Estudo feito por Benno Torgler, co-autor de 'Nervos de Aço? Estresse, Desempenho e Atletas de Elite', sugere que jogadores mais jovens podem lidar melhor com a pressão. A entrevista foi feita em inglês.
Destaques
- Uma pesquisa da Queensland University of Technology sugere que os pênaltis não são uma “loteria”, mas momentos fortemente moldados pela pressão psicológica e pelo medo do fracasso.
- Jogadores com idade entre 23 e 28 anos tiveram um desempenho pior do que colegas mais jovens em pênaltis decisivos, sugerindo que a experiência nem sempre ajuda sob pressão extrema.
- O estudo descobriu que o medo da eliminação imediata pode reduzir drasticamente a chance de um jogador marcar um pênalti.
- De acordo com Benno Torgler, o futebol funciona como um “minilaboratório do comportamento humano”, revelando como as pessoas lidam com a competição, a ansiedade, a cooperação e o fracasso.
Mas o que realmente passa pela cabeça de um jogador na hora de cobrar um pênalti?
Essa foi a pergunta que motivou o professor Benno Torgler e o pesquisador David Savage, da Universidade de Tecnologia de Queensland, na Austrália, a estudar a relação entre estresse e desempenho em momentos cruciais do esporte como uma disputa de pênalti.
O resultado foi o estudo Nerves of Steel? Stress, Work Performance and Elite Athletes (Nervos de Aço? Estresse, Desempenho e Atletas de Elite), baseado na análise de 325 cobranças em Copas do Mundo e Eurocopas entre 1976 e 2008.
Para Benno Torgler, o futebol funciona como um “mini laboratório humano” porque permite observar com precisão como as pessoas reagem sob pressão extrema.
Diferente de outras profissões, em uma cobrança de pênalti é possível medir fatores como o momento do jogo, risco de eliminação, idade e experiência do jogador, tudo dentro das mesmas regras e condições. "Isso transforma o futebol em um ambiente ideal para estudar medo, tomada de decisão, competição e comportamento humano," diz Torgler.
Um dos achados mais curiosos da pesquisa envolve a idade dos cobradores.

Jogadores entre 23 e 28 anos tiveram desempenho pior do que atletas mais jovens. Segundo o estudo, eles foram 13,7% menos eficientes nas cobranças decisivas.
A explicação pode parecer contraintuitiva. Afinal, experiência não deveria ajudar?
Para Torgler, não necessariamente.
A pesquisa concluiu que pênaltis não são uma “loteria”. A psicologia tem um peso enorme no resultado.
“Os jogadores mais jovens talvez entrem nessas situações mais relaxados, sem carregar o mesmo peso das expectativas”, explicou. “Já atletas no auge da carreira sentem mais a obrigação de acertar.”
Mas o fator mais importante não é idade ou técnica. É o medo do fracasso.
O estudo diferencia dois tipos de pressão que passam pela cabeça do jogador.
A “pressão positiva” acontece quando o jogador pode marcar e garantir vantagem, mas sabe, ou acredita, que se perder o pênalti, existe chance de uma recuperação.
Já a “pressão negativa” surge quando perder o pênalti significa eliminação imediata.

Segundo a pesquisa, jogadores em situações de pressão negativa tiveram queda de até 45% na taxa de sucesso.
“Quando o jogador sabe que não existe recuperação possível, o impacto psicológico é enorme”, afirmou Torgler.
Torgler também aponta para outra curiosidade: a comparação entre jogadores pode afetar o desempenho dentro de campo. Segundo ele, atletas tendem a se comparar mais com quem está “mais próximo” deles, como colegas que jogam na mesma posição.
Quando essa comparação envolve salário, reconhecimento ou oportunidades, pode surgir um sentimento de inveja, que, segundo suas pesquisas, tende a prejudicar tanto o desempenho individual quanto a cooperação com o time.
Outro ponto interessante envolve a maneira como jogadores reagem ao adversário. Pesquisas mais recentes mostram que atletas têm mais dificuldade para converter um pênalti depois que o rival marca sua cobrança.

Curiosamente, o impacto emocional do sucesso do adversário parece ser maior do que o desempenho do próprio time.
“O futebol é quase um mini universo experimental. Os jogadores atuam sob as mesmas regras, nas mesmas condições e com enorme pressão emocional. Isso nos permite observar como seres humanos lidam com competição, medo, cooperação e fracasso,” diz.
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