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Conheça a brasileira que trabalha no espetáculo com bonecos de dinossauros na Opera House

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Keila Terencio de Paula nos ensaios do espetáculo educativo Erth’s Dinosaurs, que mistura storytelling com bonecos gigantes.

Keila Terêncio de Paula chegou à Austrália sem falar inglês e sonhando em trabalhar com as artes, sua grande paixão. Foi comendo pelas beiradas e, hoje, 14 anos depois, tem atuação em espetáculos de circo, dança e teatro de bonecos. As mãos dela estão por trás de alguns dos dinos do espetáculo Erth’s Dinosaurs, em cartaz na mais famosa casa de shows do país entre 8 e 19 de abril.


Quando Keila Terêncio de Paula chegou à Austrália há 14 anos, praticamente não falava inglês. Enquanto estudava a língua e trabalhava para se sustentar, ao mesmo tempo em que procurava formas de saciar a curiosidade artística que sempre esteve dentro dela. Já havia estudado Teatro na Universidade Federal do Paraná, que foi sua chama para as artes cênicas.

Keila Terencio de Paula
Keila Terencio de Paula durante ensaios de Earth´s Dinossaurs.

Em Sydney, por causa da barreira da língua, começou a buscar formas de expressão nas quais o idioma não fosse essencial. Foi assim que se aproximou das artes circenses, da dança aérea e do teatro de bonecos. A partir daí, começou a treinar, pesquisar e desenvolver habilidades nessas áreas.

Hoje, 14 anos depois, é artista freelance e desenvolve uma carreira a acontecer de diferentes formas. Uma delas é como artista em espetáculos de companhias de teatro, como a Erth Visual & Physical.

Quando a gente chega aqui, é muita correria, mas dê um jeitinho de encaixar a arte que te faz feliz na sua vida. E mesmo se você é um especialista nela, procure um curso e vá se inteirar das pessoas. Eles vão saber como é feito aqui e você também vai encontrar uma comunidade.
Keila Terencio de Paula.

Atualmente, é uma das artistas residentes no programa Creative Live and Work Spaces da City of Sydney.

Keila é parte do elenco do espetáculo Erth’s Dinosaurs em cartaz na Ópera House entre 8 e 19 de abril, bem na época das férias escolares. É um espetáculo que mistura storytelling com bonecos gigantes, com a supervisão de especialistas em dinossauros, pra criar uma experiência educativa, cultural que desperte o interesse de crianças e seus pais.

Keila Terencio de Paula
Keila Terencio de Paula: "Nos primeiros anos, a minha intuição foi de buscar formas de estar envolvida na arte como consumidora. Ia pra exibições, festivais, shows, tudo que era barato e de graça, porque, no começo, o dinheiro é apertadinho".

Keyla Terêncio de Paula conversou com a SBS em Português durante o Dia da Harmonia na praia de Bondi, em Sydney, durante uma série de transmissões de rádio em diversas línguas promovido pela SBS.

Nesta entrevista, a artista de Curitiba nos conta como conseguiu entrar no mercado cultural australiano mesmo depois de ter chegado quase sem falar nada de inglês, compartilha suas experiências e mapeia caminhos para quem sonha em trilhar rumos parecidos em Down Under.

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Agora a gente vai conversar sobre arte. E é por isso que eu tenho aqui do meu lado a

Keila Terencio de Paula. Quando a Keila chegou na Austrália, há quatorze anos, ela

praticamente não falava inglês. Enquanto estudava a língua e trabalhava pra se

sustentar, ao mesmo tempo que procurava formas de nutrir a curiosidade artística

que sempre esteve dentro dela ali, ela já havia estudado teatro na Universidade

Federal do Paraná e sempre teve uma veia pras artes cênicas. Aqui em Sydney, por

conta da barreira da língua, começou a buscar formas de expressão onde o idioma

não fosse essencial. Foi assim que se aproximou das artes circenses, da dança

aérea e do teatro de bonecos. A partir daí, começou a treinar, pesquisar e

desenvolver habilidades nessas áreas.

Quatorze anos depois, é uma artista freelance e desenvolve uma carreira que

acontece de diferentes formas. Uma delas é trabalhando como artista em espetáculos

de companhias de teatro, como a Earth Visual and Physical, entre várias outras.

Atualmente, é uma das artistas residentes do programa Creative Life and Workspaces

da City of Sydney, que é o council, o conselho do centro da cidade de Sydney.

Keila é parte do elenco do espetáculo Earth's Dinosaurs, em cartaz na Opera

House entre 8 e 19 de abril, bem na época das férias escolares, e é um espetáculo

que mistura storytelling com bonecos gigantes, que tem a supervisão de

especialistas em dinossauros pra criar uma experiência educativa, cultural,

interessante.

Keila Terencio de Paula, que está aqui do meu lado. Boa tarde, Keila. É um prazer

-tê-la aqui. -Obrigada, Fernando. Boa tarde.

Keila,

eu gosto de começar pelo começo. Da onde você é no Brasil?

[riso] Sim. Eu sou-- eu nasci, cresci em Curitiba.

Quanto paranaense aqui, eu sempre entrevisto paranaense aqui.

-É mesmo? -É, ultimamente, você deve ser a quinta do

-ano. -Jura? Olha só, o povo de Curitiba, do

Paraná. Os meus pais são do interior do Paraná

e eles sempre trabalharam na roça,

viajaram pelo Brasil, né, procurando trabalho no campo e teve cada filho numa

cidade diferente, mas eu sou de Curitiba.

-[riso] -Vamo começar agora pelo espetáculo da

Opera House. Conta pra gente como é esse espetáculo e qual é o seu papel do Earth's

-Dinosaurs. -Legal. Então Earth Dinosaurs, o nome do

show. Earth é uma companhia de teatro de animação, eles têm mais de trinta e cinco

anos trabalhando aqui na Austrália e eles fazem teatro com bonecos gigantes, bonecos

pequenos também, várias formas de teatro de bonecos.

-Uhum. -Mas sempre entrelaçando esse teatro de

bonecos, o teatro visual com ciência, assuntos sobre preservação à natureza. E

então sempre tem um, um lado teatral e educacional nas peças deles. Nesse show,

Earth Dinosaurs, da-- que a gente tá apresentando agora pra Opera House em, em

abril, são cinco pessoas no palco, embora tenha um time gigantesco no show, que

trabalha no show. No palco, são cinco pessoas, tem uma, um apresentador e quatro

artistas que são os manipuladores dos objetos, dos bonecos, do mundo imaginário

que a gente cria no show. E eu sou uma desses artistas.

Eu, eu achei impressionante o tamanho do, do espetáculo de teatro. Quando tem uma

estrutura por trás, é sempre bonito quando tem o momento final que trazem todo mundo

pro espetáculo pra, pra dizer: "Olha, gente, existe muita coisa a mais do que

vocês estão vendo aqui, que, que é fundamental pra ter", né?

Sim, sim, é muito trabalho pra chegar até o palco. Nessa peça tem mais ou menos

quinze bonecos.

E isso pra contar e mostrar a variedade e histórias de vários dinossauros.

É, e a ideia é assim,

tem um lado de ciência, então imagino que seja, tenha tudo fundamentado, né? Existem

especialistas em dinossauros por trás, mas eu também queria entender, é, é, vai

ter um storytelling. Tem uma dinâmica de novela, de filme, como é que funciona?

Não tem uma narrativa como se fosse uma história, mas vai ter várias histórias pra

cada criatura, né, cada dinossauro que a gente encontra nesse espetáculo, vai ter

um pouquinho de história de cada um. É muito lindo, e claro, eu-- é difícil pra

mim falar, que eu acho o show muito lindo. A gente tá terminando a segunda semana de

ensaios, a gente vai pra última semana de ensaios agora, e tá todo mundo muito

animado de tá trabalhando nesse show, porque tá ficando muito bonito. Vai ter um

pouquinho pra todo mundo. Vários assuntos científicos, muita coisa engraçada, muita

piada e momentos, assim, pro coração.

Eu acho interessantíssimo como dinossauro virou uma coisa que cativa as crianças,

né? Eu tenho dois filhos e dinossauro, e, e na escola, todo mundo é fã de

dinossauro. Tem uma época do momento ali que eles sabem absolutamente tudo. Que eu,

que tenho-- vou fazer quarenta e cinco anos agora, eu não peguei. Eu peguei o,

o, o Jurassic Park depois do filme, que tudo mudou e virou um acontecimento, que é

parte da infância das pessoas. Eu não tive isso.

-Sim. -E eu acho muito curiosa essa mudança. Mas

Keila, você chegou na Austrália mal falando inglês, não é isso?

-Isso. -E você conseguiu trabalhar no meio

artístico, que depende fundamentalmente de comunicação. Isso é um desafio.

Você comeu pelas beiradas. Me conta como conseguiu entrar nesse mercado.

Sim. Bom, não foi de um dia pro outro, né? Foram várias ondas navegadas. E ainda-

-Teve uma pandemia. -Ah, no meio disso tudo. E ainda tô

navegando, né? Tô aprendendo a nadar nesse oceano gigante da indústria cultural e

artística aqui na Austrália. Mas acho que nos primeiros anos, a minha intuição foi

de buscar formas de tá envolvida na arte como consumidora de arte. Ia pra

exibições, ia ver festivais, ia pra shows, tudo que era barato e de graça, né, que

nos primeiros anos o dinheiro é apertadinho. E daí com o tempo, comecei a

sentir muita falta de tá envolvida diretamente nas produções e nas criações.

E daí comecei a procurar alternativas, porque meu inglês não era bom.

E daí foi aonde que eu comecei a treinar no circo

e me encantei com trapézio e dança aérea.

Investi muitos anos de treino nisso pra poder trabalhar com isso. E daí nesse meio

tempo também conheci teatro de bonecos.

E hoje em dia, é, a maioria dos trabalhos que eu faço é em volta de teatro de

-bonecos. -Que interessantíssimoVocê também

desenvolveu um projeto artístico pro programa Storytellers da City of Sydney,

né, que envolve artes visuais e performance. O If Words Would Speak, They

Would Tell You, é esse o nome do espetáculo.

Conta pra gente do que se trata esse projeto.

Sim, sim. Às vezes eu trabalho pra companhia de teatro, outras vezes eu

produzo os meus próprios trabalhos, né. E esse é um trabalho que eu fiz ano passado

e começou, na verdade, em 2018, com o New Beginnings Festival, que me convidou a

montar uma peça que envolvia línguas. Então naquela época, em 2018, tinha vinte

e dois artistas. A gente se encontrava toda semana, montamo uma dança, uma

coreografia e também uma música que tinha as nossas vozes e línguas, e a gente

apresentou no festival. E desde então, eu comecei a pesquisar e criar mais

curiosidade no assunto e descobri que aqui na, em Sydney,

tem mais de duzentas e cinquenta línguas que vivem em paralelo com o inglês e com

as línguas aborígenes, com as línguas originais.

E nesse sentido também, antes de colonização, tinha mais de quarenta

línguas aqui em Sydney, com vários centenas de dialetos. Então essa terra tem

muita diversidade de língua.

É, e com tudo isso em mente, eu criei esse projeto, que a intenção era o público

chegar e escutar histórias de palavras que nós não conseguimos traduzir pro inglês.

Então eram onze artistas de línguas diversas, todo mundo sentado numa mesa. A,

o público chegava e escolhia as mesas que iam conversar, sentar, né,

e daí os artistas mostravam uma palavra na língua deles,

que eles escolheram, uma palavra que eles não consigam traduzir. E quando é uma

palavra que você não consegue traduzir pro inglês, é porque a palavra tá ali

tão envolvida na cultura daquela língua, que você, pra poder explicar a, o que a

palavra é, você tem que contar uma história em volta da palavra. E foi isso

que a gente fez. Então as pessoas sentavam com a gente e a gente contava uma

história pra poder explicar o que a palavra era.

Que ideia maravilhosa.

-Obrigada, obrigada. -Cê falou de saudade ou cê falou de outras?

Pois é, o Alan, que foi o brasileiro que

fez as apresentações, né, pra língua portuguesa, ele escolheu a palavra, acho

que tinha saudade, tinha muvuca-

-Muvuca é bom. -E cafuné. E a forma que ele contou a

história foi muito linda, porque ele falava do carnaval, a muvuca que é o

carnaval, então ele explicava o que é o carnaval e a muvuca que é as pessoas

conversando, a música, a diferença de idades, todo mundo na rua.

Ele contou que foi assim que ele conheceu a namorada dele, que hoje é a esposa dele,

e daí ele falava como ela faz cafuné no cabelo dele. Então iam conectando essas

histórias pra poder explicar as palavras que não têm tradução.

Cada artista criou a sua própria forma de contar. Tinha línguas,

representações de línguas de todos os continentes, incluindo Auslan, que é a

-língua de sinais aqui da Austrália. -Que interessante isso. A palavra muvuca,

eu tenho uma amiga portuguesa que eu falei pra ela que eu numa determinada praia,

porque é muita muvuca. Ela morreu de rir, achou o máximo essa palavra, porque não

-tem em Portugal, né? -É.

Eu inclusive descobri que tem uma palavra, que é a história da minha vida, em

alemão, que é kummerspeck,

que é, na verdade, quando você, você está ansioso, você come mais do que você

deveria. O alemão tem uma palavra assim como tem schadenfreude, eles têm

pra-pra-pra isso. Se eu tiver um cachorro um dia, ele vai chamar kummerspeck. Eu

-acho que é um nome ótimo pra isso. -Uma palavra incrível. Essas palavras são

lindas, né? Porque às vezes a gente não tem tradução. A gente-- então não é sobre

traduzir, é sobre entender a forma de pensar, a forma de viver que essa cultura

ou os falantes daquela, daquela língua

-usa, né? -É, como o raciocínio da sociedade, né? É

um estudo maravilhoso pensar isso.

Hã, Keila, você trabalha como facilitadora cultural na Sydney Opera House. Eu

conheci mil pessoas aqui que sonhavam em trabalhar na Opera House. Finalmente,

conheci alguém agora que trabalha na Opera House, né? Com projetos com crianças e

também com adultos com limitações físicas e intelectuais. Conta pra gente como

-funciona esse centro. -Tá. O centro-- a Opera House tem um centro

que é o Center for Creativity, e eles têm várias oficinas. Então tem algumas

oficinas que eu trabalho nas oficinas especificamente. Faz alguns anos já que eu

tô lá. Então toda vez que eles têm essa oficina em oferta, eu tô envolvida no time

que facilita essas oficinas. É incrível como a organização tão grande se importe e

mantém esse espaço. E a maioria das oficinas que eu trabalho na Opera House é

pra crianças. E eu também trabalho pra outras organizações, pra adultos com

deficiência física e mental, e isso são oficinas de teatro, de dança, de música.

Então tudo que é artístico e formas de expressar histórias.

É interessante que aqui na Austrália, eu sei que isso existe no Brasil também, mas

na Austrália existe um espaço muito grande pra, pra arteterapia, dessas formas, né?

Um campo, muito de trabalho que inclusive muitos brasileiros exploram, né?

-Sim. -Keila, você conseguiu dar uma volta por

cima enorme pra trabalhar com criatividade, fazendo coisas que ama na

Austrália. Pra quem chegou recentemente, que tem uma trajetória meio parecida com a

sua lá atrás, que sonha em fazer o mesmo, o que você recomenda?

Hum, poxa vida,

o que eu recomendo? Tem muitos temperos nessa receita, né? Se, se é que tem uma

receita. É, acho que eu diria, se mantenha curioso sobre quem você é, as coisas que

você gosta e o ambiente em volta de você.

E até mesmo pra descobrir como é feito aqui. Acho que eu recomendo, ai, muita

coisa, mas eu recomendo continuar fazendo. Eu sei que quando a gente chega aqui, é

muita correria, é muita coisa pra entender, conseguir ter dinheiro pra pagar

a vida aqui. Mas se a gente puder continuar fazendo a arte que te faz feliz,

dá um jeitinho de encaixar isso na sua vida. É isso que eu recomendaria. E mesmo

se você é um especialista, se você acha que você é um especialista no assunto, na

sua arte, procura um curso, u-uma comunidade que tem entendimento, que faz

essa arte e vai lá e se intera com as pessoas, se intera com os professores,

porque eles vão saber como é feito aqui. E você também vai encontrar uma galera que

tem interesse nos mesmos assuntos que você.

Então cê vai criar uma comunidade com isso.

E é assim que a gente se enxerga. E a gente imigra também pra viver, de fazer

coisa que a gente gosta, né? Não é só emigrar pra sofrer.

-Sim, sim. -Keila, queria agradecer demais a sua

presença aqui conosco.

A Keila que está então com o espetáculo Earth, Earth Dinosaurs, em cartaz na Opera

House, entre oito e dezenove de abril, bem na época das feiras escolares.

Proposital, evidentemente, e muito bem sacado, né? Esse espetáculo que mistura

storytelling com bonecos gigantes, né, de dinossauros, com a supervisão de

especialistas e pra criar uma experiência educativa, cultural interessante.

-Obrigado, Keila. -Obrigadão.

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