Onde Você Mora? Janaína Ricci conta como é viver em Mackay (QLD)

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A brasileira Janaína Ricci em Whiteheaven Beach, quase duas horas de carro de Mackay: a região tem praias lindíssimas e proximidade com a Grande Barreira de Corais, mas no verão há grande quantidade de águas-vivas.

A cidade na costa central de Queensland vive um boom populacional e de oportunidades de trabalho a partir da agropecuária, serviços e do hub de mineração. A possibilidade de viver em casas amplas a preços em conta (para os padrões australianos) é uma atração, mas o calor tropical e as intempéries da natureza, como ciclones, chuvas de monção, além da convivência com cobras e águas-vivas, exigem adaptações.


Mackay, Coral Sea Coast de Queensland (QLD 4740)
  • 121 mil habitantes, de acordo com o Censo 2021 - mas com provável crescimento desde então.
  • Economia: conhecida como a "capital da cana-de-açúcar da Austrália", também tem relevante produção de carne bovina; é um hub importante para a mineração na Bacia de Bowen, além do turismo.
  • Estilo de vida: interior, contato com a natureza. Moradia espaçosa a preços razoáveis.
  • Clima: tropical com verões chuvosos, com temperatura média em torno dos 30 graus, e invernos secos e ensolarados, com média entre 21-25 graus.
  • Povo originário da região: Yuwibara.

Se existe um lugar da Austrália que encarna todos os mitos sobre a vida selvagem em constante conflito com seres humanos, tão explorados pelas redes sociais mundo afora, este lugar é Queensland.

Janaína Ricci
Janaína Ricci e uma melancia colhida de seu pomar (ao fundo) arquitetado em permacultura: clima tropical de Mackay facilita a proliferação de frutas, legumes e verduras.

O segundo maior estado em extensão do país é maior que toda a região Nordeste do Brasil. Ou, para uma referência europeia, é equivalente à soma dos territórios de França, Espanha, Alemanha e Itália. Com muito território e uma baixa densidade populacional, Queensland está sempre a nos lembrar que a natureza é quem manda.

Mackay (QLD) no mapa
Mackay: de carro, em média, são quase 11 horas de viagem até a capital Brisbane ao sul, e 4 e meia até Townsville, ao norte.

Na região central do mapa do estado está uma de suas poucas aglomerações urbanas: a cidade de Mackay, na Coral Sea Coast.

Quem não gosta de calor realmente sofre em Mackay. No verão, época das chuvas, fica aquele bafo depois que chove. Passando março, fica bem tranquilo até o final de novembro.
Janaína Ricci

Mackay e seus arredores tinham, no censo de 2021, 121 mil habitantes, mas este número cresce rapidamente, tornando cada vez mais o município como um importante hub na vastidão de natureza que domina Queensland. Em média, são quase 11 horas de viagem de carro até a capital Brisbane ao sul, e 4 e meia até Townsville ao norte.

Mackay, Queensland
Vista aérea do Pioneer River e Mackay CBD, com o oceano ao fundo: agricultura e mineiração são os motores econômicos da região. Credit: pamspix/Getty Images

A economia da região é historicamente calcada na agropecuária, em especial na produção de açúcar de cana e produção de carne bovina, e, nas últimas décadas, também na mineração, com a presença da BHP na extração de carvão na Bacia de Bowen. O porto da região está em processo de expansão. O turismo também é relevante.

Tudo isso torna Mackay um local com muitas oportunidades de trabalho, inclusive para estudantes internacionais que sonham em permanecer na Austrália. O clima tropical atrai quem sofre com o frio do sul do país, entre aposentados e imigrantes. Além disso, o sonho da casa própria é consideravelmente mais acessível em Mackay, se comparado com as metrópoles e diversas outras áreas regionais do país.

Jason e Janaína
O casal Jason e Janaína, que vive em Mackay com os dois filhos desde 2021: cidade plana facilita para fazer da bicicleta meio de transporte.

Paulistana bicho-do-mato".

A brasileira Janaína Ricci vive em Mackay desde a pandemia com o parceiro australiano, Jason, e os dois filhos, Sienna, de 17 anos, e Thomas, de 16.

A gente gosta de trocar (colheita) com os vizinhos, essa vibe do interior que é maravilhosa. Leva ovos, trago plantas. Temos jabuticaba, acerola, pitanga, pitaia e horta... Agora comprei uma jaqueira pra plantar.
Janaína Ricci.

Apesar de ter nascido e vivido em São Paulo, Janaína se considera "bicho-do-mato" e se atraiu pela possibilidade morar em uma casa grande onde pudesse cultivar horta e pomar e adotar as práticas da permacultura. Também havia uma boa demanda de empregos para o casal - Jason é um içador de cargas pesadas - famoso rigger, em inglês -, e a brasileira, à época, trabalhava com educação infantil.

Jason e Janaina.jpeg
Jason e Janaína durante show do The Killers, em Townsville: falta de opções culturais em Mackay fazem os locais se locomoverem até Townsville ou Brisbane para maiores eventos culturais.

Nesta conversa com a SBS em Português, Janaína Ricci conta que esta região de Queensland é excelente para quem sonha viver com muito espaço físico e a vida pacata de interior. Mas ressalta que ali se demanda aprender a lidar com a natureza, exuberante, mas com intempéries como ciclones, cobras e a temporada de água-viva nas praias.

Gabi e Janaína
Janaína e a amiga Gabi (esq.), durante a festa junina brasileira de Mackay, que ambas organizaram.

Quer saber mais sobre Mackay? Janaína Ricci conta os prós e os contras do lugar que adora e não pensa em deixar tão cedo.

Onde Você Mora? Marcio Silva conta como é viver em Batesman Bay (NSW)

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[música animada]

Quase setenta por cento da população da Austrália vive nas grandes metrópoles do

país. Só que a crise do mercado imobiliário fez os preços subirem tanto

nos últimos anos, que a famosa qualidade de vida daqui, é cada vez menos realidade

pra quem mora de aluguel ou paga hipoteca. Por isso, as chamadas áreas regionais e

as remotas, são cada vez mais destino para quem sonha com a casa própria, fazer um

pé de meia, ter uma vida mais tranquila, ou então correr atrás da residência

permanente, através das oportunidades de vistos, que só essas regiões oferecem.

Então, que tal conhecermos estes lugares através das pessoas que já moram por lá?

Esta é a nova seção da SBS em Português, chamada: Onde Você Mora.

Aqui vamos conhecer brasileiros, portugueses, timorenses e luso-africanos,

que fazem a vida australiana fora de Sydney, Melbourne, Brisbane, Perth e

Adelaide. Quais os atrativos locais? Quais os pontos positivos e negativos?

Bem-vindos ao: Onde Você Mora.

[música animada]

Se existe um lugar da Austrália que encarna todos os mitos sobre a vida

selvagem em constante conflito com os seres humanos, tão explorados pelas redes

sociais mundo afora, este lugar é Queensland. O segundo maior estado em

extensão do país, é maior que toda a região Nordeste do Brasil, ou para uma

referência europeia, é equivalente à soma dos territórios de França, Espanha,

Alemanha e Itália. Com muito território e uma baixa densidade populacional,

Queensland está sempre a nos lembrar que a natureza é quem manda. Na região central

do mapa do estado, está uma de suas poucas aglomerações urbanas, a cidade de Mackay,

na Coral Sea Coast. Mackay e seus arredores tinham no censo de 2021, cento e

vinte e um mil habitantes, mas este número cresce rapidamente, tornando cada

vez mais o município como um importante hub, na vastidão de natureza que domina

Queensland. Em média, são quase onze horas de viagem de carro até a capital

Brisbane, ao sul, e quatro horas e meia até Townsville, ao norte.

A economia da região é historicamente calcada na agricultura, em especial na

produção de açúcar de cana, e nas últimas décadas, também na mineração, com a

presença da BHP na extração de carvão. O porto da região está em processo de

expansão. Tudo isso torna Mackay um local com muitas oportunidades de trabalho,

inclusive para estudantes internacionais que sonham em permanecer na Austrália em

definitivo. O clima tropical atrai quem sofre com o frio do sul do país, entre

aposentados e migrantes. Além disso, o sonho da casa própria é consideravelmente

mais acessível, se comparado com as metrópoles e diversas outras áreas

regionais do país. A brasileira Janaína Ricci, vive em Mackay desde a pandemia com

o parceiro australiano, Jason, e os dois filhos, Siena, de dezessete anos, e

Thomas, de dezesseis. Apesar de ter nascido e vivido em São Paulo, Janaína se

considera bicho do mato e se atraiu pela possibilidade de morar em uma casa grande,

onde pudesse cultivar horta e pomar, e adotar as práticas da permacultura. Também

havia uma boa demanda de empregos para o casal. Jason é um içador de cargas

pesadas, o famoso rigger, em inglês, e a brasileira, à época, trabalhava com

educação infantil. Nesta conversa com a SBS em Português, Janaína Ricci conta que

esta região de Queensland é excelente pra quem sonha em viver com muito espaço

físico e a vida pacata de interior. Mas ressalta que ali se demanda aprender a

lidar com a natureza, exuberante, mas com intempéries como ciclones, cobras e a

temporada de água viva nas praias. Quer saber mais sobre Mackay? Janaína Ricci

conta os prós e os contras do lugar que adora e não pensa em deixar tão cedo.

Janaína, obrigado por essa conversa. Prazer conversar contigo. Eu queria

começar esse papo, como a gente sempre começa, perguntando: Janaína Ricci é da

onde, do Brasil? De que cidade? E quanto tempo de Austrália? E queria que você

contextualizasse também como é que você veio parar na Austrália.

Tá, bom dia, Fernando, obrigada pela oportunidade.

Então, eu sou de São Paulo, capital, da região de Santo Amaro. Cresci, morei lá.

Eu vim parar na Austrália, porque eu tava trabalhando na Indonésia, em Bali,

e eu conheci meu marido lá, que é australiano.

E quando o meu contrato de trabalho acabou, a gente decidiu

vir pra, pra Austrália, né?

E viemos pra cá, é, em 2016.

Moramos um pouquinho em Sydney, que ele é de Sydney, mas ele não queria morar lá de

jeito nenhum. [riso] Eu sei que todo mundo ama Sydney, mas ele: "ah,

não, a gente é meio bicho do mato, gosta de sossego". Então a gente acabou mudando

pra Mid North Coast, New South Wales, na região de Coffs Harbour, onde a gente

comprou um sítio, que um dos sonhos em comum era ser autossuficiente na produção

e criar bicho, enfim. Mas aí veio o Covid, fechou as borders, eu tava trabalhando em

Queensland, que ele é fly in, fly out, né? E aí foi bem difícil e a gente decidiu

mudar pra Mackay. Primeira vez que eu vim, eu não gostei, falando bem

genericamente, era bem white Australian, então eu não achei muito welcoming, assim,

que os meus filhos não são brancos.... E não gostei, falei: "ah, não sei o que",

mas meu marido: "não, é bom, vai ser bom pra gente, a gente vai se ver sempre",

enfim. Aí, no segundo ano do Covid, quando tava aberta as bordas, a gente veio pra

cá, chamou uma casa, fizemos um oferta, foi aceita, eu voltei pra New South Wales,

pra arrumar tudo, fechou a borda de novo. Enfim, quando abriu a borda, eu falo

assim, que minha vida mudou. Eu gosto muito daqui de Mackay.

É interessante como todo mundo que eu converso, e não poderia ser diferente, mas

a, a Covid é aquela coisa que definiu muita coisa na vida, né?

-Uhum! -Era um período que, que de fato, as

coisas-- cê teve que se acostumar com processo novo e, e a partir de então,

muita gente fez novas resoluções de vida, inclusive de mudança, né? Quem mora na

Austrália, muita gente decidiu deixar as cidades grandes com as oportunidades que

-apareceram. Qual a sua profissão? -Eu trabalho com educação infantil,

trabalhei muitos anos em, em child care, né, em escolas, enfim. E eu mudei e tô

trabalhando pra uma partner agency do NDIS, ainda trabalhando com crianças e com

famílias, com os programas de intervenção inicial pra crianças com atraso de

desenvolvimento, disability, as palavras em português às vezes fogem, né? [riso]

-Mas, é deficiência, enfim. -E o seu marido, ele é rigger, é isso?

-Ele é rigger, isso. -É içador, em português.

Içador, ele trabalha junto com a, com as cranes, né, no, no porto de Mackay ou nas

minas, içando as peças na-- quando tem manutenção, né?

-Janaína- -Hum?

Mackay é uma cidade muito peculiar, que fica já no, no lado mais norte de

-Queensland. -Uhum!

E ainda tem chão pra chegar no top end, top end mesmo, na pontinha.

-Tem. -O tamanho de Queensland é uma coisa

impressionante, né? Vocês decidiram ir aí, você falou que não gostou muito no

começo, mas eu queria entender o que mudou, que vocês decidiram ficar pra valer

-em Mackay e agora você adora. -A primeira vez que a gente veio, a gente

não ficou em Mackay, a gente ficou em Hay Point, que é um pouco mais isolado, não

tem nada, tinha menos coisa ainda do que onde a gente morava em New South Wales. E

meu filho sofreu um episódio aí de preconceito, num parquinho, e eu fiquei

super defensiva. A gente que é mãe, né, mexendo com o filho, né? Chamaram ele de

macaco, assim, eu fiquei muito magoada, assim, sabe? Aí

falei pro meu marido, falei: "ah, não quero ficar mais aqui, tá? Não gostei",

enfim. Mas aí depois, no Covid, né, que foi aquele chacoalhão, tudo que a gente

mais queria era ficar junto como família. E lá na Mid North Coast, a gente não

conseguia aprovação pra construir a casa-- sabe quando nada encaixa? Ir pra trabalho

lá não é bom. Aqui em Mackay, pro meu marido, trabalho é o que não falta, e ele

ia ter essa oportunidade que a gente nunca teve, desde sempre, de trabalhar e voltar

pra casa no mesmo dia. A gente nunca tinha tido isso. Então isso foi o ponto

principal. O segundo, obviamente, foi o valor das casas, que

naquela época ainda tava bem baixo e o nosso terreno, sitiozinho, em New South

Wales valorizou muito, porque todo mundo de Sydney tava mudando ali pra Mid North

Coast. Então a gente acabou conseguindo comprar uma casa aqui,

com o dinheiro que a gente vendeu o terreno lá e ainda sobrou, sabe?

E conseguimos uma casa grande, com terreno grande, que ainda dava pra plantar, pra

ter bicho, não dá pra ter cabra, ovelha, cavalo, mas a gente tem, tem galinha

[riso] e gatinhos. Então foi a união de trabalho, possibilidade de ter uma casa

bacana, perto da praia. Eu moro, tipo, onze minutos de bicicleta da

praia. Clima tropical, que pra gente que gosta de plantar, é maravilhoso. Então,

assim, os frutos tropicais aqui vão super bem.

E oportunidade pras crianças também, porque lá onde a gente morava antes, pra

eles, como trabalho, não ia dar. E aqui, apesar de não ser tão grande, ainda tem as

opções de estudo e tem muito trabalho. Tem assim, na verdade, tem muito trabalho

pra todo mundo. Isso é um lado muito bom de Mackay.

Os padrões australianos, entre as cidades pequenas, é uma das maiores, né? Tem cento

-e trinta mil habitantes, quase. -Eu trabalho, né, side no meu trabalho, a

parte de cultural champions, né? Então eu lido com a cultural diversidade da área,

então eu tenho estudado muito isso. A projeção é de aumentar quinze mil

habitantes por ano, nos próximos dez anos.

Opa, então não vai demorar muito pra chegar nos duzentos mil.

Pois é, acho que vai ficar meio parecido com Rockhampton, Townsville, e espero que

com a mesma estrutura, sem perder esse interior.

Janaína, conta pra gente como é viver em Mackay.

-Você mora na região central? -Sim.

Eu queria entender como é que funciona, se você consegue fazer as coisas a pé, se

tem transporte público, como é a oferta de restaurantes, etc.

Eu moro bem perto do centro, isso também foi pré-requisito pra mudar pra cá, porque

antes eu morava a trinta quilômetros em estrada do meu trabalho, e agora, é assim,

eu chego no meu trabalho em onze minutos de carro, se eu for de bicicleta, uns

vinte e cinco. E Mackay é muito bom pra bicicleta, porque é plano, a maior parte

da cidade é plana e tem bastante ciclovia até, pra todos os lados, assim. Em

Queensland, você pode andar na calçada de bicicleta também. O que eu gosto muito,

que não tem trânsito. Tem trânsito duas vezes por dia, em algumas regiões, aonde

eu moro, não, assim, raramente. Pra parar no farol, muito raramente, eu vou ter que

esperar duas vezes o farol mudar. Precisa ser um dia, assim, surreal. Agora, quem

mora na Northern Beaches, que é onde tá crescendo bastante também, ali você pega

um pouco mais de trânsito, porque só tem uma avenida principal?... e entra e sai de

Mackay, então na hora de escola, assim, de manhã

e na hora de saída de escola, fica meio engarrafado ali. Mas também, se comparar

com o trânsito de Sydney, Brisbane, Gold Coast ou São Paulo, [riso] eu falando não,

né? Mas como eu já tô aqui faz tempo, pra mim, dirigir vinte minutos é longe.

-[riso] -Sei bem. Opções de restaurante boas, como

é que é? Você sente falta de alguma coisa específica?

Sim, eu e meu marido, a gente gosta muito de cozinhar, então,

nesse quesito, a gente é bem chato, porque pra gente querer sair pra pagar, tem que

ser comida boa. Tem alguns, mas tá aumentando, o que é muito legal, mas

obviamente, não se compara com cidade grande. E eu sei que as pessoas que vêm

pra cá, de Sydney, Gold Coast, Brisbane, sentem muito isso, essa variedade, né,

essa opção. Até porque aqui, como eu falei, agora que tá ficando um pouco mais

diverso do que era antigamente. Então, o que faz sucesso, né, é aquela comida de

pub, steak

e a batata. Então tem um monte de café, tem um monte de pub,

mas as comidas diferentes, tem pouco ainda. Então tem um italiano que é muito

bom, indiano tem mais, que a população de indianos tá aumentando, e asiático também

tá abrindo uns bem gostosos assim, mas não tem, por exemplo, um libanês maravilhoso,

sabe? Então, realmente, isso podia melhorar, com certeza. [riso]

Você falou que os seus filhos não são brancos-

-Não! -... e você se incomodou, no primeiro

momento, da região que você morava antes, por ser muito, é, coisa de preconceito,

uma— o white australia mais fechado. Como é Mackay, nisso aí, nessa região mais

-central hoje? -Eu acho que tá

mudando, pelos números de imigrantes que tão vindo pra cá.

Existe, eu acho que uma resistência, obviamente, das pessoas mais

conservadoras, preconceituosas, enfim, teve, né? Aquela micro marcha

anti-imigração, enfim, tem alguns grupos assim, mas eu acho que a grande maioria é

ok.

Existiam alguns grupos aqui que já tinham um número grande, tem bastante filipino

nas minas, e eu adoro os filipinos, eu chamo eles de Fili primos, porque eu acho

eles muito parecidos com a gente, né? São divertidos, gostam de comida, de família e

-tal. -Você pediu que eles são os brasileiros do,

-da Ásia, porque- -Exatamente!

eles gostam de festa, é mais bagunçado também, eles são fáceis de se enturmar,

tem, tem muita similaridade com a gente, com latino-americano, né?

-É. -Os latino-americanos desse lado da Ásia.

A população de indianos tá aumentando bastante por causa do visto, por causa de

médico, porque tem muito aposentado mudando pra Mackay, por causa do clima,

por causa do preço, e com isso aumenta as demandas da parte de saúde. Os

paquistaneses, os médicos, né, os skill migration, né, de Bangladesh, que são

médicos, aumentou aqui. E algumas pessoas não gostam, né? Tem muito preconceito com

esses povos, infelizmente. Com relação aos meus filhos sofrerem preconceito, só

aconteceu de novo, que eu presenciei uma vez, ficaram seguindo meu filho na loja,

sabe, assim,

trezentas mil pessoas entrando e saindo, aí de quem que olham a mala? Dele, [riso]

sabe? Mas assim, deu uma melhorada. Não tá perfeito, ainda

existe, mas eu acho que essa questão de não estar perfeita, é na Austrália

-inteira. -Janaína, e brasileiros, portugueses,

timorenses, pessoas que falam português, aí, existe uma comunidade?

Eu acho que até tem bastante brasileiro, eu sou administradora do Brasileiros em

Mackay, junto com uma amiga minha. Tem gente que já foi embora, mas deixa eu dar

uma olhada quantas pessoas tem no grupo hoje. Trezentos e doze. Tem bastante gente

que veio há bastante tempo atrás, não só em Mackay, Mackay, Rockhampton e

Townsville, porque tem os frigoríficos, tem bastante fazenda de gado aqui em

Queensland. Então veio muita gente, há muitos anos, né, do interior de Minas,

ali, Tocantins, Goiás, Mato Grosso do Sul. Isso é uma comunidade que é bem antiga,

tá? Então acho que eles já tão na segunda, até terceira geração, de pessoas aqui na

Austrália. E eles têm um, um grupo bem forte, até tem a igrejinha deles, que a

sede é em Rockhampton. Sei que eles são bem unidos. E aí tem um outro grupo que

veio um pouco depois, um pessoal que veio tipo uns dez anos atrás.

E tem as pessoas que vêm de transição, né? Portugueses, eu sei que tem português,

-mas eu não conheço nenhum. -Como é que é a oferta de hospitais, aí?

Você falou que tem uma migração de muitos médicos, hã, da Índia, de outros países,

porque a população cresce, então evidentemente aumenta essa demanda. Queria

entender, você tá completamente coberta aí ou você tem que ir pra alguma outra

-cidade, se precisar de alguma emergência? -Então, eu acho que aí a gente entra em um

dos pontos negativos, né? Tem dois hospitais aqui, um público e um

particular. O hospital público é um hospital escola, ligado à, à universidade.

Eu só precisei usar o hospital uma vez e assim, não foi essas grandes maravilhas,

sabe? A ambulância foi maravilhosa, chegou aqui em casa em quinze minutos. É ok,

assim, possível, mas se for uma emergência muito séria, eles voam pra Brisbane ou

voam pra Townsville.

É, essa questão da distância, Mackay é uma cidade isolada, né? Entre cidades desse

nível. Quais as distâncias aí, pra você ir pra, pra outra cidade grande?

Townsville e Rockhampton é meio parecido, tipo quatro horas pra um, pra outro....

que são as cidades grandes, de avião é mais fácil, é uma hora e vinte pra

-Brisbane. -E o aeroporto funciona bem?

Super bem! Isso é outra coisa que eu gosto daqui, o aeroporto é dez minutos da minha

-casa. -E as passagens são acessíveis, se você

-quiser? -Ah, pra, pra Brisbane, até que é, viu?

Assim, eu não, não viajo muito de avião, então assim, eu tô por fora quanto é o

preço de

sair de Sydney pra ir pra outros lugares, né? Mas daqui pra Brisbane, é... eu não

vejo tanta diferença. Eu até pesquisei o preço pra ir pra Tasmânia, que é ter o

show do Foo Fighters. Era mais barato ir pra lá, pra Tasmânia, do que pra Sydney.

Então assim, não é, não, não é super caro, não é que nem Darwin, sabe? Se quiser ir

pra Darwin, pra qualquer lugar, é

muito caro. Passagem pro Brasil, a diferença é bem pequena, de-- se você sair

de Brisbane ou de Mackay.

Então isso não é um, um-- não vejo como um ponto ruim, não, e quem sabe vira

internacional aí, com o aumento do aeroporto que tão fazendo. [riso]

Então vamo lá. Pontos positivos, na opinião da Janaína, sobre Mackay. Cita uns

três aí.

Primeiro, as casas, apesar de ter subido o preço, ainda tem bastante oferta de casa

grande, com preço ok. Oferta de trabalho, muito trabalho,

e me sinto muito valorizada como profissional aqui. Terceiro, não ter

trânsito

e a proximidade de natureza, poder ter esse contato com a natureza, incrível!

Falando de quatro pontos. Eu posso continuar falando, porque eu adoro Mackay,

-mas vamos falar quatro. -E pontos negativos?

-A da saúde, né? -A questão da saúde, que pode ser, não é

exatamente um problema, mas pode ser, se for uma coisa mais séria. O que mais?

A outra, eu acho que

o governo

de Queensland não direciona muito recurso pra cá, a gente é meio esquecido. Ali

passou ali da Sunshine, vira meio um limbo, assim, de direcionamento de verbas

estaduais. Então, é,

isso é triste, porque tem tanto potencial

e a gente é meio esquecido. O outro, eu acho que tem, ainda tem pouca oferta de

estudo, então pra quem tem filho, a questão de universidade, dependendo do

curso, né, se tá pensando em ficar aqui permanente, eventualmente eles vão ter que

ir pra Townsville ou pra Rockhampton, ou algum outro lugar.

-Vida cultural? -Pois é, é uma boa. Quem gosta de balada,

provavelmente não vai gostar, porque é parado, é cidade do interior, a não ser

que você goste de country music. E aí tem rodeio ali, rodeio ali, rodeio aqui, não é

o meu caso, mas é uma coisa que eu tô vendo engatinhando aos pouquinhos, assim,

com mais gente, principalmente migração, né? Pessoal de Victoria, uma loucura,

gosta muito de Mackay, tem muita gente de Victoria aqui pra cima, acho que fugindo

do frio. Quem não gosta de calor, né, é, inseto, [riso] que é área

tropical. E um principal, a questão de não dar pra nadar no mar o tempo inteiro, por

causa da box de jellyfish, hurricane e crocodilo. Aqui não tem muito crocodilo,

mas isso é meio polêmica, não é uma coisa que a gente fala muito. Eu nado, meu

marido nada,

mas na época de jellyfish, é, meu marido e as crianças surfam, eles colocam o

stinger suit, né?

-Porque tem- -Qual é a época de jellyfish?

Aqui é, tipo, final de outubro até

comecinho de abril.

Ou seja, o verão.

-O verão inteiro, quando é-- chove, né? -É, mas aí também, a época que não é verão,

não é inverno, né? Eu queria inclusive falar disso.

A temperatura em Mackay é uma temperatura quente. Quem não gosta de temperatura

-tropical, provavelmente sofre aí, né? -Quem não gosta de calor, realmente sofre,

mas, a-- eu vou te contar que quando a gente morou em Sydney, que era ali em

Pattinson, na região de Bankstown, eu passava mais calor lá do que aqui,

porque é concreto, né, é diferente. Aqui, como eu tô perto do mar e a minha casa é

alta, é uma Queenslander, eu pego a brisa do mar, sabe? Então, assim, eu não sofro

tanto aqui quanto eu achei que eu fosse sofrer. Então, agora, na época que tá

chovendo, eu acho que é o mais difícil, porque é aquela coisa bem

tropical mesmo, de chove, aí vem aquele bafo, sabe?

Mas, olha, passando março,

eu acho bem tranquilo, passando-- é, num-- e a, e só começa a ficar ruim

no final de novembro, assim. Mas, de novo, é percepção.

Agora, se você tá nos subúrbios, que são mais baixinhos, com mais casa, deve ter

uma sensação de calor maior. A gente não usa muito ar-condicionado aqui, comparado

-com a maioria das pessoas. -Aí no inverno, você usa blusa?

Eu ainda não cheguei nesse nível de, dos locais de Mackay, de ter que botar um

casaco quando

faz vinte e um graus, mas o pessoal aqui coloca roupa [riso] como se tivesse

outono, inverno. A época, assim, outono, inverno, primavera, aqui é maravilhoso, o

céu é lindo, é, sabe, cê sai, tá sempre agradável o clima, tal,

mas faz um friozinho, mas não igual Sydney, que pra mim é um ponto negativo,

-que eu não suporto inverno. -Ah, e o clima de monções do Sudeste

Asiático influencia, não influencia? Eu imagino que agora seja temporada de chuvas

e tem também, é, problemas com ciclones, né? Aí ciclones que chama aqui.

Como são as intempéries da natureza?

...Sim, é, agora é época de ciclone, teve um domingo passado, ele era só um Tropical

Low, aí chegou aqui como um Cat One, mas atingiu mais a Whitsundays. Mas mesmo

assim, foi vento, bastante chuva, alagou. Desde que eu mudei pra cá, a gente não

passou por nenhum sério, como tiveram, acho que foi em 2012.

Você comentou que a sua casa, é uma casa estilo Queenslander, que esse é um estilo

de casa muito específico do top end, da, da parte que é bem tropical da Austrália,

né? Eu sei que você queria uma casa grande, porque queria montar um pomar,

coisa que você fez. Eu queria que você falasse um pouco sobre tudo que você

conseguiu colocar em prática no seu quintal, porque você se mudou pra Mackay.

A gente tentou trazer um pedacinho do sítio de Nilópolis pra cá, com o upgrade

de mais frutas tropicais. Então, assim, a minha casa, a casa, a estrutura da casa em

si é pequena, mas a área do jardim, do quintal, ela é bem grande, né? Então-

-Qual o tamanho? -Tem mil metros quadrados, o meu terreno.

Pra você ter uma ideia, eu tenho uma gum tree gigante no jardim, que foi o que me

fez escolher. Foi a árvore e a vizinhança, que eu vi: "Olha, aquele tem mangueira,

aquele ali tem um jardim", porque a gente gosta de trocar com os vizinhos, sabe? Tem

essa vibe de interior, que é maravilhosa, assim, leva ovo aqui, pega não sei o que

ali. E a gente tá quase terminado, assim, as hortas, as árvores. Eu comprei uma

jaqueira agora pra plantar, não plantei ainda, porque começou a chover. Nossa, a

gente tem muita coisa, Fernando. Jabuticaba, acerola, pitanga, graviola,

pitaya, agora tá assim, colhi uma pitaya gigante. E as hortas com-

E você tá com um galinheiro também, é isso?

-Também tem seis galinhas. -Você puxa o assunto com alguém pra falar

-de morar no interior de Queensland. -Uhum!

Uma das primeiras coisas é: mas e as cobras? É, qual é a relação com os bichos

selvagens, que todo mundo tem medo? Como é que é a sua relação com isso aí? Tem

muitos? Dá pra viver, quem tem medo, vai ter problema?

Tem bastante cobra, sim. Apareceram cobra aqui só duas vezes, só duas

-vezes. É- -Foi uma!

É, minha gata viu, porque quando a gente tá no jardim, as gatas tão sempre junto. O

pessoal fala mal de gata, elas são duas pastoras alemãs, são bem protetoras. E as

galinhas também, que as nossas galinhas são free ranging, não, não passa nada ali.

E como tá equilibrado, tem um monte de kookaburra, tem todas essas aves que comem

cobras. Sempre que eu escuto mais coisa de entrar e ter que chamar Snake

Catcher, é ou nos subúrbios, que tem muitas casas, que é tudo cercado ou por

canavial ou por área de mangue.

E perto de canavial, eu sei que tem muita brown, tem muita coastal taipan, que são

as bem perigosas, e nessa área mais aquática, tem muito as whip snakes, né? E

eu sei que tem gente que tem problema. Snake Catchers falam é: não crie o

ambiente que vai ser convidativo. E eu tenho galinha aqui, a galinha atrai

camundongo, por isso que eu tenho as gatas, então é meio tudo sustentável aqui.

-[riso] -É, você criou uma casa no estilo

-permacultura, não foi? -É!

Pra encerrar, então, queria saber o seu veredito sobre viver em Mackay.

Tô muito feliz, focada na, no que tem de bom.

O que tem de ruim, a gente tenta melhorar ou acha alternativas, então se eu: "ai,

nossa, tô com saudade dum, duma balada", pega um avião, vai pra Brisbane, né, com o

privilégio de poder ir. Se a gente quer nadar, a gente vai perto de Gladstone, que

é a primeira praia que dá pra nadar, que é maravilhosa, seis horas de carro daqui,

então não é tão ruim. E é isso. Muito feliz!

-Janaína, brigadão por essa conversa. -Imagina!

-E a gente se fala numa próxima. -Tá ótimo! Obrigada, Fernando.

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