[música suave] Segundo o governo federal,
cerca de 66% das exportações
australianas vêm da exploração de minérios
e energia.
A famosa qualidade de vida material da
população se deve, em grande parte, ao que
é extraído no interior do vasto
continente ou dos mares.
Isso é ainda mais evidente na Austrália
Ocidental, estado que tem quase metade do
Produto Interno Bruto, o PIB, proveniente
da mineração.
Não por acaso, trabalhar para as
mineradoras é uma ótima opção pra quem
sonha em fazer um pé de meia em um tempo
relativamente curto.
Há uma ampla oferta de vagas com
treinamentos simples no esquema FIFO ou
fly in fly out, ou seja, voar pra entrar,
voar pra sair. A empresa paga o
transporte, geralmente de avião, até um
campo de mineração, e fornece toda a
estrutura aos empregados. Os trabalhadores
passam um tempo internados na mina, com
quase nenhuma despesa, e depois voltam pra
casa de folga por um período similar.
O trabalho costuma ser pesado, com turnos
longos em locais de clima extremo.
Para muitos, pode ser psicologicamente
desafiador.
A compensação é o salário, quase sempre na
casa dos seis dígitos anuais.
-[música suave]
-A brasileira Mônica Holanda é uma dessas
pessoas que se acertaram no esquema FIFO.
A carioca criada em Fortaleza trabalhou um
bom tempo no setor de hospitalidade na
Austrália e chegou a iniciar uma carreira
de aeromoça. Porém, ao sair de um
relacionamento, seu foco passou a ser a
independência financeira. Foi o que a
atraiu para tentar a vida nas mineradoras.
O caminho que ela encontrou foi ser
motorista daqueles caminhões gigantes que
recebem o minério extraído diretamente das
máquinas de escavação.
São veículos gigantes, de cinco metros de
altura e mais de 100 toneladas, mas que,
com a tecnologia atual, são relativamente
fáceis de se dirigir. Nessa conversa com a
SBS em Português, Mônica Holanda, que
mora em Perth, conta como é a vida
pilotando essas máquinas enormes em turnos
de 12 horas no esquema FIFO.
A brasileira relata os prós, os contras e
dá detalhes pra quem cogita tentar a sorte
profissional neste mundo particular da
vida australiana.
-[música suave]
-Mônica, primeiramente, conta pra gente
quem é a Mônica, da onde é do Brasil,
quanto tempo tem de Austrália.
Obrigada. Eu nasci no Rio de Janeiro, mas
fui criada em Fortaleza. Tô com 42. Eu
cheguei aqui na Austrália com 24. Eu
consegui o meu visto pelo casamento. Eu
fui casada por cinco anos
eu consegui me tornar aeromoça.
Eu trabalhei pra aerolinhas pequenas aqui,
que chama Skippers e a Coban,
que são aerolinhas que levam pras
mineradoras.
E essa empresa aérea que fazia Perth até
os destinos da mineração no interior de
-Western Australia, é isso?
-Exatamente. Que foi o meu primeiro contato
em relação a esse mundo. Então a gente
viajava levando de manhã cedo o pessoal
das minas, engenheiro, geologista, todo
mundo. E eu comecei a fazer meio que
amizade, comecei a conhecer outras
pessoas, comecei a me interessar um pouco
mais, comecei a ver lá de cima do avião
aquele mundo enorme lá embaixo
e comecei a falar com algumas pessoas e
comecei a ver que eles ganham muito bem.
Não só o pessoal com algum tipo de skill,
mas pessoal da cozinha, todo mundo que
tava lá. Então eu comecei a me interessar.
Aí tava aplicando pra outros empregos,
querendo crescer na área de aeromoça.
Nesse tempo eu me separei
e eu fui chamada pra trabalhar pra Qantas.
E ao mesmo tempo, por brincadeira, assim,
só por vamos ver no que que dá, eu
apliquei como kitchen hand, lavando prato
numa mineradora, que não precisava de
skills nenhum, né, no caso. Vi essa
oportunidade e era um valor bem maior do
que o que eu ganhava como aeromoça.
Então pra mim, que já vindo duma
separação, foi um step up, né? Um mundo
novo pra eu aprender e também
financeiramente, pra minha própria
-segurança.
-Foi uma fome e a vontade de comer então.
Você tá ali naquela depressão, naquela
coisa triste da separação. Foi uma decisão
até difícil, porque eu queria subir pra
Qantas, que é uma empresa ótima, ou ir pra
uma mineradora que foi pra ISS,
que é uma catering que trabalhava pra BHP.
Então eu larguei uma, uma certeza, né?
Uma Qantas, que teria mais prestígio,
mas eu iria ganhar menos. Como eu me
separei, eu escolhi ficar com a
independência financeira.
Na época eu acho que era em torno de
noventa e cinco mil por ano. Isso há uns
12 anos atrás.
Naquela época, como aeromoça, eu ganhava
em torno de quarenta e sete mil por ano.
-Cê quase dobrou o salário então.
-Exatamente. Eu sabia que ia trabalhar
muito mais, mas eu queria um pouco, é,
mais de dinheiro naquele momento. Eu fui e
É um trabalho bem mais hard work, 12 horas
lá.
O trabalho não para, cê tem uma hora de
break, meia hora a cada seis horas,
fazendo café da manhã, é, limpando ou
então pro jantar.
Então você foi pra ganhar muito bem como
assistente de cozinha.
-Exato.
-E era pra trabalhar internado também. Tem
um jargão pra isso, que é o FIFO, né?
Tipo, cê passa tantos dias dentro da mina
e volta, e aí você tem os mesmos dias
proporcionalmente de descanso.
O FIFO significa fly in fly out. Na
cozinha, eu fazia duas semanas on, uma
semana off. E a grande sacada é que quando
você tá lá, eles têm alimentação,
internet e acomodação, né? Então você não
gasta muito, né?
Imagino que tenha só com algum
divertimento, ir no pub, alguma coisa
Se você quiser ainda, mas se não, cê não
gasta nada. Cê tem alimentação o dia
inteiro, é, o seu quarto tem uma pessoa
que limpa. Muitos sites eles providenciam
até o sabão em pó, sabonete, então você
não gasta nada. Então é, é um extra,
que se você fosse calcular, seriam uns
quase uns quinhentos dólares por semana a
mais de supermercado, por exemplo.
E você então começou lá como auxiliar de
cozinha. Como é que você evoluiu?
É, eu não tinha minha carteira ainda de,
de motorista heavy rigid, que chama. Eu
tinha carteira de motorista normal. Aí
quando eu tava lá nas minas, que come--
você começa a conhecer outras pessoas
e eu fui fazendo pergunta, as pessoas
foram me falando, né? Tem todo tipo de
trabalho lá que cê nem imagina. Tem gente
que trabalha com landscape lá, tem gente
que trabalha como dining room attendant,
que é a pessoa que fica só cuidando da
cafeteria. Tem gente que trabalha no bar,
academia, não é só o-operadores, né?
Tem um pessoal que trabalha na vila, que
era onde eu ficava. Aí conversando com as
pessoas que vinham jantar depois de
trabalho, cê vai descobrindo os tickets
que precisa. Os tickets, no caso, são os
treinamentos, né, que eles dão
certificado. Então eu acabei tirando
alguns que demoram só uma semana pra
tirar, trabalhando em confined space,
trabalhando working em heights, tirei
white cards. Tem alguns mini cursos que cê
faz, é como se guinasse o seu currículo.
Então, assim, devagarzinho, fui tirando
e de repente fiquei ciente desse trabalho
de trabalhar em caminhão, que eu nunca
imaginei trabalhar. Tinham várias--
algumas meninas já lá, eu achava elas
assim superpoderosas, né?
E elas falavam: "Você precisa tirar sua
carteira de heavy rigid."
E aqui só uma rápida informação de
contexto. Heavy rigid é uma das categorias
da licença pra dirigir caminhões pesados
na Austrália.
Naquela época era muito fácil tirar. Hoje
em dia acho que tá bem mais competitivo. E
de novo, dinheiro, né? Tentar achar uma
profissão melhor, porque eu não queria
ficar como kit hand também
por muito tempo nas minas. Era um campo
com 1500 pessoas, volume de trabalho
grande. Você faz muitos amigos lá, que tá
todo mundo no mesmo barco, né? Ir pra uma
área melhor lá nas minas, porque você
acaba vendo que tem trabalhos melhores do
que o seu. Quando cê pergunta o que que cê
precisa pra fazer esse trabalho, às vezes
não precisa de quase nada. Tem um pessoal
que às vezes trabalha nas minas, tipo um
chefe, às vezes ele nem vê a mineração,
porque ele só fica na vila, né?
Sim. E aí você foi dirigir aqueles
caminhões gigantescos. Conta pra gente
exatamente o que é esse caminhão.
Esse caminhão gigantesco é um modelo
Caterpillar, né, um modelo americano,
totalmente automático. O que eu dirijo é o
modelo
793F, seis metros de altura. Ele vem com
GPS, então você só segue o caminho lá
igual um GPS normal no celular. Ele tem
oito blind spots, cê tem que tomar
cuidado. Lá nas minas você não é permitido
dar ré sem ter um spotter.
Tem que chamar alguém pra te ajudar.
Mas também o fato de ser simples é porque
a mina,
todo o gerenciamento de tráfego é pensado
pro caminhão. O meu chefe ele anda num
carro normal em volta dos caminhões, né? E
tem muita gente, geologista, outros,
outros departamentos que passam pela gente
prum carro normal, mas eles têm a própria
É, tipo como se fosse o aeroporto, né?
Pista de aeroporto tem os aviões.
-Exato.
-E tem os, os carros acessórios.
Exato. Então é um ambiente muito
controlado.
E conta pra gente exatamente qual a função
desse caminhão.
Ele transporta o material primário tirado
da terra pra ser
processado. Onde eu trabalho, a gente
trabalha com níquel. Muita gente já viu
aquela explosão que faz na terra, né, pra
acessar, né, as camadas mais internas.
Então, depois que toda a bomba é
explodida, eles colocam uma escavadora
e aí começa a scoop o material que os
geologistas já demarcaram.
Nisso que entra a gente. Aí a escavadora
geralmente é enorme também e coloca no
e a gente faz essas viagens. Tem várias
grades que chama, né? A grade one, quando
a gente já atingiu o material puro, né,
eles já colocam tudo no caminhão e a gente
já joga o material todo direto numa
convéia.
O limite eu acho que é em torno de 260
toneladas do caminhão.
Eu levo até a escavadora lá, um buraco
enorme que você joga, que cai num tapete,
desse tapete ele começa, é, a subir pela
convéia, né?
-Uma esteira, né?
-Uma esteira rolante. Aí começa o processo.
Cai um túnel enorme que já começa a
quebrar em pedaços menores, você consegue
ver tudo isso. Aí tem várias bacias
enormes, gigantescas, cê vê o vapor quente
saindo. É um mundo, assim, de processo
químico pra chegar no níquel, né? Então o
nosso trabalho são 12 horas, no caso 11
horas, que tem uma hora de break.
-A produção não para.
-Quantas viagens normalmente você faz nesse
-Acho que umas 36 viagens.
-Vai e vem, vai e vem o tempo inteiro.
-tem feito isso há quanto tempo agora?
-A primeira vez que eu apliquei
foi na época do Covid, na verdade, que eu
fui morar em Darwin. Apareceu uma vaga
como trainee do dump truck. Eu apliquei e
me chamaram. Era duas semanas on, duas
semanas off. Me deram todo o treinamento
lá. No total, acho que demora uns três
-meses pra você dirigir sozinha.
-Você mudou de empresa algumas vezes
Mudei. Eu trabalhei nessa empresa, que foi
o meu primeiro treinamento. Eu fiquei lá
Aí depois eu apliquei pra outra empresa
que eu vim pra WA, que eu sei que aqui
eles pagam melhor e tem muito mais
empresas maiores aqui, né? Aí eu acabei
trabalhando em gold. Quando você trabalha
com ouro, o chão ele é muito pedregulhoso,
Então o caminhão não para de se sacudir.
Tem isso também, que quando você trabalha
com mineradora, você, você sabe dessas
coisas, sabe? O ouro ele é muito duro,
Então não foi uma experiência muito boa.
É muito difícil trabalhar com ouro. O dia
inteiro cê ficar 12 horas assim se
sacudindo era muito ruim. Problema de
coluna, problema ergonométrico é um
problema sério também, né? Então isso é um
hazard.
Iron ore já é mais suave de trabalhar.
E qual a cidade que você vai, é, que você
fica internada?
-Que fica quanto tempo de Perth?
-Fica 1h e uns 10min de Perth de avião.
As condições de temperatura costumam ser
muito extremas nessa região, não é isso?
-Sim.
-Me conta um pouco dessa experiência. Você
tá 12h num lugar de temperatura extrema,
que também com condições extremas, né?
Você tá no meio duma mina, tem muita
fumaça, poeira, hã, minério-
-Sim.
-O cheiro, os produtos químicos, né?
-Sim.
-Me conta um pouco dessa dinâmica, desse
-dia a dia. Você faz isso 12h por dia.
-Essa é uma das partes boas de tá nesse
trabalho, nesse ambiente, porque a gente
tá sempre no ar-condicionado.
E a nossa cabine, ela tem um cap
pressurizer, como se fosse um avião mesmo,
não entra ar nenhum. Assim que você fecha
a porta e ela equaliza ali todo aquele ar
e nada entra, nada sai, fica aquele
arzinho. Claro que com ar-condicionado,
tem um sistema também que fica filtrando o
ar que entra, né? Mas nesse sentido, né,
a poeira, esses químicos, eles não entram.
Se entrar, o cap pressurizer, ele
anuncia. Então, em relação a gases
nocivos, a gente é bem protegido. Agora,
em relação à temperatura, tem gente que
trabalha na mineradora no chão ali, né? Tá
sempre do lado de fora do carro. Eu fo--
eu olho assim lá de cima, eu: "Nossa!"
Por exemplo, a equipe, a blast crew, né, o
pessoal dos explosivos, eles tão sempre
do lado de fora. Chega a 45 graus. Eu ouvi
dizer um dia que chegou quase a 50 graus.
Ainda é um pouquinho quente, mas à noite
esfria. Então tem essa mudança bem brusca
É, no inverno também é bem frio, muito
frio mesmo, acho que chega quase 0 grau
também. Também faz night shift, a gente
trabalha de manhã e à noite. Eu faço duas
semanas, uma semana de dia e uma semana é
noite. A gente pega o extremo do calor e a
gente pega o extremo do frio também.
Ô Mônica, e agora me diga assim, no tempo
que você tá internada, nesse momento você
trabalha 15 dias on, 15 dias off, é isso?
-Isso.
-Eu queria entender um pouco a dinâmica da
cidade, da vila, né, do alojamento. Você
tá a trabalhar 12h,
acabou o shift naquele dia, cê vai pra
alojamento. Existe uma vida lá? Existe uma
maneira de se confraternizar? O que
acontece nesse período que você tá
descansando, que você não tá dormindo?
Então, no meu, tem todo tipo de pessoal
lá, né? Tem gente que quando sai do
trabalho sempre gosta de tomar uma
cervejinha. Lá eles vendem half-strength,
não tem full-strength beer, não tem. Tudo
lá é bebida fraca e tem um limite. Você
pode só tomar, eu acho que é uma por hora.
E eu acho que por noite, só podem seis
bebidas por pessoa.
Bem mais controlado. Tem outros lugares
que não são, mas tem gente que todo dia tá
no bar. Na minha rotina, o meu tempo é
supercontado, porque eu sei que dormir é
essencial. Não tem negociação em relação a
isso. Se você lá ficar cansado, você
sofre, porque é um dia muito longo. De
manhã cedo, cê tem que acordar pra tomar
café da manhã ou pegar sua comida pro dia.
Eu tenho que tá no ônibus às 05:30 da
manhã. Isso quer dizer que eu acordo às
04:30, mais ou menos.
eu vou lá pra cozinha, volto com meu café
da manhã,
porque a gente não volta pra almoçar, né?
Então cê tem que levar sua comida numa
Tem de tudo, tem comida quente, tem comida
fria, sanduíche, tem muita comida pronta
já, só pegar. Aí você faz a sua marmitinha
e você vai pro ônibus pra começar às 06h.
Nos escritórios da produção, vai ter
geladeira que você pode deixar sua comida
lá. É como se fosse um refeitóriozinho. Aí
de lá cê deixa sua comida e vai direto
pro meeting de produção. Aí que cê vai
encontrar com seu chefe, o chefe vai falar
pra você o que que vai ser o dia. Quase a
mesma coisa todo dia.
Aí de lá a gente va-vai pro caminhão, vai
trabalhar o dia todo.
A gente para geralmente umas 17:20 da
tarde, eles tão parando os caminhões, o
dispatch, né, que é o que controla a
comunicação da mina. Todo mundo no ônibus
às 17:45 pra chegar na vila às 18h em
ponto. Tem gente que vai direto beber. Eu
geralmente pe-- vou direto pra cozinha
jantar, vou pra academia,
uma academia enorme lá, acho que a
academia foi 1 milhão de dólares, enorme.
Dependendo do dia, eu lavo minha roupa,
né, e que, que geralmente tem a lavanderia
perto dos quartos, tomo meu banho pra tá
Mas assim, é possível socializar? As
pessoas fazem amigos lá?
Tem, depende do site. Meu site é um pouco
mais calminho. Quando eu era, por exemplo,
eu trabalhava na cozinha, eu socializava
bastante. Eu acho que o meu trabalho é um
trabalho mais solitário, né? Mas tem
trabalho que o pessoal tá muito mais unido
ali, fazendo trabalho junto, então você
socializa muito mais. Mas tem, o pessoal
vai pro bar, fica conversando até altas
horas, às vezes faz churrasco, tem
piscina, campo de futebol, pra jogar
tênis.
Entendi. E aí você faz 15 dias disso e aí
você volta e você tem 15 dias de descanso,
que você consegue fazer várias coisas,
curtir. Você gosta desse esquema? Você tá
feliz? Me conta quais são os prós e os
contras do esquema FIFO ou FIFO.
Se não tiver filhos, eu acho que é bem
positivo, que é o meu caso.
Ter o seu tempo sozinha, pra mim, eu acabo
indo pra academia bastante lá, eu acabo
tendo uma rotina que pra mim é uma rotina
bem positiva, sabe? Me traz até uma, uma
estrutura a mais pra quando eu volto.
Eu me alimento muito bem, porque tem uma
alimentação muito boa, tem todo tipo de
fruta, então eu aproveito bastante isso,
sabe?
Ser operadora é um trabalho que eu gosto
muito. Eu nunca pensei que fosse dizer
isso, mas eu gosto de operar máquinas. É
muito interessante cê operar,
-principalmente máquinas grandes.
-Você vive de aluguel? Cê já comprou a sua,
-sua casa?
-Já, eu consegui comprar minha casa por
-causa desse trabalho.
-Porqueee às vezes não compensa pagar duas
semanas de aluguel. Como funciona o
esquema das pessoas aí?
Tem de todo tipo. Tem muita gente que, por
exemplo, que mora na Ásia.
Faz anos que eu quero fazer uma reportagem
com gente que mora na Ásia e trabalha em
Eu nunca achei um brasileiro. Você conhece
algum brasileiro, conhece?
Não conheço. Eu conheço um australiano que
ele mora há sete anos no Camboja, ele nem
-para aqui
-É, porque é muito mais barato, né?
-É claro, assim, lá cê vive como rei, né?
-É. Esse tipo de pessoa que vai se dar bem
nesse tipo de profissão, na sua opinião?
Eu acho que é a pessoa que tem algum goal
financeiro, porque é a melhor maneira que
você tem pra ter um salário alto. Eu fiz
comunicação social no Brasil, publicidade.
Eu não consegui fazer meu trabalho aqui.
Então eu fiquei muito em hospitality. Eu
não conseguia um trabalho que eu ganhasse
100 mil por ano. E eu tinha essa ambição
de juntar grana e eu não tava vendo muito
futuro ali e também não como aeromoça.
Então eu vi como uma saída pra eu ter uma
reserva maior de dinheiro pra talvez
conseguir comprar uma casa.
Foi a maneira que eu achei, foi pras
minas, que os salários lá são todos acima
-de 100 mil.
-E uma última pergunta, uma coisa que a
gente sempre acaba perguntando, porque a
gente sabe que acontece em muitos lugares.
Você sendo uma mulher, você falou que não
é a única, tem várias mulheres que são
DTO. Você já sofreu problemas de machismo?
Como é ser mulher num ambiente de
mineração que é tradicionalmente mais
masculino?
Eu já senti um pouquinho assim, porque
como tem muita mulher assumindo esses
trabalhos, mas é mais assim, o medo deles
perderem o posto deles, né? Por exemplo,
na BHP eles têm uma política de
praticamente 50% ser mulher e tem muito
cara que não gosta. Então assim, já teve
um cara que ele falou pra mim, tava todo
mundo com medo de perder o emprego. Ele
falou que eu não tenho que ficar com medo,
o seu job é garantido, você é mulher.
Tipo, né, eu não, eu não fiz por merecer,
né? Eu tô ali pela cota e não é assim, não
é, não foi legal.
Sim, e mas existem políticas então de
minimizar problemas como esse?
Tem. Eles são bem em cima de bullying,
preconceito de gênero, preconceito de cor,
pelo menos as maiores também, né? Tem
todo um departamento de health and safety,
né, que lida só com isso. Tem meetings
pra relembrar, né, que a empresa quer
colocar que não é aceitável, mas eu acho
que tá mudando. Eles tão se acostumando
-já.
-Mônica, queria agradecer demais essa
-conversa e sucesso pra você.
-Obrigada
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