Para entender as motivações que levam imigrantes brasileiros a apoiar ou rejeitar o One Nation, a SBS em Português ouviu eleitores com diferentes visões sobre o partido de Pauline Hanson. Para contextualizar as declarações dos entrevistados, conversamos também com Alexandre Fleck, professor da Faculdade de Direito da UNSW e especialista em estudos sociojurídicos e movimentos sociais.
Nas próximas eleições federais australianas, previstas para ocorrer até o primeiro semestre de 2028, os eleitores escolherão os membros da Câmara dos Representantes e do Senado. Diferentemente do Brasil, na Austrália o primeiro-ministro não é eleito diretamente pela população, pois o cargo é ocupado pelo líder do partido ou da coalizão que conquistar a maioria dos assentos na Câmara dos Representantes.
Em meio à campanha eleitoral, um grupo específico de eleitores vem chamando atenção: imigrantes brasileiros que afirmam que irão votar no One Nation, partido liderado por Pauline Hanson.
Conhecida por suas posições críticas em relação à imigração e ao multiculturalismo, Pauline Hanson voltou a defender recentemente uma Austrália "monocultural". Entre as principais propostas do partido, estão reduzir em cerca de 30% o programa de migração permanente, endurecer as regras para concessão de vistos e aumentar de quatro para oito anos o tempo mínimo para solicitar a cidadania australiana. Essas medidas colocam o partido entre os que defendem as políticas de imigração mais restritivas da Austrália.
Você votaria no One Nation, partido de Pauline Hanson, nas próximas eleições federais da Austrália?

Clarice Campomizzi, 39 anos, Melbourne
"Eu não vou votar em nenhum candidato do partido One Nation."
"Eu sei que existe toda uma diversidade de pensamentos, pessoas de espectro políticos diferentes, com opiniões distintas, e isso é importante em qualquer democracia e em qualquer sociedade. Mas algumas posturas e ideias são absolutamente inaceitáveis."
"A Pauline Hanson, ao longo de muitos anos, tem um discurso de ódio, ela dissemina discriminação, negacionismo, posturas preconceituosas e atitudes que não comportam numa sociedade plural e democrática como a Austrália."
O governo do Albanese e do Labor está escorregando e é um momento complexo para a classe trabalhadora: o custo de vida, a inflação e etc. Só que a Pauline Hanson quer colocar isso nas costas dos imigrantes, como se eles fossem culpados pela crise. Mas esse é um problema estrutural muito mais complexo do que simplesmente a imigração.Clarissa Campomizzi

Samyr Cruz, 46 anos, Sunshine Coast
"Um dos motivos pela qual eu vou votar na Pauline Hanson é porque as políticas de imigração dela se alinham diretamente com os interesses dos australianos: de proteção à cultura, dos valores australianos e dos imigrantes que vêm para a Austrália legalmente também".
Acredito que ter regras para avaliar quem vai entrar no país não é ser racista, mas é ter um bom senso. Todo mundo que vive numa share accommodation, por exemplo, não deixaria qualquer pessoa entrar em casa sem avaliar quem está entrando. Então, a mesma coisa se aplica à imigração.Samyr Cruz
"Acho que o problema que pessoas têm com relação à política de imigração da Pauline é motivado muito por uma empatia suicida, que negligencia as próprias necessidades para ajudar outras pessoas estrangeiras que você não sabe qual o background ou valores que essas pessoas têm. E quando a imigração desenfreada acontece, todo mundo perde."
Contextualização: "Mas essas regras (de imigração) já existem. O que o One Nation propõe vai além de simplesmente ter regras, pois não é um critério econômico. É um critério racial, cultural e religioso", diz o professor de direto Alexandre Fleck.
A Austrália tem um sistema complexo de imigração de trabalho bastante rígido, além dos police checks e exames de saúde, baseado em lista de profissões prioritárias atualizadas todo ano a partir de consultas com empresas, sindicatos e governos estaduais. Quem migrou para cá por essa via, sabe muito bem como esse processo é longo, documentado e bastante difícil.Professor Alexandre Fleck, especialista em estudos sociojurídicos e movimentos sociais

Clarice Garcia, 46 anos, Sydney
"A razão para não votar no One Nation são várias. Mas eu gostaria de destacar a política anti-sustentabilidade, que foca no alto investimento de extração mineral e produção de combustíveis fósseis."
"Acredito que as melhores políticas são aquelas que estão visando a transição para energias sustentáveis, o que não é o caso do One Nation. E a segunda razão, mais importante, é a política anti-imigração do partido."
Quando um país é construído a partir da diversidade, a forma de pensar de diferentes culturas acaba gerando uma sociedade com soluções mais eficientes e interessantes para os desafios globais. A Austrália sempre tirou proveito da migração abraçando talentos e acredito que este é o melhor caminho para construirmos um mundo melhor.Clarice Garcia

Carlos, 41 anos, Brisbane
"Neste momento só a Pauline Hanson pode nos salvar. Eu não concordo nem com 50% das propostas dela, mas o meu voto é para tirar o Labour do poder."
"O Labor daqui não tem nada que ajude os trabalhadores. Eu considero o Labor daqui da Austrália um partido de centro-direita e eles estão administrando pessimamente esse país."
"Foram eles que aumentaram as taxas de vistos pra estudantes. Teve visto que mais que dobrou de valor. E tudo administração do Labor."
"A Austrália precisa de mudanças, porque só está piorando a cada ano. Tudo no mercado está mais caro, a inflação tá mais alta, não temos a segurança nas ruas que tínhamos há 10 anos. É só perguntar pra quem vive aqui há mais tempo, e todo mundo vai falar que as coisas pioraram."
"To dando esta entrevista anônima porque tenho business aqui na Austrália e se colocar minha cara aqui, o pessoal vai lá atacar o ganha-pão da minha família."
Daqui a pouco a gente vai virar uma Venezuela também. Eu não sou fascista igual a extrema esquerda pensa. Se a Austrália que ser multicultural, por que agora só tem indiano aqui? Tem que haver um controle na imigração, e é isso que a Pauline Hanson quer.Carlos
Contextualização: "Pelo último Censo, o maior número de imigrantes em Queensland não é de indianos. Segundo os neumeros reais, ele é neozelandês seguido dos ingleses. Juntos, essas duas nacionalidades compõem mais de um terço de todos os imigrantes daquele estado, portanto, bem mais que dos indianos", diz o professor Alexandre.

João Santos, 36 anos, Sydney
"Eu não votaria no One Nation por acreditar que os interesses do partido não são em favor da maioria da população."
"Na minha avaliação, as propostas da Pauline me parecem bem vagas e focadas mais em slogans do que em planos claros de implementação. O que passa uma impressão de discurso populista, só para atrair os eleitores."
"Eu moro aqui há quase nove anos e nesse tempo eu vivenciei alguns acontecimentos que não vejo como apoiar esse partido. Como em 2017, onde nenhum senador do One Nation votou a favor da aprovação final da lei que legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em 2019 teve um escândalo que foi a tentativa do partido em obter apoio financeiro estrangeiro ligado ao lobby de armas. E mais recentemente, em 2023, ela fez campanha contra o Voice to Parliament. Para mim, isso foi uma das maiores contradições em relação ao discurso dela, que diz ser a favor da cultura australiana, mas votou contra reconhecer oficialmente os povos originários, algo que fortaleceria a identidade australiana."
Em resumo, não voto no One Nation porque acredito em uma Austrália multicultural, inclusiva e igualitária. E discordo da posição do partido em relação aos direitos da comunidade LGBTQIA+, imigração e reconhecimento indígena. Muitas das soluções propostas pelo partido são mais divisivas do que práticas.João Santos

Rodrigo Ferreira, 44 anos, Brisbane
"Eu pretendo votar no One Nation porque acredito que, como australianos, devemos ter liberdade de expressão como direito constitucional. Hoje só temos direito à expressão. Se eu pudesse fazer uma analogia, seria simplesmente, você pode falar o que você quiser, desde que você não ofenda ninguém."
Eu acho que é essencial que todas as pessoas tenham direitos iguais. Tenham o direito de falar o que pensam, como elas pensam, na hora que elas quiserem, da forma que elas quiserem, ofendendo alguém, ou não!Rodrigo Ferreira
"A própria COVID mostrou isso, que não temos o poder de falarmos o que quisermos, quando quisermos, da forma que quisermos, que estamos à mercê da lei. Então, eu acredito que liberdade de expressão, como direito constitucional, é essencial para qualquer democracia de verdade crescer e se desenvolver."
"O One Nation está lutando para isso, para trazer liberdade de expressão para o cidadão australiano como direito constitucional."
Contextualização: "A Austrália tem sim liberdade de expressão. O que não existe aqui é um direito constitucional escrito explícito", diz o professor Alexandre Fleck, da Faculdade de Direito de UNSW.
A liberdade de expressão é tida como uma liberdade implícita de comunicação política. E ela foi reconhecida pela High Court em algumas decisões importantes em 1992. Essa liberdade implícita de comunicação restringe o governo na capacidade de limitar a manifestação política das pessoasAlexandre Fleck

No encerramento do podcast, perguntamos ao professor Fleck quais fatores ajudam a explicar por que alguns brasileiros que migraram para a Austrália decidiram apoiar o One Nation, partido liderado por Pauline Hanson.
"Vale trazer aqui o que a pesquisadora indígena australiana Aileen Moreton-Robinson chama de “norma invisível da branquitude na Austrália”, que é o fato de que inclusive alguns imigrantes são vistos como neutros e adaptados".
"São brasileiros que migraram para cá, enfrentaram dificuldades em serem vistos como parte natural do país, como todos nós passamos."
Mas ninguém fala em imigração desenfreada de ingleses ou neozelandeses. Já os imigrantes indianos, chineses ou muçulmanos são os diferentes, os problemáticos e os que viram alvo de ataques.Professor Alexandre Flecks
"Isso não anula novamente as causas econômicas reais dessa insatisfação e inclusive o problema de imobilismo político que se pode acusar, sobretudo do Partido Labor, e a demora em promover soluções de fato para esses problemas reais."
"Mas ela explica por que essa crítica por parte dos eleitores do One Nation se dirige à esses grupos especificamente de imigrantes, e não por exemplo, à política habitacional ou à política tributária, que também pesam muito no bolso e na vida de nós que moramos aqui na Austrália."
Para ouvir a entrevista completa, clique no botão 'play' desta página.
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