A UNESCO decidiu manter a Grande Barreira de Corais fora da lista de patrimônios “em perigo”, mas o recife segue sob séria ameaça. A oceanógrafa Ana Paula da Silva, da Universidade de Sydney, explica por que a Austrália tem uma responsabilidade global na proteção do ecossistema, compara esse papel ao do Brasil com a Amazônia e analisa os riscos do branqueamento dos corais, da dragagem e do aquecimento das águas.
A decisão da UNESCO de manter a Grande Barreira de Corais fora da lista de patrimônios mundiais “em perigo” foi recebida pelo governo australiano como sinal de progresso.
Mas, para a oceanógrafa brasileira Ana Paula da Silva, o recife segue sob pressão.
“Ambientalmente falando, é realmente apenas uma questão de tempo para que a gente veja a barreira de corais entrar nessa lista de risco”, afirma Ana Paula.
A Grande Barreira de Corais é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1981 e se estende por mais de 2,300 quilômetros ao longo da costa de Queensland.
Segundo Ana Paula, o peso econômico e simbólico do recife, especialmente para o turismo, ajuda a explicar a resistência em classificá-lo como patrimônio mundial em risco.
Mas a realidade ambiental é outra: eventos de branqueamento mais frequentes, aquecimento das águas e perda de cobertura de corais.

Mesmo ali, em uma região preservada e distante da costa, os impactos já são visíveis.
“Em 2023 eram cerca de 60% a 70% de cobertura de corais ao redor do recife, e hoje a gente tem cerca de 10% a 20%, por causa do branqueamento e por causa de um ciclone que teve na sequência”, explica.
A diretora da Australian Marine Conservation Society, Lissa Schindler, também alerta que a decisão da UNESCO não deve ser lida como missão cumprida.
“Se esse fosse realmente o melhor resultado, como o governo da Austrália está dizendo, a UNESCO teria dito: ótimo, vocês terminaram. Não precisamos vê-los novamente. Em vez disso, pediu que a Austrália volte em dois anos para informar como está lidando com essas ameaças”, disse Schindler.
A qualidade da água é uma das principais preocupações. Sedimentos como lama, areia e cascalho retirados do fundo do mar, rios ou portos durante obras de dragagem, podem aumentar o estresse sobre os corais e dificultar a recuperação dos recifes.

Para Ana Paula, controlar esses impactos locais é importante, mas não resolve a causa central.
“Se a gente controla a qualidade da água, a gente controla um pouco esse estado de saúde, mas a gente não resolve a raiz do problema, que é o branqueamento decorrente das mudanças climáticas e do aquecimento global”, afirma.
Richard Leck, chefe da área de oceanos da WWF, diz que o risco deve aumentar com águas mais quentes.
“O sistema está mudando para um tipo El Niño, que costuma ser muito mais quente, com pouca chuva e pouca mistura das águas oceânicas, o que significa que o recife ficará sob estresse térmico crescente”, afirmou.

Para Ana Paula, ações como melhorar a qualidade da água, controlar a 'estrela-do-mar coroa-de-espinhos', que é muito nociva e restaurar corais ajudam, mas têm limite.
Durante a entrevista, a comparação entre a responsabilidade da Austrália com a Grande Barreira de Corais e a do Brasil com a Amazônia foi levantada.
Ana Paula concordou que o país precisa “ser um bom exemplo”.
“O problema maior que precisa ser resolvido e que está impactando o mundo inteiro é esse aquecimento desenfreado”, resume a oceanógrafa.
Outro ponto observado pela UNESCO foi a recente reforma da Lei de Proteção Ambiental e Conservação da Biodiversidade da Austrália. Entre as mudanças previstas estão novas restrições ao desmatamento próximo a rios e cursos d’água que deságuam na Grande Barreira de Corais.
Richard Leck, da WWF, afirmou que a implementação será decisiva. Segundo ele, as reformas nas leis ambientais foram apenas a parte mais fácil do processo; o desafio agora é garantir que elas funcionem na prática.
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