas, volume de trabalho

grande. Você faz muitos amigos lá, que tá todo mundo no mesmo barco, né? Ir pra uma

área melhor lá nas minas, porque você acaba vendo que tem trabalhos melhores do

que o seu. Quando cê pergunta o que que cê precisa pra fazer esse trabalho, às vezes

não precisa de quase nada. Tem um pessoal que às vezes trabalha nas minas, tipo um

chefe, às vezes ele nem vê a mineração, porque ele só fica na vila, né?

Sim. E aí você foi dirigir aqueles caminhões gigantescos. Conta pra gente

exatamente o que é esse caminhão.

Esse caminhão gigantesco é um modelo Caterpillar, né, um modelo americano,

totalmente automático. O que eu dirijo é o modelo

793F, seis metros de altura. Ele vem com GPS, então você só segue o caminho lá

igual um GPS normal no celular. Ele tem oito blind spots, cê tem que tomar

cuidado. Lá nas minas você não é permitido dar ré sem ter um spotter.

Tem que chamar alguém pra te ajudar.

Mas também o fato de ser simples é porque a mina,

todo o gerenciamento de tráfego é pensado pro caminhão. O meu chefe ele anda num

carro normal em volta dos caminhões, né? E tem muita gente, geologista, outros,

outros departamentos que passam pela gente prum carro normal, mas eles têm a própria

rota deles.

É, tipo como se fosse o aeroporto, né? Pista de aeroporto tem os aviões.

-Exato. -E tem os, os carros acessórios.

Exato. Então é um ambiente muito controlado.

E conta pra gente exatamente qual a função desse caminhão.

Ele transporta o material primário tirado da terra pra ser

processado. Onde eu trabalho, a gente trabalha com níquel. Muita gente já viu

aquela explosão que faz na terra, né, pra acessar, né, as camadas mais internas.

Então, depois que toda a bomba é explodida, eles colocam uma escavadora

e aí começa a scoop o material que os geologistas já demarcaram.

Nisso que entra a gente. Aí a escavadora geralmente é enorme também e coloca no

nosso caminhão

e a gente faz essas viagens. Tem várias grades que chama, né? A grade one, quando

a gente já atingiu o material puro, né, eles já colocam tudo no caminhão e a gente

já joga o material todo direto numa convéia.

O limite eu acho que é em torno de 260 toneladas do caminhão.

Eu levo até a escavadora lá, um buraco enorme que você joga, que cai num tapete,

desse tapete ele começa, é, a subir pela convéia, né?

-Uma esteira, né? -Uma esteira rolante. Aí começa o processo.

Cai um túnel enorme que já começa a quebrar em pedaços menores, você consegue

ver tudo isso. Aí tem várias bacias enormes, gigantescas, cê vê o vapor quente

saindo. É um mundo, assim, de processo químico pra chegar no níquel, né? Então o

nosso trabalho são 12 horas, no caso 11 horas, que tem uma hora de break.

-A produção não para. -Quantas viagens normalmente você faz nesse

período de 12 horas?

-Acho que umas 36 viagens. -Vai e vem, vai e vem o tempo inteiro.

Você

-tem feito isso há quanto tempo agora? -A primeira vez que eu apliquei

foi na época do Covid, na verdade, que eu fui morar em Darwin. Apareceu uma vaga

como trainee do dump truck. Eu apliquei e me chamaram. Era duas semanas on, duas

semanas off. Me deram todo o treinamento lá. No total, acho que demora uns três

-meses pra você dirigir sozinha. -Você mudou de empresa algumas vezes

fazendo DTO, é isso?

Mudei. Eu trabalhei nessa empresa, que foi o meu primeiro treinamento. Eu fiquei lá

por dois anos.

Aí depois eu apliquei pra outra empresa que eu vim pra WA, que eu sei que aqui

eles pagam melhor e tem muito mais empresas maiores aqui, né? Aí eu acabei

trabalhando em gold. Quando você trabalha com ouro, o chão ele é muito pedregulhoso,

sabe?

Então o caminhão não para de se sacudir. Tem isso também, que quando você trabalha

com mineradora, você, você sabe dessas coisas, sabe? O ouro ele é muito duro,

obviamente, né?

Então não foi uma experiência muito boa.

É muito difícil trabalhar com ouro. O dia inteiro cê ficar 12 horas assim se

sacudindo era muito ruim. Problema de coluna, problema ergonométrico é um

problema sério também, né? Então isso é um hazard.

Iron ore já é mais suave de trabalhar.

E qual a cidade que você vai, é, que você fica internada?

Se chama Murrin Murrin

-Que fica quanto tempo de Perth? -Fica 1h e uns 10min de Perth de avião.

As condições de temperatura costumam ser muito extremas nessa região, não é isso?

-Sim. -Me conta um pouco dessa experiência. Você

tá 12h num lugar de temperatura extrema, que também com condições extremas, né?

Você tá no meio duma mina, tem muita fumaça, poeira, hã, minério-

-Sim. -O cheiro, os produtos químicos, né?

-Sim. -Me conta um pouco dessa dinâmica, desse

-dia a dia. Você faz isso 12h por dia. -Essa é uma das partes boas de tá nesse

trabalho, nesse ambiente, porque a gente tá sempre no ar-condicionado.

E a nossa cabine, ela tem um cap pressurizer, como se fosse um avião mesmo,

então

não entra ar nenhum. Assim que você fecha a porta e ela equaliza ali todo aquele ar

e nada entra, nada sai, fica aquele arzinho. Claro que com ar-condicionado,

tem um sistema também que fica filtrando o ar que entra, né? Mas nesse sentido, né,

a poeira, esses químicos, eles não entram. Se entrar, o cap pressurizer, ele

anuncia. Então, em relação a gases nocivos, a gente é bem protegido. Agora,

em relação à temperatura, tem gente que trabalha na mineradora no chão ali, né? Tá

sempre do lado de fora do carro. Eu fo-- eu olho assim lá de cima, eu: "Nossa!"

Por exemplo, a equipe, a blast crew, né, o pessoal dos explosivos, eles tão sempre

do lado de fora. Chega a 45 graus. Eu ouvi dizer um dia que chegou quase a 50 graus.

E à noite esfria?

Ainda é um pouquinho quente, mas à noite esfria. Então tem essa mudança bem brusca

de temperatura também.

É, no inverno também é bem frio, muito frio mesmo, acho que chega quase 0 grau

também. Também faz night shift, a gente trabalha de manhã e à noite. Eu faço duas

semanas, uma semana de dia e uma semana é noite. A gente pega o extremo do calor e a

gente pega o extremo do frio também.

Ô Mônica, e agora me diga assim, no tempo que você tá internada, nesse momento você

trabalha 15 dias on, 15 dias off, é isso?

-Isso. -Eu queria entender um pouco a dinâmica da

cidade, da vila, né, do alojamento. Você tá a trabalhar 12h,

acabou o shift naquele dia, cê vai pra alojamento. Existe uma vida lá? Existe uma

maneira de se confraternizar? O que acontece nesse período que você tá

descansando, que você não tá dormindo?

Então, no meu, tem todo tipo de pessoal lá, né? Tem gente que quando sai do

trabalho sempre gosta de tomar uma cervejinha. Lá eles vendem half-strength,

não tem full-strength beer, não tem. Tudo lá é bebida fraca e tem um limite. Você

pode só tomar, eu acho que é uma por hora.

E eu acho que por noite, só podem seis bebidas por pessoa.

Bem mais controlado. Tem outros lugares que não são, mas tem gente que todo dia tá

no bar. Na minha rotina, o meu tempo é supercontado, porque eu sei que dormir é

essencial. Não tem negociação em relação a isso. Se você lá ficar cansado, você

sofre, porque é um dia muito longo. De manhã cedo, cê tem que acordar pra tomar

café da manhã ou pegar sua comida pro dia. Eu tenho que tá no ônibus às 05:30 da

manhã. Isso quer dizer que eu acordo às 04:30, mais ou menos.

Boto meu uniforme,

eu vou lá pra cozinha, volto com meu café da manhã,

eu pego a comida do dia,

porque a gente não volta pra almoçar, né? Então cê tem que levar sua comida numa

tupperwarezinha.

Tem de tudo, tem comida quente, tem comida fria, sanduíche, tem muita comida pronta

já, só pegar. Aí você faz a sua marmitinha e você vai pro ônibus pra começar às 06h.

Nos escritórios da produção, vai ter geladeira que você pode deixar sua comida

lá. É como se fosse um refeitóriozinho. Aí de lá cê deixa sua comida e vai direto

pro meeting de produção. Aí que cê vai encontrar com seu chefe, o chefe vai falar

pra você o que que vai ser o dia. Quase a mesma coisa todo dia.

Aí de lá a gente va-vai pro caminhão, vai trabalhar o dia todo.

A gente para geralmente umas 17:20 da tarde, eles tão parando os caminhões, o

dispatch, né, que é o que controla a comunicação da mina. Todo mundo no ônibus

às 17:45 pra chegar na vila às 18h em ponto. Tem gente que vai direto beber. Eu

geralmente pe-- vou direto pra cozinha jantar, vou pra academia,

uma academia enorme lá, acho que a academia foi 1 milhão de dólares, enorme.

Dependendo do dia, eu lavo minha roupa,

né, e que, que geralmente tem a lavanderia perto dos quartos, tomo meu banho pra tá

na cama 21h no máximo.

Mas assim, é possível socializar? As pessoas fazem amigos lá?

Tem, depende do site. Meu site é um pouco mais calminho. Quando eu era, por exemplo,

eu trabalhava na cozinha, eu socializava bastante. Eu acho que o meu trabalho é um

trabalho mais solitário, né? Mas tem trabalho que o pessoal tá muito mais unido

ali, fazendo trabalho junto, então você socializa muito mais. Mas tem, o pessoal

vai pro bar, fica conversando até altas horas, às vezes faz churrasco, tem

piscina, campo de futebol, pra jogar tênis.

Entendi. E aí você faz 15 dias disso e aí você volta e você tem 15 dias de descanso,

que você consegue fazer várias coisas, curtir. Você gosta desse esquema? Você tá

feliz? Me conta quais são os prós e os contras do esquema FIFO ou FIFO.

Se não tiver filhos, eu acho que é bem positivo, que é o meu caso.

Ter o seu tempo sozinha, pra mim, eu acabo indo pra academia bastante lá, eu acabo

tendo uma rotina que pra mim é uma rotina bem positiva, sabe? Me traz até uma, uma

estrutura a mais pra quando eu volto.

Eu me alimento muito bem, porque tem uma alimentação muito boa, tem todo tipo de

fruta, então eu aproveito bastante isso, sabe?

Ser operadora é um trabalho que eu gosto muito. Eu nunca pensei que fosse dizer

isso, mas eu gosto de operar máquinas. É muito interessante cê operar,

-principalmente máquinas grandes. -Você vive de aluguel? Cê já comprou a sua,

-sua casa? -Já, eu consegui comprar minha casa por

-causa desse trabalho. -Porqueee às vezes não compensa pagar duas

semanas de aluguel. Como funciona o esquema das pessoas aí?

Tem de todo tipo. Tem muita gente que, por exemplo, que mora na Ásia.

Faz anos que eu quero fazer uma reportagem com gente que mora na Ásia e trabalha em

-mina. -Sim!

Eu nunca achei um brasileiro. Você conhece algum brasileiro, conhece?

Não conheço. Eu conheço um australiano que ele mora há sete anos no Camboja, ele nem

-para aqui -É, porque é muito mais barato, né?

-É claro, assim, lá cê vive como rei, né? -É. Esse tipo de pessoa que vai se dar bem

nesse tipo de profissão, na sua opinião?

Eu acho que é a pessoa que tem algum goal financeiro, porque é a melhor maneira que

você tem pra ter um salário alto. Eu fiz comunicação social no Brasil, publicidade.

Eu não consegui fazer meu trabalho aqui. Então eu fiquei muito em hospitality. Eu

não conseguia um trabalho que eu ganhasse 100 mil por ano. E eu tinha essa ambição

de juntar grana e eu não tava vendo muito futuro ali e também não como aeromoça.

Então eu vi como uma saída pra eu ter uma reserva maior de dinheiro pra talvez

conseguir comprar uma casa.

Foi a maneira que eu achei, foi pras minas, que os salários lá são todos acima

-de 100 mil. -E uma última pergunta, uma coisa que a

gente sempre acaba perguntando, porque a gente sabe que acontece em muitos lugares.

Você sendo uma mulher, você falou que não é a única, tem várias mulheres que são

DTO. Você já sofreu problemas de machismo? Como é ser mulher num ambiente de

mineração que é tradicionalmente mais masculino?

Eu já senti um pouquinho assim, porque como tem muita mulher assumindo esses

trabalhos, mas é mais assim, o medo deles perderem o posto deles, né? Por exemplo,

na BHP eles têm uma política de praticamente 50% ser mulher e tem muito

cara que não gosta. Então assim, já teve um cara que ele falou pra mim, tava todo

mundo com medo de perder o emprego. Ele falou que eu não tenho que ficar com medo,

o seu job é garantido, você é mulher. Tipo, né, eu não, eu não fiz por merecer,

né? Eu tô ali pela cota e não é assim, não é, não foi legal.

Sim, e mas existem políticas então de minimizar problemas como esse?

Tem. Eles são bem em cima de bullying, preconceito de gênero, preconceito de cor,

pelo menos as maiores também, né? Tem todo um departamento de health and safety,

né, que lida só com isso. Tem meetings pra relembrar, né, que a empresa quer

colocar que não é aceitável, mas eu acho que tá mudando. Eles tão se acostumando

-já. -Mônica, queria agradecer demais essa

-conversa e sucesso pra você. -Obrigada

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