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“Feel Heard”: português reencontra seu propósito de vida aos 48 anos na Austrália

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Filipe Guerreiro criou um projeto para escuta ativa de pessoas em pontos de grande movimento em Sydney. Credit: Filipe Guerreiro/arquivo pessoal

Depois de tornar-se counsellor em Down Under, Felipe Guerreiro criou o projeto Feel Heard, uma iniciativa que leva escuta ativa às ruas e praias de Sydney. Com duas cadeiras de camping e uma placa indicando um espaço seguro para conversas, ele oferece seu tempo para ouvir estranhos que queiram compartilhar problemas de relacionamento, estresse no trabalho ou simplesmente fazer uma reflexão sobre a vida.


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By Marinna Protasiewytch

Source: SBS


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Depois de tornar-se counsellor em Down Under, Felipe Guerreiro criou o projeto Feel Heard, uma iniciativa que leva escuta ativa às ruas e praias de Sydney. Com duas cadeiras de camping e uma placa indicando um espaço seguro para conversas, ele oferece seu tempo para ouvir estranhos que queiram compartilhar problemas de relacionamento, estresse no trabalho ou simplesmente fazer uma reflexão sobre a vida.


Dados do Australian Bureau of Statistics apontam que 42,9% das pessoas com idade entre 16 e 85 anos já tiveram alguma doença mental em algum momento da vida. 21,5% sofreram com problemas de saúde mental por pelo menos um ano, sendo a ansiedade a enfermidade mais comum registrada no país.

E foi dentro deste contexto que o português Filipe Guerreiro, em 2020 passou por uma transformação em sua vida, ressignificando seu propósito e criando o projeto “Feel Heard”, uma experiência social nas ruas e praias de Sydney.

A proposta é que com duas cadeiras de camping, uma placa sinalizando que aquele é um espaço seguro para conversa e sua escuta ativa, ele possa ajudar pessoas com problemas como depressão e ansiedade, ou apenas conversar com quem se sente sozinho.

Na Austrália há mais de 10 anos, Filipe trabalhava na construção civil com topografia. Uma carreira que começou ainda em Portugal. Mas o ritmo de trabalho sem pausa acabou levando ele para um burnout.

Eu trabalhei 13 anos em Portugal como como topógrafo, vim para a Austrália em 2013. Seis anos atrás, na altura do COVID, tive umas lesões físicas devido ao desporto e depois tive um bocado mal fisicamente. A meditação permitiu-me ser mais calmo, mais presente, menos reativo, aprendi a lidar com a dor física e mental e emocional. Apesar de estar a meditar em 2022, tive um burnout no trabalho devido ao stress. O problema não estava no projeto em si, estava em mim, porque eu estava a perseguir perfeição e a evitar a mau feedback, o que é uma má combinação e na altura não tinha hobbies, era trabalhar quase 24/7.
Filipe Guerreiro, counsellor

Após seu afastamento, voltar para a construção civil trouxe de volta a sensação de cansaço e ansiedade. Foi então que ele resolveu buscar algo novo.

"Voltei outra vez à obra, o stress voltou e depois comecei a redefinir a minha vida. E juntei-me a social groups, run clubs, o que me permitiu ser muito mais social, juntei-me a a dois grupos de men's for mental health e um pouco de desporto.

Nessa altura, o chamamento de ajudar outros começou a crescer, até que decidi a voltar à escola, a inscrever-me no curso de counselling no AIPC e aí foi completamente mind blowing", contou.

Da formação de Counsellor ele passou a buscar mais contato com as pessoas e além de voluntariado se propôs um desafio: estar presente para pessoas desconhecidas para que elas pudessem se sentir ouvidas.

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Com duas cadeiras de campíng, uma placa e seu ouvido disponível ele atende em diversos lugares de Sydney. Credit: Filipe Guerreiro/arquivo pessoal

"Um dia numa caminhada, comecei a refletir o que é que eu iria trazer de novo ao mundo, naquilo que os meus amigos me sempre disseram, tu és um bom ouvinte, nos sentimos ouvidos por ti, és uma pessoa que transmite uma calma energia e a o termo Feel Hurt veio à minha mente. Comecei na Maroubra Beach, as duas cadeiras, o sinal cá fora e a oferecer um safe space para as pessoas partilharem o que vai na mente delas, se quiserem", explicou Filipe.

Atualmente ele disponibiliza parte do seu tempo livre para o projeto. Ele trabalha quatro dias na topografia e um dia da semana e outro do fim de semana, está nas ruas de Coogee, Maroubra, Bondi e em Martin Place, para simplesmente ouvir.

Olha, se queres diga uma mistura. Se calhar digamos, vá, 40% questões de trabalho, stress, 40% relacionamentos e tenho também uma faixa de pessoas que vêm apenas partilhar a história delas, sem qualquer intenção de mental health. Muitas vezes apenas são questões do dia a dia.
Filipe Guerreiro, counsellor.

"Uma coisa que também tenho encontrado muito ultimamente, jovens de 20 anos que já que já se despediram de corporate business e que querem algo novo. O que me fez refletir há dias que o o tecido empresarial vai ter que se calhar ajustar-se no futuro, porque os jovens querem outro tipo de estrutura", revela.

Ele conta que muitas pessoas falam sobre problemas no relacionamento, no trabalho, mas que também há quem queira apenas compartilhar algum pensamento sobre a vida.

"Normalmente faço slots de 2 horas, também porque gosto de variar o sítio. Por exemplo, hoje, em princípio vou fazer Maroubra, se calhar a city, Martin Place. No sábado costumo fazer 3 horas de manhã em Bronte e se calhar 2 horas à tarde em Bondi. Faço dois dias por semana, quartas e sábados, normalmente, a média 6 horas por dia. É free, as pessoas podem estar comigo 1 hora, meia hora, 10 minutos, o tempo que quiserem", diz o counsellor.

Na jornada de autoconhecimento junto ao apoio para quem quer que queira ser ouvido, Filipe diz que o aprendizado maior é de que ele enfim encontrou seu propósito de vida.

"Não consigo responder onde é que isto me vai levar e esta é a maravilha desta jornada. Que eu estou a pôr-me lá fora a partilhar a minha experiência com pessoas, ao mesmo tempo que estou a oferecer ser um espaço para as pessoas partilharem. Sinto-me muito mais aberto no ponto de nível de energia. Cada pessoa é um mundo, cada pessoa é uma história. Me sinto muito mais calmo, muito mais preparado e quero permanecer nessa onda, desde que eu me divirta e desde que me tire da cama, não é só tirar da cama, é literalmente amar isso".

Nota: O conteúdo desta reportagem tem caráter estritamente jornalístico e informativo e não deve ser interpretado como aconselhamento médico ou psicológico.

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