Raquel tem apenas 19 anos, viveu a sua vida toda na Ericeira, em Portugal, e era, até há uns meses atrás, uma das modelos mais bonitas e promissoras da moda portuguesa da sua geração.
Contudo, muito corajosa e humilde ao mesmo tempo, resolveu largar o glamour do universo da moda e entregar-se à sua descoberta pessoal.

Para isso, preparou uma mochila "com muito pouca coisa", tratou do seu visto de estudante para quatro meses de estadia na Austrália (veio para estudar inglês), reuniu todas as suas poupanças de uma carreira de cinco anos como modelo, apanhou um avião sozinha pela primeira vez em toda a sua vida e... aterrou em Sydney há uma semana e meia atrás.
A sua decisão de abandonar a Moda e a sua carreira de modelo quando todas as portas pareciam estar a abrir-se para ela, inclusivamente quando estava prestes a arrancar com a internacionalização da sua imagem, deixou muita gente à sua volta surpreendida.

Mas com o apoio dos seus pais e irmã, Raquel encheu-se de coragem e largou tudo, simplesmente porque descobriu que a moda não era, afinal, para ela.
Percebi que não queria a moda para mim. Mas foi muito difícil tomar a decisão de abandonar a minha carreira. Tive medo que fosse só uma fase má. Mas o meu coração dizia que não me estava a fazer bem não estar bem.Confessa a jovem modelo, ainda com alguma nostalgia no olhar.
Diz a jovem modelo portuguesa que aprendeu muito e tem muito o que agradecer à agência que a descobriu numa feira de ofertas de universidades - Futurália - em Lisboa, quando tinha apenas 13 anos.
Como tantas outras histórias de modelos em todo o mundo, a beleza e 'star quality' da Raquel foi notada quando menos esperava.
A jovem estava naquela feira da indústria do ensino superior, naquele dia em particular, só para acompanhar a sua mãe e a sua irmã na escolha da universidade ideal para a mesma.
Estava com a minha mãe e a minha irmã na feira das universidades, Futurália, quando, de repente, comecei a sentir-me muito observada por duas senhoras. Quinze minutos depois, elas dirigiram-se à minha mãe e, do nada, disseram-lhe me achavam muito bonita.Conta, Raquel Ramos acerca do dia em que passou de menina de 13 anos a modelo profissional
"A minha mãe, que até é muito céptica em relação à TV e moda e assim, acabou por aceitar dar o nosso contacto às duas senhoras da agência, e poucos dias depois comecei a minha carreira de modelo", continua Raquel.
Dos tempos de modelo, sobram excelentes recordações:
"Principalmente dos bootcamps anuais, onde aprendi a saber comportar-me em casting, a cuidar de mim, a alimentar-me mais saudavelmente, a maquilhar-me, a encontrar o meu estilo, no fundo, a ganhar gosto visual.”

Mas o que a marcou mais, e para o resto da vida, e que diz agradecer eternamente às pessoas com quem trabalhou, ao longo dos anos, foi o primeiro dia em que viajou sozinha da Ericeira para Lisboa.
É uma viagem curta, mas que aos 13 anos de idade, parece longa e pode ser muito confusa:
A primeira vez que fui da Ericeira a Lisboa, sozinha, para ir à agência, marcou-me imenso! É das melhores recordações que tenho da minha experiência na moda. Aprendi a ser independente e ganhei a confiança dos meus pais.Diz a modelo a recordar um dos dias mais especiais da sua vida.
A moda também transformou a sua opinião de si mesma e da sua aparência.
De certa forma, estes cinco anos empoderaram Raquel de uma maneira que só agora consegue consciencializar.
Por exemplo, ser fotografada por profissionais excepcionais, maquilhada por pessoas que sabem disfarçar pormenores menos bons e realçar detalhes que nem a pessoa reconhece a não ser depois do resultado final, ou até aprender sobre alimentos e rotinas que além de saudáveis ajudam a manter a boa forma... tudo boas experiências que a Raquel reconhece:
Sempre fui uma miúda tímida e complexada e ver-me pela primeira vez numa fotografia de excelente qualidade, com maquilhagem, com aquelas roupas, aquele glamour todo... foi transformador para mimReconhece a jovem modelo
Mas, feitas as contas, não é ser modelo profissional que faz a Raquel sentir-se plena e feliz
Mas depois, há todo um outro lado da indústria da moda que a Raquel foi observando em si e em muitas outras colegas da sua idade, que começou a oprimi-la, e a fazê-la sentir que, afinal,
"a moda não é para todas, mesmo que se tenha uma cara e um corpo que são, à partida, potencialmente ideiais", esclarece ela.
A partir de certa altura, senti que não estava feliz. Que nunca iria ser feliz com as rotinas de alimentação rígidas, por exemplo. Mas não só. Sentia-me presa e oprimida naquilo que eu era cá dentro.Confessa, Raquel Ramos
Raquel queria mais do que só o glamour, as roupas bonitas, a disciplina exarcebada com a alimentação, a rotina dos castings... no fundo, os bastidores da moda.
Diz ela que para se ser uma modelo e seguir uma carreira internacional, "é preciso estar-se preparada para o salto, é preciso ser-se dura e resistente a muita coisa".

E quando a Raquel chegou à conclusão de que eram mais os dias em que andava infeliz do que os dias em que a moda era suficiente para si, achou que "não era resistente o suficiente para dar o salto".
Sobretudo, achou que estava na hora de seguir o seu coração e viver a vida, gostando de si mesma pelo que é e não pelo que os outros profissionais à sua volta exigiam que ela fosse:
Não aguentei a pressão de ter que ser perfeita e estar sempre bem. Preciso de me descobrir e sentir-me mais livre para ser eu mesma.Confessou Raquel à SBS em Português, nesta que é a sua primeira entrevista fora de Portugal
De mochila às costas, aí veio ela para viver a maior das aventuras
Tomada a decisão de seguir um novo rumo na sua vida, Raquel não poderia estar mais segura e tranquila.
Vir para Sydney era o que estava a precisar neste momento.
E, pelo visto, está a ser uma aventura incrível:
Estou muito feliz por estar em Sydney. A cidade é enorme e tem pessoas de todo o mundo. E estou fascinada com a forma como todos os assuntos são tão rápidos de tratar aqui, em comparação com PortugalDiz Raquel, espantada com a multiculturalidade e organização e gestão logística australianas.
Por incrível que possa parecer, depois de cinco anos a participar em pelo menos 10 eventos da Moda Lisboa e feito mais de três dezenas de sessões fotográficas para diversas marcas de relevo nacionais e internacionais, a viagem para a Austrália está a deixar a Raquel muito mais fora da sua zona de conforto.
Mas, ao mesmo tempo, está a ser uma ´viagem interior´ tal, que a ex-modelo, agora estudante de inglês, está mais feliz do que nunca.
Esta é a minha primeira viagem sozinha e não tive medos, para além do receio de perder voos ou assim. Estou a adorar, embora ainda só tenha chegado há uma semana e meia. Nunca vi tanta gente de tanta nacionalidade diferente. Tem sido fantástico!Confessa, Raquel.
Claro que, como em todas as primeiras viagens, também Raquel ultrapassou alguns stresses que, se hoje a fazem rir, na hora deixaram-na em pânico:
"Estive uma semana na Alemanha com o meu namorado, antes de voar para Dheli e depois para Sydney, e tive tempo e oportunidade de assimilar o que me estava a acontecer e mentalizar-me em relação à viagem que vinha pela frente".

Mas, parece que nem tudo foram ´rosas´.
Três dias antes do voo para Sydney, o meu cartão de crédito ficou bloqueado numa caixa Multibanco, na Alemanha. Fiquei em pânico mas depois acalmei e segui viagem com os meus únicos 35 euros na carteira, de Frankfurt para Sydney. Acabou por correr tudo bem.Conta Raquel, agora já a rir da situação.
Já em Down Under, e como a moda ainda está muito presente na sua mente, Raquel continua naturalmente atenta às produções fotográficas das campanhas publicitárias que vai vendo pelas ruas e lojas de Sydney.
Está surpreendida com a abertura e aceitação da moda australiana:
As modelos aqui têm todas as formas e feitios, são de todas as culturas. É muito curioso. Em Portugal é muito diferente, os corpos têm de ser mais magros e corresponder a um certo padrão de belezaExplica a ex-modelo
Por outro lado, agora que pensa no assunto e que pode comparar a realidade portuguesa à australiana, Raquel chega afinal à conclusão de que a moda é aspiracional para algumas jovens, mas também pode distorcer a visão do corpo para algumas:
“O trabalho das modelos e as suas fotografias podem ajudar as outras raparigas da minha idade a quererem melhorar o seu look. E isso é bom"
Por outro lado, também vejo que o meu trabalho pode ser prejudicial pois algumas jovens olham para as fotos e acham que aquilo é que é o corpo ideal e que as suas curvas não. E isso é errado.Conclui a jovem ex-modelo.
Por todas as razões e mais algumas, Raquel está entusiasmada com o seu curso de inglês e com tudo o que irá descobrir sobre o mundo e sobre si mesma, nos quatro meses que se seguem.
Em relação ao seu futuro, diz que prefere "deixar fluir e entregar".
Raquel diz que está na Austrália para aprender, viver, experimentar e encontrar a profissão que realmente a faz feliz e que irá perseguir quando regressar à Ericeira, por volta da altura do Verão em Portugal.
Ouça a entrevista completa de Raquel Ramos à SBS em Português, e saiba mais acerca das suas opiniões, experiências e sonhos pelas suas próprias palavras.
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