Guerra Civil do país africano em 1994 foi marcada pelo massacre étnico de 800 mil tutsis e hutus moderados em três meses após a tomada de poder por hutus radicais. O episódio gerou um marco do direito internacional, com o primeiro julgamento que condenou os responsáveis por genocídio.
Este domingo marca os 30 anos do início de um dos maiores massacres registrados nos últimos séculos: o genocídio de Ruanda, que matou aproximadamente 800 mil pessoas em um período de três meses.
Ruanda é um país da África Ocidental dominado há séculos majoritariamente por dois povos: os tutsis e os hutus. Os povos da região conseguiram se manter fora da colonização europeia até grande parte do século 19, quando o recém-formado Império Alemão conquistou a região, que era unificada com o hoje vizinho Burundi. Os alemães dominaram aquela parte da África entre 1894 até o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918.
Com a derrota germânica na guerra, a Liga das Nações, a entidade que precedeu a ONU, designou que os belgas dominariam o território, o que aconteceu até a Revolução de Ruanda, em 1961, quando o país se separou de Burundi e se declarou independente da Bélgica.
Embora minoritário, o povo tutsi havia muito tempo era dominante na governança da região, baseado na premissa de desigualdade entre os povos, que muitos historiadores afirmam ter sido radicalizada durante a colonização alemã e belga, inclusive com a diferenciação física entre os povos - os tutsis são mais claros e altos, e os hutus, mais negros e baixos. Embora compartilhassem a mesma língua e se misturassem há séculos, a partir do domínio europeu, a separação passou a ser incentivada, com governança dos tutsis.
A partir do fim dos anos 50, a revolta de camponeses hutus gerou a revolução e a independência, e o país passou a ser por eles governado. As tensões entre hutus e tutsis passaram a ser constante, o que explodiu em 1990, com uma invasão de rebeldes tutsis a partir da Uganda. Após um acordo, hutus e tutsis iriam iniciar uma transição para um governo hutu que incluiria os tutsis, proposta que os hutus radicais rechaçaram com veemência, ao mesmo tempo em que iniciaram uma campanha de propaganda de violência contra os rivais entre a população.
O resultado disso foi que, na noite de 6 de abril de 1994, um avião que levava o presidente ruandês, o hutu moderado Juvernal Habyarimana, e seu par do Burundi, o também hutu moderado Cyprien Ntaryamira, foi derrubado em Kigali, capital de Ruanda, matando todos a bordo. No dia seguinte, o primeiro-ministro, o hutu moderado Agathe Uwilingiyimana, foi assassinado, e os grupos radicais hutus assumiram o poder, estimulando a população de sua origem étnica a perseguir e assassinar os tutsis.
Entre 7 de abril e 18 de julho daquele ano, cerca de 800 mil pessoas foram assassinadas, a grande maioria de tutsis, mas também muitos hutus moderados, e cerca de 2 milhões de ruandeses fugiram para o Zaire, atual República Democrática do Congo.
O conflito cessou quando a Frente Patriótica Ruandesa, liderada pelos tutsi, conseguiu tomar Kigali em 4 de julho, dando início ao processo de reconciliação e a punição aos radicais hutus. A Organização das Nações Unidas organizou um tribunal penal para apurar o genocídio em Ruanda em novembro de 94 na vizinha Tanzânia - o tribunal viria a ser um marco histórico nas leis internacionais.
Em 2 de setembro de 1998, a Corte Criminal da ONU proferiu a primeira sentença sob a definição de genocídio da história: o ex-prefeito hutu da cidade de Taba, Jean-Paul Akayesu, por ter participado e supervisionado massacres contra mais de 2 mil tutsis e hutus moderados.
O julgamento também concluiu que violência sexual pode constituir um ato de genocídio caso dirigida contra um grupo étnico ou religioso.
Em 4 de setembro de 98, o-primeiro-ministro interino dos radicais, Jean Kambanda, se declarou culpado de genocídio e desde 1998 cumpre pena de prisão perpétua.
Desde o massacre, Ruanda vive um lento processo de reconciliação e recuperação econômica. O atual presidente Paul Kagame é de origem tutsi e esteve no movimento que derrubou os radicais hutus em 94.
Na semana passada, o presidente francês Emmanual Macron afirmou que a França, os países aliados e vizinhos africanos tinham ferramentas para evitar o massacre, mas nada fizeram.
Hoje, 7 de abril, 30 anos do genocídio, o presidente de Ruanda Paul Kagame reúne chefes de estado estrangeiros e representantes das Nações Unidas na capital Kigali.
Os eventos começarão com uma cerimônia para reacender a chama no Memorial Gisozi e continuarão na Arena Kigali; espera-se que cerca de 10 mil pessoas estejam presentes.
No mesmo dia, na sua sede em Paris, a UNESCO realizará uma cerimônia em memória e homenagem às vítimas, por iniciativa da delegação permanente do Ruanda.
À noite, a convite da UNESCO e do Ruanda, 10 metrópoles de todo o mundo participarão nesta comemoração iluminando um dos seus monumentos.
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