Quase setenta por cento da população da
Austrália vive nas grandes metrópoles do
país. Só que a crise do mercado
imobiliário fez os preços subirem tanto
nos últimos anos, que a famosa qualidade
de vida daqui, é cada vez menos realidade
pra quem mora de aluguel ou paga hipoteca.
Por isso, as chamadas áreas regionais e
as remotas, são cada vez mais destino para
quem sonha com a casa própria, fazer um
pé de meia, ter uma vida mais tranquila,
ou então correr atrás da residência
permanente, através das oportunidades de
vistos, que só essas regiões oferecem.
Então, que tal conhecermos estes lugares
através das pessoas que já moram por lá?
Esta é a nova seção da SBS em Português,
chamada: Onde Você Mora.
Aqui vamos conhecer brasileiros,
portugueses, timorenses e luso-africanos,
que fazem a vida australiana fora de
Sydney, Melbourne, Brisbane, Perth e
Adelaide. Quais os atrativos locais? Quais
os pontos positivos e negativos?
Bem-vindos ao: Onde Você Mora.
Se existe um lugar da Austrália que
encarna todos os mitos sobre a vida
selvagem em constante conflito com os
seres humanos, tão explorados pelas redes
sociais mundo afora, este lugar é
Queensland. O segundo maior estado em
extensão do país, é maior que toda a
região Nordeste do Brasil, ou para uma
referência europeia, é equivalente à soma
dos territórios de França, Espanha,
Alemanha e Itália. Com muito território e
uma baixa densidade populacional,
Queensland está sempre a nos lembrar que a
natureza é quem manda. Na região central
do mapa do estado, está uma de suas poucas
aglomerações urbanas, a cidade de Mackay,
na Coral Sea Coast. Mackay e seus
arredores tinham no censo de 2021, cento e
vinte e um mil habitantes, mas este
número cresce rapidamente, tornando cada
vez mais o município como um importante
hub, na vastidão de natureza que domina
Queensland. Em média, são quase onze horas
de viagem de carro até a capital
Brisbane, ao sul, e quatro horas e meia
até Townsville, ao norte.
A economia da região é historicamente
calcada na agricultura, em especial na
produção de açúcar de cana, e nas últimas
décadas, também na mineração, com a
presença da BHP na extração de carvão. O
porto da região está em processo de
expansão. Tudo isso torna Mackay um local
com muitas oportunidades de trabalho,
inclusive para estudantes internacionais
que sonham em permanecer na Austrália em
definitivo. O clima tropical atrai quem
sofre com o frio do sul do país, entre
aposentados e migrantes. Além disso, o
sonho da casa própria é consideravelmente
mais acessível, se comparado com as
metrópoles e diversas outras áreas
regionais do país. A brasileira Janaína
Ricci, vive em Mackay desde a pandemia com
o parceiro australiano, Jason, e os dois
filhos, Siena, de dezessete anos, e
Thomas, de dezesseis. Apesar de ter
nascido e vivido em São Paulo, Janaína se
considera bicho do mato e se atraiu pela
possibilidade de morar em uma casa grande,
onde pudesse cultivar horta e pomar, e
adotar as práticas da permacultura. Também
havia uma boa demanda de empregos para o
casal. Jason é um içador de cargas
pesadas, o famoso rigger, em inglês, e a
brasileira, à época, trabalhava com
educação infantil. Nesta conversa com a
SBS em Português, Janaína Ricci conta que
esta região de Queensland é excelente pra
quem sonha em viver com muito espaço
físico e a vida pacata de interior. Mas
ressalta que ali se demanda aprender a
lidar com a natureza, exuberante, mas com
intempéries como ciclones, cobras e a
temporada de água viva nas praias. Quer
saber mais sobre Mackay? Janaína Ricci
conta os prós e os contras do lugar que
adora e não pensa em deixar tão cedo.
Janaína, obrigado por essa conversa.
Prazer conversar contigo. Eu queria
começar esse papo, como a gente sempre
começa, perguntando: Janaína Ricci é da
onde, do Brasil? De que cidade? E quanto
tempo de Austrália? E queria que você
contextualizasse também como é que você
veio parar na Austrália.
Tá, bom dia, Fernando, obrigada pela
oportunidade.
Então, eu sou de São Paulo, capital, da
região de Santo Amaro. Cresci, morei lá.
Eu vim parar na Austrália, porque eu tava
trabalhando na Indonésia, em Bali,
e eu conheci meu marido lá, que é
australiano.
E quando o meu contrato de trabalho
acabou, a gente decidiu
vir pra, pra Austrália, né?
E viemos pra cá, é, em 2016.
Moramos um pouquinho em Sydney, que ele é
de Sydney, mas ele não queria morar lá de
jeito nenhum. [riso] Eu sei que todo mundo
ama Sydney, mas ele: "ah,
não, a gente é meio bicho do mato, gosta
de sossego". Então a gente acabou mudando
pra Mid North Coast, New South Wales, na
região de Coffs Harbour, onde a gente
comprou um sítio, que um dos sonhos em
comum era ser autossuficiente na produção
e criar bicho, enfim. Mas aí veio o Covid,
fechou as borders, eu tava trabalhando em
Queensland, que ele é fly in, fly out,
né? E aí foi bem difícil e a gente decidiu
mudar pra Mackay. Primeira vez que eu vim,
eu não gostei, falando bem
genericamente, era bem white Australian,
então eu não achei muito welcoming, assim,
que os meus filhos não são brancos.... E
não gostei, falei: "ah, não sei o que",
mas meu marido: "não, é bom, vai ser bom
pra gente, a gente vai se ver sempre",
enfim. Aí, no segundo ano do Covid, quando
tava aberta as bordas, a gente veio pra
cá, chamou uma casa, fizemos um oferta,
foi aceita, eu voltei pra New South Wales,
pra arrumar tudo, fechou a borda de novo.
Enfim, quando abriu a borda, eu falo
assim, que minha vida mudou. Eu gosto
muito daqui de Mackay.
É interessante como todo mundo que eu
converso, e não poderia ser diferente, mas
a, a Covid é aquela coisa que definiu
muita coisa na vida, né?
-Uhum!
-Era um período que, que de fato, as
coisas-- cê teve que se acostumar com
processo novo e, e a partir de então,
muita gente fez novas resoluções de vida,
inclusive de mudança, né? Quem mora na
Austrália, muita gente decidiu deixar as
cidades grandes com as oportunidades que
-apareceram. Qual a sua profissão?
-Eu trabalho com educação infantil,
trabalhei muitos anos em, em child care,
né, em escolas, enfim. E eu mudei e tô
trabalhando pra uma partner agency do
NDIS, ainda trabalhando com crianças e com
famílias, com os programas de intervenção
inicial pra crianças com atraso de
desenvolvimento, disability, as palavras
em português às vezes fogem, né? [riso]
-Mas, é deficiência, enfim.
-E o seu marido, ele é rigger, é isso?
-Ele é rigger, isso.
-É içador, em português.
Içador, ele trabalha junto com a, com as
cranes, né, no, no porto de Mackay ou nas
minas, içando as peças na-- quando tem
manutenção, né?
Mackay é uma cidade muito peculiar, que
fica já no, no lado mais norte de
E ainda tem chão pra chegar no top end,
top end mesmo, na pontinha.
-Tem.
-O tamanho de Queensland é uma coisa
impressionante, né? Vocês decidiram ir aí,
você falou que não gostou muito no
começo, mas eu queria entender o que
mudou, que vocês decidiram ficar pra valer
-em Mackay e agora você adora.
-A primeira vez que a gente veio, a gente
não ficou em Mackay, a gente ficou em Hay
Point, que é um pouco mais isolado, não
tem nada, tinha menos coisa ainda do que
onde a gente morava em New South Wales. E
meu filho sofreu um episódio aí de
preconceito, num parquinho, e eu fiquei
super defensiva. A gente que é mãe, né,
mexendo com o filho, né? Chamaram ele de
macaco, assim, eu fiquei muito magoada,
assim, sabe? Aí
falei pro meu marido, falei: "ah, não
quero ficar mais aqui, tá? Não gostei",
enfim. Mas aí depois, no Covid, né, que
foi aquele chacoalhão, tudo que a gente
mais queria era ficar junto como família.
E lá na Mid North Coast, a gente não
conseguia aprovação pra construir a casa--
sabe quando nada encaixa? Ir pra trabalho
lá não é bom. Aqui em Mackay, pro meu
marido, trabalho é o que não falta, e ele
ia ter essa oportunidade que a gente nunca
teve, desde sempre, de trabalhar e voltar
pra casa no mesmo dia. A gente nunca
tinha tido isso. Então isso foi o ponto
principal. O segundo, obviamente, foi o
valor das casas, que
naquela época ainda tava bem baixo e o
nosso terreno, sitiozinho, em New South
Wales valorizou muito, porque todo mundo
de Sydney tava mudando ali pra Mid North
Coast. Então a gente acabou conseguindo
comprar uma casa aqui,
com o dinheiro que a gente vendeu o
terreno lá e ainda sobrou, sabe?
E conseguimos uma casa grande, com terreno
grande, que ainda dava pra plantar, pra
ter bicho, não dá pra ter cabra, ovelha,
cavalo, mas a gente tem, tem galinha
[riso] e gatinhos. Então foi a união de
trabalho, possibilidade de ter uma casa
bacana, perto da praia. Eu moro, tipo,
onze minutos de bicicleta da
praia. Clima tropical, que pra gente que
gosta de plantar, é maravilhoso. Então,
assim, os frutos tropicais aqui vão super
bem.
E oportunidade pras crianças também,
porque lá onde a gente morava antes, pra
eles, como trabalho, não ia dar. E aqui,
apesar de não ser tão grande, ainda tem as
opções de estudo e tem muito trabalho.
Tem assim, na verdade, tem muito trabalho
pra todo mundo. Isso é um lado muito bom
de Mackay.
Os padrões australianos, entre as cidades
pequenas, é uma das maiores, né? Tem cento
-e trinta mil habitantes, quase.
-Eu trabalho, né, side no meu trabalho, a
parte de cultural champions, né? Então eu
lido com a cultural diversidade da área,
então eu tenho estudado muito isso. A
projeção é de aumentar quinze mil
habitantes por ano, nos próximos dez anos.
Opa, então não vai demorar muito pra
chegar nos duzentos mil.
Pois é, acho que vai ficar meio parecido
com Rockhampton, Townsville, e espero que
com a mesma estrutura, sem perder esse
interior.
Janaína, conta pra gente como é viver em
Mackay.
-Você mora na região central?
-Sim.
Eu queria entender como é que funciona, se
você consegue fazer as coisas a pé, se
tem transporte público, como é a oferta de
restaurantes, etc.
Eu moro bem perto do centro, isso também
foi pré-requisito pra mudar pra cá, porque
antes eu morava a trinta quilômetros em
estrada do meu trabalho, e agora, é assim,
eu chego no meu trabalho em onze minutos
de carro, se eu for de bicicleta, uns
vinte e cinco. E Mackay é muito bom pra
bicicleta, porque é plano, a maior parte
da cidade é plana e tem bastante ciclovia
até, pra todos os lados, assim. Em
Queensland, você pode andar na calçada de
bicicleta também. O que eu gosto muito,
que não tem trânsito. Tem trânsito duas
vezes por dia, em algumas regiões, aonde
eu moro, não, assim, raramente. Pra parar
no farol, muito raramente, eu vou ter que
esperar duas vezes o farol mudar. Precisa
ser um dia, assim, surreal. Agora, quem
mora na Northern Beaches, que é onde tá
crescendo bastante também, ali você pega
um pouco mais de trânsito, porque só tem
uma avenida principal?... e entra e sai de
Mackay, então na hora de escola, assim,
de manhã
e na hora de saída de escola, fica meio
engarrafado ali. Mas também, se comparar
com o trânsito de Sydney, Brisbane, Gold
Coast ou São Paulo, [riso] eu falando não,
né? Mas como eu já tô aqui faz tempo, pra
mim, dirigir vinte minutos é longe.
-[riso]
-Sei bem. Opções de restaurante boas, como
é que é? Você sente falta de alguma coisa
específica?
Sim, eu e meu marido, a gente gosta muito
de cozinhar, então,
nesse quesito, a gente é bem chato, porque
pra gente querer sair pra pagar, tem que
ser comida boa. Tem alguns, mas tá
aumentando, o que é muito legal, mas
obviamente, não se compara com cidade
grande. E eu sei que as pessoas que vêm
pra cá, de Sydney, Gold Coast, Brisbane,
sentem muito isso, essa variedade, né,
essa opção. Até porque aqui, como eu
falei, agora que tá ficando um pouco mais
diverso do que era antigamente. Então, o
que faz sucesso, né, é aquela comida de
e a batata. Então tem um monte de café,
tem um monte de pub,
mas as comidas diferentes, tem pouco
ainda. Então tem um italiano que é muito
bom, indiano tem mais, que a população de
indianos tá aumentando, e asiático também
tá abrindo uns bem gostosos assim, mas não
tem, por exemplo, um libanês maravilhoso,
sabe? Então, realmente, isso podia
melhorar, com certeza. [riso]
Você falou que os seus filhos não são
brancos-
-Não!
-... e você se incomodou, no primeiro
momento, da região que você morava antes,
por ser muito, é, coisa de preconceito,
uma— o white australia mais fechado. Como
é Mackay, nisso aí, nessa região mais
-central hoje?
-Eu acho que tá
mudando, pelos números de imigrantes que
tão vindo pra cá.
Existe, eu acho que uma resistência,
obviamente, das pessoas mais
conservadoras, preconceituosas, enfim,
teve, né? Aquela micro marcha
anti-imigração, enfim, tem alguns grupos
assim, mas eu acho que a grande maioria é
Existiam alguns grupos aqui que já tinham
um número grande, tem bastante filipino
nas minas, e eu adoro os filipinos, eu
chamo eles de Fili primos, porque eu acho
eles muito parecidos com a gente, né? São
divertidos, gostam de comida, de família e
-tal.
-Você pediu que eles são os brasileiros do,
-da Ásia, porque-
-Exatamente!
eles gostam de festa, é mais bagunçado
também, eles são fáceis de se enturmar,
tem, tem muita similaridade com a gente,
com latino-americano, né?
-É.
-Os latino-americanos desse lado da Ásia.
A população de indianos tá aumentando
bastante por causa do visto, por causa de
médico, porque tem muito aposentado
mudando pra Mackay, por causa do clima,
por causa do preço, e com isso aumenta as
demandas da parte de saúde. Os
paquistaneses, os médicos, né, os skill
migration, né, de Bangladesh, que são
médicos, aumentou aqui. E algumas pessoas
não gostam, né? Tem muito preconceito com
esses povos, infelizmente. Com relação aos
meus filhos sofrerem preconceito, só
aconteceu de novo, que eu presenciei uma
vez, ficaram seguindo meu filho na loja,
trezentas mil pessoas entrando e saindo,
aí de quem que olham a mala? Dele, [riso]
sabe? Mas assim, deu uma melhorada. Não tá
perfeito, ainda
existe, mas eu acho que essa questão de
não estar perfeita, é na Austrália
-inteira.
-Janaína, e brasileiros, portugueses,
timorenses, pessoas que falam português,
aí, existe uma comunidade?
Eu acho que até tem bastante brasileiro,
eu sou administradora do Brasileiros em
Mackay, junto com uma amiga minha. Tem
gente que já foi embora, mas deixa eu dar
uma olhada quantas pessoas tem no grupo
hoje. Trezentos e doze. Tem bastante gente
que veio há bastante tempo atrás, não só
em Mackay, Mackay, Rockhampton e
Townsville, porque tem os frigoríficos,
tem bastante fazenda de gado aqui em
Queensland. Então veio muita gente, há
muitos anos, né, do interior de Minas,
ali, Tocantins, Goiás, Mato Grosso do Sul.
Isso é uma comunidade que é bem antiga,
tá? Então acho que eles já tão na segunda,
até terceira geração, de pessoas aqui na
Austrália. E eles têm um, um grupo bem
forte, até tem a igrejinha deles, que a
sede é em Rockhampton. Sei que eles são
bem unidos. E aí tem um outro grupo que
veio um pouco depois, um pessoal que veio
tipo uns dez anos atrás.
E tem as pessoas que vêm de transição, né?
Portugueses, eu sei que tem português,
-mas eu não conheço nenhum.
-Como é que é a oferta de hospitais, aí?
Você falou que tem uma migração de muitos
médicos, hã, da Índia, de outros países,
porque a população cresce, então
evidentemente aumenta essa demanda. Queria
entender, você tá completamente coberta
aí ou você tem que ir pra alguma outra
-cidade, se precisar de alguma emergência?
-Então, eu acho que aí a gente entra em um
dos pontos negativos, né? Tem dois
hospitais aqui, um público e um
particular. O hospital público é um
hospital escola, ligado à, à universidade.
Eu só precisei usar o hospital uma vez e
assim, não foi essas grandes maravilhas,
sabe? A ambulância foi maravilhosa, chegou
aqui em casa em quinze minutos. É ok,
assim, possível, mas se for uma emergência
muito séria, eles voam pra Brisbane ou
É, essa questão da distância, Mackay é uma
cidade isolada, né? Entre cidades desse
nível. Quais as distâncias aí, pra você ir
pra, pra outra cidade grande?
Townsville e Rockhampton é meio parecido,
tipo quatro horas pra um, pra outro....
que são as cidades grandes, de avião é
mais fácil, é uma hora e vinte pra
-Brisbane.
-E o aeroporto funciona bem?
Super bem! Isso é outra coisa que eu gosto
daqui, o aeroporto é dez minutos da minha
-casa.
-E as passagens são acessíveis, se você
-quiser?
-Ah, pra, pra Brisbane, até que é, viu?
Assim, eu não, não viajo muito de avião,
então assim, eu tô por fora quanto é o
sair de Sydney pra ir pra outros lugares,
né? Mas daqui pra Brisbane, é... eu não
vejo tanta diferença. Eu até pesquisei o
preço pra ir pra Tasmânia, que é ter o
show do Foo Fighters. Era mais barato ir
pra lá, pra Tasmânia, do que pra Sydney.
Então assim, não é, não, não é super caro,
não é que nem Darwin, sabe? Se quiser ir
pra Darwin, pra qualquer lugar, é
muito caro. Passagem pro Brasil, a
diferença é bem pequena, de-- se você sair
de Brisbane ou de Mackay.
Então isso não é um, um-- não vejo como um
ponto ruim, não, e quem sabe vira
internacional aí, com o aumento do
aeroporto que tão fazendo. [riso]
Então vamo lá. Pontos positivos, na
opinião da Janaína, sobre Mackay. Cita uns
Primeiro, as casas, apesar de ter subido o
preço, ainda tem bastante oferta de casa
grande, com preço ok. Oferta de trabalho,
muito trabalho,
e me sinto muito valorizada como
profissional aqui. Terceiro, não ter
e a proximidade de natureza, poder ter
esse contato com a natureza, incrível!
Falando de quatro pontos. Eu posso
continuar falando, porque eu adoro Mackay,
-mas vamos falar quatro.
-E pontos negativos?
-A da saúde, né?
-A questão da saúde, que pode ser, não é
exatamente um problema, mas pode ser, se
for uma coisa mais séria. O que mais?
de Queensland não direciona muito recurso
pra cá, a gente é meio esquecido. Ali
passou ali da Sunshine, vira meio um
limbo, assim, de direcionamento de verbas
isso é triste, porque tem tanto potencial
e a gente é meio esquecido. O outro, eu
acho que tem, ainda tem pouca oferta de
estudo, então pra quem tem filho, a
questão de universidade, dependendo do
curso, né, se tá pensando em ficar aqui
permanente, eventualmente eles vão ter que
ir pra Townsville ou pra Rockhampton, ou
algum outro lugar.
-Vida cultural?
-Pois é, é uma boa. Quem gosta de balada,
provavelmente não vai gostar, porque é
parado, é cidade do interior, a não ser
que você goste de country music. E aí tem
rodeio ali, rodeio ali, rodeio aqui, não é
o meu caso, mas é uma coisa que eu tô
vendo engatinhando aos pouquinhos, assim,
com mais gente, principalmente migração,
né? Pessoal de Victoria, uma loucura,
gosta muito de Mackay, tem muita gente de
Victoria aqui pra cima, acho que fugindo
do frio. Quem não gosta de calor, né, é,
inseto, [riso] que é área
tropical. E um principal, a questão de não
dar pra nadar no mar o tempo inteiro, por
causa da box de jellyfish, hurricane e
crocodilo. Aqui não tem muito crocodilo,
mas isso é meio polêmica, não é uma coisa
que a gente fala muito. Eu nado, meu
mas na época de jellyfish, é, meu marido
e as crianças surfam, eles colocam o
-Porque tem-
-Qual é a época de jellyfish?
Aqui é, tipo, final de outubro até
-O verão inteiro, quando é-- chove, né?
-É, mas aí também, a época que não é verão,
não é inverno, né? Eu queria inclusive
falar disso.
A temperatura em Mackay é uma temperatura
quente. Quem não gosta de temperatura
-tropical, provavelmente sofre aí, né?
-Quem não gosta de calor, realmente sofre,
mas, a-- eu vou te contar que quando a
gente morou em Sydney, que era ali em
Pattinson, na região de Bankstown, eu
passava mais calor lá do que aqui,
porque é concreto, né, é diferente. Aqui,
como eu tô perto do mar e a minha casa é
alta, é uma Queenslander, eu pego a brisa
do mar, sabe? Então, assim, eu não sofro
tanto aqui quanto eu achei que eu fosse
sofrer. Então, agora, na época que tá
chovendo, eu acho que é o mais difícil,
porque é aquela coisa bem
tropical mesmo, de chove, aí vem aquele
bafo, sabe?
Mas, olha, passando março,
eu acho bem tranquilo, passando-- é, num--
e a, e só começa a ficar ruim
no final de novembro, assim. Mas, de novo,
é percepção.
Agora, se você tá nos subúrbios, que são
mais baixinhos, com mais casa, deve ter
uma sensação de calor maior. A gente não
usa muito ar-condicionado aqui, comparado
-com a maioria das pessoas.
-Aí no inverno, você usa blusa?
Eu ainda não cheguei nesse nível de, dos
locais de Mackay, de ter que botar um
faz vinte e um graus, mas o pessoal aqui
coloca roupa [riso] como se tivesse
outono, inverno. A época, assim, outono,
inverno, primavera, aqui é maravilhoso, o
céu é lindo, é, sabe, cê sai, tá sempre
agradável o clima, tal,
mas faz um friozinho, mas não igual
Sydney, que pra mim é um ponto negativo,
-que eu não suporto inverno.
-Ah, e o clima de monções do Sudeste
Asiático influencia, não influencia? Eu
imagino que agora seja temporada de chuvas
e tem também, é, problemas com ciclones,
né? Aí ciclones que chama aqui.
Como são as intempéries da natureza?
...Sim, é, agora é época de ciclone, teve
um domingo passado, ele era só um Tropical
Low, aí chegou aqui como um Cat One, mas
atingiu mais a Whitsundays. Mas mesmo
assim, foi vento, bastante chuva, alagou.
Desde que eu mudei pra cá, a gente não
passou por nenhum sério, como tiveram,
acho que foi em 2012.
Você comentou que a sua casa, é uma casa
estilo Queenslander, que esse é um estilo
de casa muito específico do top end, da,
da parte que é bem tropical da Austrália,
né? Eu sei que você queria uma casa
grande, porque queria montar um pomar,
coisa que você fez. Eu queria que você
falasse um pouco sobre tudo que você
conseguiu colocar em prática no seu
quintal, porque você se mudou pra Mackay.
A gente tentou trazer um pedacinho do
sítio de Nilópolis pra cá, com o upgrade
de mais frutas tropicais. Então, assim, a
minha casa, a casa, a estrutura da casa em
si é pequena, mas a área do jardim, do
quintal, ela é bem grande, né? Então-
-Qual o tamanho?
-Tem mil metros quadrados, o meu terreno.
Pra você ter uma ideia, eu tenho uma gum
tree gigante no jardim, que foi o que me
fez escolher. Foi a árvore e a vizinhança,
que eu vi: "Olha, aquele tem mangueira,
aquele ali tem um jardim", porque a gente
gosta de trocar com os vizinhos, sabe? Tem
essa vibe de interior, que é maravilhosa,
assim, leva ovo aqui, pega não sei o que
ali. E a gente tá quase terminado, assim,
as hortas, as árvores. Eu comprei uma
jaqueira agora pra plantar, não plantei
ainda, porque começou a chover. Nossa, a
gente tem muita coisa, Fernando.
Jabuticaba, acerola, pitanga, graviola,
pitaya, agora tá assim, colhi uma pitaya
gigante. E as hortas com-
E você tá com um galinheiro também, é
isso?
-Também tem seis galinhas.
-Você puxa o assunto com alguém pra falar
-de morar no interior de Queensland.
-Uhum!
Uma das primeiras coisas é: mas e as
cobras? É, qual é a relação com os bichos
selvagens, que todo mundo tem medo? Como é
que é a sua relação com isso aí? Tem
muitos? Dá pra viver, quem tem medo, vai
ter problema?
Tem bastante cobra, sim. Apareceram cobra
aqui só duas vezes, só duas
É, minha gata viu, porque quando a gente
tá no jardim, as gatas tão sempre junto. O
pessoal fala mal de gata, elas são duas
pastoras alemãs, são bem protetoras. E as
galinhas também, que as nossas galinhas
são free ranging, não, não passa nada ali.
E como tá equilibrado, tem um monte de
kookaburra, tem todas essas aves que comem
cobras. Sempre que eu escuto mais coisa
de entrar e ter que chamar Snake
Catcher, é ou nos subúrbios, que tem
muitas casas, que é tudo cercado ou por
canavial ou por área de mangue.
E perto de canavial, eu sei que tem muita
brown, tem muita coastal taipan, que são
as bem perigosas, e nessa área mais
aquática, tem muito as whip snakes, né? E
eu sei que tem gente que tem problema.
Snake Catchers falam é: não crie o
ambiente que vai ser convidativo. E eu
tenho galinha aqui, a galinha atrai
camundongo, por isso que eu tenho as
gatas, então é meio tudo sustentável aqui.
-[riso]
-É, você criou uma casa no estilo
-permacultura, não foi?
-É!
Pra encerrar, então, queria saber o seu
veredito sobre viver em Mackay.
Tô muito feliz, focada na, no que tem de
bom.
O que tem de ruim, a gente tenta melhorar
ou acha alternativas, então se eu: "ai,
nossa, tô com saudade dum, duma balada",
pega um avião, vai pra Brisbane, né, com o
privilégio de poder ir. Se a gente quer
nadar, a gente vai perto de Gladstone, que
é a primeira praia que dá pra nadar, que
é maravilhosa, seis horas de carro daqui,
então não é tão ruim. E é isso. Muito
feliz!
-Janaína, brigadão por essa conversa.
-Imagina!
-E a gente se fala numa próxima.
-Tá ótimo! Obrigada, Fernando.
END OF TRANSCRIPT