Maria Helena Spigiorin, 70 anos, e Laura Maria Napoli Wright, 82 anos, decidiram cruzar os oceanos, do Brasil à Austrália, e solicitar a residência permanente para ficar perto das filhas e netos nesta fase da vida. A mudança significa deixar para trás amigos de longa data, familiares queridos e toda uma rede de apoio e referências construída ao longo dos anos no país de origem. Neste podcast, elas e as filhas, Luciana Wright, 58 anos, e Clarissa Campomizzi, 39 anos, contam os desafios e as alegrias de voltar a viver em família. Falamos também com uma agente de imigração sobre os diferentes vistos para pais, incluindo Parent visas, Aged Parent visas e as modalidades contributory e non-contributory.
Se você é imigrante e decidiu viver permanentemente em um novo país, provavelmente já pensou “Nossa, eu gostaria muito de trazer os meus pais para morar aqui comigo”. E para algumas famílias brasileiras, esse desejo virou uma realidade.
Essa mudança traz também uma inversão natural de papéis. Os filhos, que um dia foram cuidados pelos pais, passam a cuidar cada vez mais deles com o avanço da idade, ajudando tanto na adaptação ao novo país, como também acompanhando de perto sua saúde e bem-estar.
Do Brasil à Austrália: o encontro entre três gerações

A mãe de Clarissa, dona Maria Helena, 70 anos, está vivendo em Melbourne desde 2023 quando aplicaram para o visto Aged Parent.
"A gente conseguiu alugar um apartamento de um quarto para ela, a um quarteirão e meio da minha casa, então a gente está bem pertinho. Ela me ajuda muito com a Flora, minha bebê, e também com o meu cachorrinho, que ela ficou apaixonada e praticamente acabou virando dela", diz Clarissa, que vive em Melbourne com o marido, ambos brasileiros, há mais de uma década.
"Minha mãe se aposentou no Brasil e eu sou filha única. E foi interessante porque ela veio pra cá primeiro com o visto de estudante. E aí ela fez seis meses de curso de inglês, que foi muito importante, pois aprimorou o idioma, então atualmente ela conversa, tem autonomia, vai ao supermercado, vai à farmácia e se vira muito bem".

Voltar a fazer parte da rotina da minha filha é um presente que a vida tá me dando. É uma grande oportunidade que a gente tem de reforçar laços, já numa fase onde nós duas estamos mais amadurecidas. E estar perto da minha neta e acompanhar o crescimento dela também é um grande presente. Ter netos é um amor especial que a gente descobre já numa fase da vida onde a gente está mais relaxado, e não tem tantas preocupações.Maria Helena, mãe de Clarissa e avó da Flora
A mãe de Luciana Wright, dona Laura, de 82 anos, também solicitou o visto Aged Parent em 2024 e vive atualmente na Gold Coast com a filha e os netos.

"Nós demos a entrada no visto e, um ano depois, descobrimos que meu pai tinha um câncer em estágio bem avançado. E ele veio a falecer aqui na Austrália em fevereiro de 2025. O meu pai era um cara muito sociável, ele foi o Papai Noel oficial de natais memoráveis de muitas famílias aqui na Gold Coast", conta Luciana no podcast.
A minha mãe continuou a viver aqui conosco, e desde que ela imigrou, trabalha como costureira para a comunidade brasileira e frequenta aulas de inglês em um community center. A nossa casa está sempre cheia de clientes e de amigos.Luciana Wright, 39 anos, Gold Coast
"Antes de vir morar aqui definitivamente, eu já tinha visitado algumas vezes e resolvi me preparar estudando a língua, pois entender o que as pessoas falavam foi o meu maior desafio. Mas aos poucos vou aprendendo e me habituando. Me surpreendeu a paciência e a disponibilidade das pessoas aqui, e o carinho e a atenção com os idosos em todos os setores", diz dona Laura.
Me sinto cada vez mais feliz, segura e capaz de fazer novas amizades e ampliar meus contatos. As atividades dos centros comunitários são uma excelente oportunidade para isso, então eu participo de algumas delas. Agora, me sinto incluída nas rotinas da família. E ver de perto meus netos se tornando homens de bem, capazes de gerir suas próprias vidas, e minha filha feliz com isso, não tem preço. Me dá força e muita vontade de viver mais e mais.Dona Laura, 82 anos, mãe de Luciana
Convivência em família: como é morar novamente com a mãe?
Segundo Luciana, "A oportunidade de ter os pais por perto, principalmente idosos, me fez ver a vida de outra perspectiva, porque a gente vai chegando a uma fase em que nós, que antes recebíamos todos os cuidados, vamos trocando de papel. E em muitas situações, começamos a assumir o papel de cuidadores."

"Logicamente também é complexo para mim ter que reaprender a viver com a minha mãe depois de mais de 20 anos vivendo longe dos meus pais. A gente precisa estar preparado para conviver com diferenças e divergências. Tem manias de ambos os lados que precisam ser ajustadas. Mas tudo isso faz parte de um aprendizado e acredito que isso acaba resultando em crescimento pessoal e emocional. Na verdade, os momentos felizes sempre superam os momentos de estresse e frustração", diz conta Luciana no podcast.
Ainda segundo ela, a adaptação deve vir seguida de atividades sociais e novas relações pessoais:

Os nossos pais precisam de uma vida social para substituir a vida que eles deixaram para trás no Brasil. Então, é muito importante construir com eles uma base sólida de amigos aqui, com relações sociais onde eles possam conviver com outras pessoas sem depender exclusivamente das relações emocionais dentro da nossa famíliaLuciana
Se adaptando a um novo país na melhor idade

"A decisão de mudar de país nessa fase da vida envolveu conflitos, porque para estar perto da minha filha e viver essa nova experiência, eu tive que deixar para trás uma parte da família, amigos e tudo que eu conhecia até então. Eu continuo aprendendo um pouco mais a cada dia e eu acho que a minha adaptação fica cada dia melhor. Tem sido um processo contínuo e eu tenho certeza que olhando para trás eu vejo que foi uma decisão acertada", conta Maria Helena.
O que mais impactou a minha vida depois da mudança, foi como aqui eu consigo usar o transporte público, fazer passeios ou sair a pé para fazer compras sem me sentir apreensiva ou preocupada com algum tipo de violência. É uma liberdade que eu sinto de ir e vir em segurança.Maria Helena
O caminho para a residência permanente
O podcast também traz a perspectiva da agente de imigração Luciana Rodrigues.
"Para quem está pensando em trazer os seus pais para morar de forma permanente aqui na Austrália, a primeira coisa a se fazer é consultar um agente de imigração registrado, porque só o agente pode avaliar cada situação com base na legislação australiana. Infelizmente, é um processo muito demorado, e os vistos podem levar de 15 a mais de 30 anos para serem processados."

Existem vistos para pais que já atingiram a idade de aposentadoria, que são os Aged Parent visas, e para os que ainda não atingiram essa idade, que são os Parent visas, ou non-aged Parent visas. A idade de aposentadoria é de 67 anos aqui. Ambos têm opções contributory e non-contributory, e cada um deles tem os seus próprios requerimentos para se fazer uma aplicação válida.Luciana Rodrigues, agente de imigração
Mas vale a pena? Veja o que dizem as mães e filhas entrevistadas no podcast
"A minha mãe tem um visto que ainda não é de residente permanente e ele funciona como se fosse uma ponte pela qual ela fica caminhando até que o visto de residente permanente seja concedido. Essa fila de espera, esse período, coloca a pessoa em um status imigratório de bridging visa", diz Luciana.

Eu acho que o tempo de espera não deve ser percebido como um impedimento ou fator negativo. A gente aqui em casa sempre foi bem realista e nós temos em mente que os aplicantes vão precisar viver mais de 100 anos para receberem o visto. E está tudo bem. O que a gente queria mesmo é que a Austrália proporcionasse para nossa família o direito de viver reunidaLuciana Wright
"Conversem com os seus pais, ponderem, sejam bem abertos e pensem que há coisas que, para nós, que somos mais jovens, são relativamente fáceis, enquanto, para pessoas mais velhas, essas atividades podem ser muito mais difíceis. Então, trazer os pais para a Austrália é maravilhoso, mas também exige de nós, filhos, paciência, dedicação e investimento do nosso tempo para ajudá-los nessa adaptação", opina Clarissa.
O medo faz parte das mudanças, mas isso pode ser uma coisa temporária e você pode decidir mais tarde se quer ficar na Austrália de forma definitiva, ou se vai viver essa experiência apenas por um tempo e depois retornar ao Brasil. Deixe sempre em aberto essa possibilidade. Isso tende a nos acalmar no momento de tomar uma decisão tão importante quanto essa.Maria Helena
"Acho que tomei a decisão certa e não me sinto recomeçando em momento nenhum, apenas continuando a viver em um lugar agradável, organizado e seguro. E estando com a minha filha e netos é quase um paraíso. Que venham sem medo de se arrepender, venham ser felizes aqui", encerra dona Laura.
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