É comum ver mulheres compartilhando nas redes sociais as primeiras semanas como mães, cheias de carinho e celebração em família. Mas, para muitas, o pós-parto é também o período mais vulnerável. Segundo o maior estudo de saúde mental perinatal já realizado, da Universidade de Queensland, a depressão grave atinge sua maior incidência exatamente duas semanas após o nascimento. Conversamos com a psicóloga Camila Albuquerque, que atua em Sydney.
Resumo
- Um novo estudo da Universidade de Queensland — o maior já feito sobre saúde mental perinatal, com dados de mais de 2 milhões de mulheres em 90 países — revela que o risco de depressão grave quase dobra nas duas primeiras semanas após o parto.
- A psicóloga Camila Albuquerque, de Sydney, explica os sintomas e discute a importância da autocompaixão.
- Mulheres imigrantes podem enfrentam uma vulnerabilidade extra por causa da falta de rede de apoio e barreira linguística.
- Na Austrália, uma em cada sete mulheres é afetada pela condição, e organizações como Gidget Foundation, COPE, Tresillian e PANDA oferecem apoio gratuito.
A professora associada Alize Ferrari, da Escola de Saúde Pública da Universidade de Queensland, faz parte da equipe que conduziu o maior estudo de saúde mental perinatal já realizado, analisando dados de 780 estudos que reuniram informações de mais de 2 milhões de mulheres e adolescentes em 90 países.
A pesquisa, publicada na revista The Lancet Psychiatry, mapeou o estado psiquiátrico de mulheres desde a concepção até os 12 meses após o parto, com o objetivo de identificar quando o risco de depressão atinge seu ponto mais alto.
Os resultados mostram que a depressão afeta cerca de 4,3% das mulheres e adolescentes no mundo, índice que sobe para 6,2% durante a gravidez e para 6,8% ao longo do primeiro ano pós-parto — mas que dispara para 8,3% nas duas primeiras semanas depois do nascimento do bebê, quase o dobro da taxa basal.

Para Alize Ferrari, o achado reforça a necessidade de triagem e intervenção precoces para o transtorno depressivo maior durante todo o período perinatal, especialmente em consultas com obstetras, parteiras e médicos de família.
"Não tem nada de errado"
"Os sintomas mais comuns estão relacionados a uma tristeza persistente, uma sensação de vazio, vontade de chorar e até mesmo um choro muito frequente, além de irritabilidade e um sentimento de culpa, de inadequação ou de não ser uma boa mãe," explica a psicóloga Camila Albuquerque, que atua em Sydney.
Sobre a origem dessa culpa, ela explica: "quando você tem o seu bebê e passa por situações muito desafiadoras, essa culpa pode surgir como: 'Por que que eu não estou amando meu filho como eu deveria?'".
Para Camila, é essencial separar dois planos: "uma coisa é o amor pelo bebê... a outra coisa é como você avalia a sua experiência, porque se tornar mãe é uma tarefa muito, muito desafiadora".
A psicóloga confirma que sentimentos de rejeição pelo recém-nascido podem ocorrer e que mulheres imigrantes podem estar mais vulneráveis.
"Não pelo fato de ser imigrante em si, mas pela vulnerabilidade que isso traz, como falta de rede de apoio, diferenças culturais e barreira linguística. É importante procure ajuda, é uma fase que a gente está passando. Isso não vai ser para sempre.
"Uma outra coisa que eu gostaria de lembrar às mulheres é que é importante trabalhar muito a autocompaixão e perceber que é uma fase que a gente está passando. Isso não vai ser pra sempre, isso vai se modificar conforme a gente vai se adaptando melhor, e que realmente busque suporte profissional, ele é muito importante," diz.

Onde buscar ajuda na Austrália
Na Austrália, a depressão pós-parto afeta cerca de uma em cada sete mulheres, mas existe apoio disponível desde clínicos geris, os GPs até serviços pós-parto como a Gidget Foundation e o COPE. A organização Tresilian também oferece apoio gratuito e a PANDA possui uma linha telefônica de ajuda também gratuita para famílias.
COPE (Centre of Perinatal Excellence)
PANDA (Perinatal Anxiety & Depression Australia)
Para emergências ou risco à vida, ligue 000. Para apoio em crise 24h, ligue para a Lifeline: 13 11 14.
Estudo da Universidade de Queensland Major depression in women and girls peaks 2 weeks after giving birth
Se você está enfrentando dificuldades emocionais no pós-parto, procure orientação profissional ou uma das organizações de apoio citadas.
Para ouvir a entrevista completa, clique no botão 'play' desta página.
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