Juliano Morais, pesquisador e mergulhador, faz parte de uma rede de cientistas que transformou levantamentos de estrelas-do-mar predadoras de coral, branqueamento e impactos de ciclones, iniciados em 1985, no maior e mais longo conjunto contínuo de dados sobre recifes de coral do planeta.
Há quarenta anos, cientistas australianos mergulham, ano após ano, nos mesmos pontos da Grande Barreira de Corais para registrar, olho no olho com o recife, como ele muda.
O resultado é o Programa de Monitoramento de Longo Prazo do Instituto Australiano de Ciências Marinhas (AIMS), hoje reconhecido como o maior e mais longevo conjunto contínuo de dados sobre saúde de recifes de coral do planeta. E, no meio da equipe que mantém esse trabalho, está Juliano Morais.
Juliano nasceu no Paraná, foi criado em Goiás e se formou em Ciências Biológicas antes de fazer mestrado na Paraíba, onde começou a estudar recifes de coral.
Foi ali, mergulhando no Nordeste brasileiro, que decidiu mudar de continente.
"Todo mundo que trabalha com recife de corais no Brasil pensa na Austrália, porque a Grande Barreira de Corais é o maior sistema de recife do mundo e é onde estão as melhores universidades, os melhores pesquisadores", conta.

Da Paraíba a Townsville
Juliano se mudou para a Austrália em 2018 — primeiro para Brisbane, onde passou um ano e meio aprendendo inglês, depois para Townsville, em 2020, para cursar o doutorado na James Cook University, instituição que já era, segundo ele, "conhecida como a melhor universidade de biologia marinha do mundo". Foi só depois de formado que chegou ao AIMS, onde hoje trabalha como mergulhador, ecologista e pesquisador.
O caminho não foi simples. "Eu vim pra Austrália literalmente sem saber inglês. Tive que aprender aqui na marra, estudando horas e horas por dia", lembra. Conseguir a bolsa de doutorado foi a parte mais difícil: "Um dia uma oportunidade apareceu e eu tava pronto, com tudo, a documentação organizada, e recebi uma ligação: 'tem uma bolsa pra você, mas você tem que estar em Townsville essa semana'. Eu tava em Brisbane, arrumei um carro e dirigi correndo até lá."
Quarenta anos, centenas de recifes, milhões de peixes
O programa que Juliano ajuda a manter hoje amostra recifes ao longo de toda a extensão da Grande Barreira.
Ao longo de quatro décadas, já foram monitorados 493 recifes, contados mais de quatro milhões de peixes, registrados cerca de 200 mil avistamentos de arraias-manta e realizados mais de 30 mil mergulhos científicos.
O trabalho é feito por dois métodos principais. No manta tow, um mergulhador é rebocado atrás de um barco e faz uma avaliação rápida e ampla do recife — cobertura de coral, presença da estrela-do-mar coroa-de-espinhos, sinais gerais de saúde.

Já nos levantamentos de ponto fixo, a equipe mergulha todos os anos nos mesmos transectos marcados, fotografando-os para obter um retrato mais detalhado do que está acontecendo ali. "No começo, era basicamente tudo no olhar humano. Hoje a gente já tem ajuda de inteligência artificial pra identificar corais nas fotos, e o AIMS investe bastante em novas tecnologias — robótica, câmeras, medidores de temperatura", explica.
Alcançar tantos pontos ao longo de mais de dois mil quilômetros de recife — uma extensão comparável à da Itália — exige logística pesada. "A Grande Barreira de Corais é enorme. O monitoramento de longo prazo é o único programa que consegue visitar lugares bem distantes, onde normalmente um turista não vai", diz Juliano, que descreve o contraste com sua experiência de mergulho no Brasil, onde as espécies de coral chegam a 25. "Quando mergulhei pela primeira vez aqui, foi como sair de uma cidade pequena e ir para uma megalópole. Cheio de peixes, tubarões, tartarugas, tudo acontecendo ao mesmo tempo."
Um recife que se recupera — se houver tempo
O principal dado que o programa acompanha é a variação na cobertura de coral ao longo do tempo. E a mensagem central de quarenta anos de registros, segundo Juliano, é ambivalente: a Grande Barreira consegue se recuperar depois de eventos como branqueamentos, ciclones e surtos da estrela-do-mar coroa-de-espinhos — mas só se tiver tempo suficiente entre um distúrbio e outro.
"Depois de um branqueamento, como os que aconteceram em 2016 e em 2024, a gente vê uma perda muito grande da cobertura de coral. Mas, se o recife tiver tempo, ele se recupera", afirma. O problema é que esse intervalo está encolhendo: "A janela de recuperação entre os distúrbios térmicos que causam os branqueamentos tem diminuído ao longo dos anos. Essa é uma preocupação — quanto tempo ainda vamos ter entre um distúrbio e outro para os corais se recuperarem."
Juliano também destaca que a Grande Barreira não deve ser tratada como um bloco único: recifes mais próximos da costa, mais profundos, mais rasos ou mais sedimentados reagem de formas diferentes aos mesmos eventos. "A gente não pode olhar a Grande Barreira de Corais como um todo. Tem que ver regionalmente."

Dados que viram política pública
Para Juliano, o valor do monitoramento vai além do diagnóstico científico — ele orienta decisões de gestão. O exemplo que cita é de 2004, quando o governo australiano, com base nos dados do programa, ampliou a proporção de áreas de proteção total (onde pesca e turismo são proibidos) de 4% para 30% da Grande Barreira. "Isso não teria acontecido sem esses dados", resume.
Fora da lista de risco, mas não fora de perigo
A entrevista aconteceu poucas semanas depois de o Comitê do Patrimônio Mundial da UNESCO decidir, mais uma vez, manter a Grande Barreira de Corais fora da lista de patrimônios "em perigo" — uma decisão que a Austrália comemorou, mas que ambientalistas e cientistas receberam com ressalvas, já que o recife enfrentou seu sexto evento de branqueamento em massa em nove anos.
Questionado sobre como interpreta essa decisão à luz dos dados de quarenta anos, Juliano prefere não discutir o assunto do ponto de vista político.
"A Grande Barreira é um ecossistema vasto, diverso e extraordinário, mas está sob pressão crescente. Os distúrbios ligados ao clima estão ficando mais frequentes e mais severos, e os ganhos recentes de cobertura podem se perder rapidamente", diz. "O nosso papel no AIMS é mostrar, de forma independente e clara, o que está acontecendo. A decisão é do governo, não nossa."
Conselhos para quem sonha com a Austrália
Depois de reconstruir a carreira em outro idioma e outro continente, Juliano tem um recado direto para brasileiros que sonham em trabalhar com ciência marinha na Austrália: "Aqui é a Meca pra quem trabalha com recife de coral e ecologia marinha. Tem trabalho pra todo mundo. Vem, tenta, aplica, conversa com as pessoas, não tenha vergonha de se expor, tenta se atualizar, busca mais formação." E completa, recorrendo a um ditado bem brasileiro: "O cavalo selado não passa duas vezes. Quando a oportunidade passar, agarra ela com unhas e dentes."

Uma ponte com o Brasil
Mesmo depois de anos na Austrália, Juliano mantém os laços com a ciência brasileira. Em dezembro do ano passado, foi convidado a dar um curso de campo para estudantes de universidades do Nordeste e do Sudeste em Tamandaré, Pernambuco. "Tudo que eu aprendo aqui, tento levar pra lá, porque o investimento em ciência no Brasil é bem mais limitado que na Austrália", diz.
Mas a troca, segundo ele, não é de mão única. "O brasileiro tem essa garra de fazer muito com pouco recurso. Quando um pesquisador brasileiro chega aqui e tem recurso abundante, ele sempre acaba fazendo um pouquinho mais. Isso é muito bonito de ver."
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