Watch FIFA World Cup 2026™ LIVE, FREE and EXCLUSIVE

O que revela o filme 'O Acontecimento' adaptado da obra de Annie Ernaux, Nobel da Literatura?

Annie Ernaux-EPA-Efe-Cati-Cladera.jpg

Nobel de Literatura vai para Annie Ernaux, autora de O Acontecimento

O filme de Audrey Diwan, O acontecimento, adaptação da obra maior de Annie Ernaux, mergulha no que é intimo mas nunca nos parece intrusivo, nós somos parte - acompanhamos, vivemos - tudo.


Os 90 anos de vida de Simone Veil atravessaram grande parte do seculo 20.

Esta mulher valente, combatente por ideais, faleceu há 5 anos.

O corpo está sepultado no Panteão de Paris, onde são celebrados grandes de França, nas artes, nas ciências, no pensamento, na politica.

Simone Veil é uma sobrevivente do Holocausto

Foi a primeira mulher presidente do Parlamento Europeu.

Em 1975, no parlamento de França, esta mulher política tenaz tinha conseguido fazer aprovar a lei de descriminalização e despenalização do aborto.

É a lei Veil – que ela aprovou e defendeu num debate lendário que se prolongou por 25 horas num parlamento com apenas 9 deputadas e 481 deputados..

Veil era ministra da saúde no governo de Jacques Chirac – com Giscard d'Estaing presidente da República francesa - eles lideravam a maioria de centro-direita mas grande parte dessesw deputados à direita – nem queria ouvir falar de aborto, muito menos aprovar uma lei de despenalização.

Ela conseguiu, há 47 anos.

Mas ao longo dos anos foi sempre alertando cuidado – o que se conseguiu não é irreversível.

Este alerta de Simone Veil foi premonitório. Note-se o que está a acontecer nos Estados Unidos da América.

Ali vários estados estão a servir-se de uma decisão do Supremo Tribunal, que reverteu a decisão anterior – e esses estados estão a proibir outra vez a interrupção voluntária de gravidez.

Há um documento – o filme que arrebatou o Leão de Ouro – no ano passado no Festival de Veneza, título: O Acontecimento.

É um filme que nos conta de modo nu, sem artifícios a intimidade de uma mulher, a primeira universitária numa família operária.

Aos 23 anos, na sequência de uma relação casual, se descobre gravida e que sente que tem de abortar.

O filme, realizado pla franco libanesa Audrey Diwan, põe-nos dentro da história que é contada.

Vivemos aquela angústia – o pesadelo – o desespero.

A experiência daquela mulher jovem que sente necessidade de ocultar que se aterroriza com o estigma que antecipa.

Que tem vergonha de contar à família o que lhe está a acontecer – e que sente vergonha de ter vergonha.

Mas tudo a leva a sentir que deve interromper a gravidez, tem de abortar.

O filme de Audrey Diwan mergulha no que é intimo mas nunca nos parece intrusivo, nós somos parte - acompanhamos, vivemos - tudo.

A barriga que está a crescer, o tempo que vai escasseando para conseguir o aborto, a cadeia de factos e sentimentos, as dúvidas, a solidão, a decisão.

Até que ficamos diante da agulha de tricotar daquele desespero daquele aborto clandestino.

Um aborto – em qualquer circunstância é sempre um drama.

Esta história passa-se na França de antes da lei Veil. Mas também tem atualidade e pertinência.

Há muitos lugares do mundo onde, tragicamente, continua a ser assim.

Mas a história começou por ser autobiográfica, um autoretrato escrito em livro por uma das extraordinárias escritoras do nosso tempo.

Uma mulher que em todos os livros conta o vivido – expande o relato com - chamemos-lhe alguma autoficção.

Escrita sempre com inteligência, com sensibilidade, com sobriedade. Escrita incisiva, límpida, belíssima.

Com um bisturi a testar qual é a palavra mais certeira, uma artesã com as palavras, é assim a escrita superlativa de Annie Ernaux – agora premiada com o Nobel.

Annie Ernaux a filha de merceeiros numa aldeia da Normandia que se fez professora de literatura.

Escritora de mais de 20 livros em todos ela cruza experiencia pessoal, portanto autobiografia.

Com reportagem – com alguma dose de ficção resulta análise sociológica - a escrita dela transpira sociologia e sempre literatura.

Ela expõe-se - despojada na escrita. Trata temas com tabu, a violação, o aborto, a paixão amorosa, o casamento.

Lemos o que Annie Ernaux escreve e sentimos que é genuino – e tudo é humano.

Nesta mulher de 82 anos – assumidamente à esquerda, vale voltarmos a ver O Acontecimento – o filme

A ler O Acontecimento – o livro que lhe dá a história

E tudo a seguir a este acontecimento que é o Nobel para Annie Ernaux.

Siga a  SBS em Português no FacebookTwitter Instagram 

e ouça os nossos podcasts. Escute a  SBS em Português 

ao vivo às quartas e domingos ao meio-dia ou na hora que quiser na nossa página.


Share

Follow SBS Portuguese

Download our apps

Listen to our podcasts

Get the latest with our exclusive in-language podcasts on your favourite podcast apps.

Watch on SBS

Portuguese News

Watch now