[música de forró] Nem todo brasileiro
sabe dançar forró, mas os que dançam
costumam gostar demais e fazer do ritmo um
Quem mora em Sydney e se encaixa na
categoria, não precisa passar vontade. O
Sydney Forró Dance é um grupo de
voluntários que se reúne semanalmente para
ensinar novatos dançar e confraternizar
em torno do arrasta-pé.
O grupo comunitário está organizando o
Festival de Forró entre os dias 14 e 16 de
maio, no Brazilian Cultural Center, em
Marrickville, que terá convidados vindos
do exterior, shows, workshops e, claro,
dança pra todos os níveis de praticantes.
Entre as atrações confirmadas estão os
artistas Izzy Góes, radicada no Porto, em
Portugal, e Giovanna Silveira e Ícaro
Abreu, que vêm do Brasil. Também terá a
presença de músicos já famosos pelo ritmo
na comunidade brasileira da Austrália,
como o sanfoneiro Ricardo Bona, de
Queensland.
Conversamos com Júlia Bier, voluntária do
Sydney Forró Club e uma das organizadoras
Júlia consegue viver intensamente o estilo
de vida do forró, mesmo vivendo em Sydney
Nessa entrevista, a bióloga de Campinas
conta sobre o evento, relata que o ritmo
atrai gente de vários cantos do mundo e
fala sobre como a comunidade acaba por
cumprir um papel de espaço de celebração
cultural brasileira e de acolhimento.
Júlia, muito obrigado por essa conversa.
Prazer ter você aqui na SBS em Português
pra conversar sobre forró. E mais do que
sobre forró,
comunidade, sobre o espírito de comunidade
em volta do forró.
seu nome completo, da onde você é no
Brasil.
Quanto tempo de Austrália?
Obrigada, Fernando, pela oportunidade de
trazer aqui um pouco desse projeto que eu
Sou Júlia Bier Nogueira, eu sou de
Campinas, São Paulo. Eu tô na Austrália
hááá, nossa, quase 15 anos. Vai fazer 15
anos esse ano.
-Você é bióloga?
-Eu sou bióloga, exatamente. E trabalho na
-área farmacêutica.
-Júlia,
você tá aqui há 15 anos e você é uma
forrozeira, a ponto de ser uma
das voluntárias do Sydney Forró Dance.
O que é o Sydney Forró Dance?
Então, o Sydney Forró Dance é uma
organização, é, sem fins lucrativos, né? A
é, opera 100% de forma voluntária. Quem
fundou o projeto foi o Augusto Dias, em
Eu comecei a participar bem ativamente da
comunidade em 2018
e ela nasceu, cresceu e se desenvolveu no
intuito de
promover o forró como dança, como música,
estabelecer uma comunidade que tivesse
interesse de aprender a dançar,
trocar e propagar essa troca cultural
entre o Brasil e a Austrália.
O grupo então, ele se reúne semanalmente,
É, atualmente a gente tem aulas semanais,
que ocorrem às terças-feiras no Redfern
Community Centre, das seis da tarde até às
19h20, e daí das 19h20 às 20h45, a gente
tem um, um social dance, que seria um, um
baile pra prática
do forró e que tá aberto pra qualquer
pessoa que tiver interesse de dançar
durante a semana. E as aulas acontecem em
três níveis e a gente sempre recebe alunos
que podem não ter experiência alguma,
podem nunca ter escutado, ouvido falar
sobre o forró. Você não precisa de um
parceiro pra aparecer lá. As aulas, as
primeiras aulas são sempre gratuitas pra
você experimentar, mas o intuito mesmo é
acolhimento e integração na comunidade. As
aulas são todas dadas por voluntários,
então não temos profissionais de forró,
mas são todas pessoas, é, brasileiros e
não brasileiros, que têm o intuito de
divulgar e fomentar a cultura do forró
aqui em Sydney de uma forma bem
-colaborativa e voluntária.
-E vocês agora tão organizando um festival
entre 14 e 16 de maio. Conta pra gente
exatamente o que vai ser esse festival.
Exatamente. A gente tem feito um festival
de forró nos últimos anos e esse ano não
vai ser diferente. Então vai acontecer de
14 a 16 de maio no Brazilian Cultural
Centre, que foi um local que, na verdade,
eu fiquei muito feliz que fosse lá.
E esse festival então vai ter vários
workshops. Nós estamos trazendo três
a Izzy Góes, que é uma professora super
estabelecida no meio do forró, que
dá aula em Porto, em Portugal,
mas é brasileira, o Ícaro Abreu e a
Giovanna Silveira, que dão aula no Brasil.
Então os três professores estão vindo pra
dar aulas pra gente aqui em Sydney. Então
são workshops que permitem pessoas com
diferentes níveis de forró. Então você
pode ser tanto experiente quanto não
experiente, você consegue aproveitar.
E além disso, nos três dias vamos ter
festas.
Na quinta teremos um DJ que vai vir de
Brisbane,
é, e vai tocar pra gente na abertura do
festival. Na sexta e no sábado a gente vai
ter tanto DJ, mas também bandas formadas
por músicos extremamente de ponta que a
gente tá trazendo de diversos locais da
Austrália. Por exemplo, o Ricardo Bona,
que é um sanfoneiro renomado de Brisbane.
Tem a Emily, que tá vindo de Perth, que é
uma violinista. Enfim, tem vários músicos
que a gente tá trazendo pra conseguir
fazer com que o festival seja realmente
muito especial.
Quantos anos faz então que vocês já fazem
esse festival?
A gente teve uma quebra durante a
pandemia, naturalmente, né, mas o primeiro
festival que aconteceu em Sydney foi em
2018.
Uma coisa que eu acho muito interessante
do forró é que ele não é o ritmo mais
mas assim como acontece com o samba ou
mesmo com a bossa nova, que não é uma
coisa tão dançante, mas é um ritmo muito
famoso do Brasil, quando a pessoa gosta,
ela gosta muito. É essa paixão que
desperta em muitas pessoas.
Quantas pessoas não brasileiras fazem
parte? E eu queria entender um pouco esse
contexto dessa mistura cultural que a aula
de forró propicia.
É interessante esse ponto que você tocou,
porque a gente brinca que quando a pessoa
é mordida pelo forró, não tem muita volta,
assim, vira um vício mesmo, um vício
muito positivo, né? Porque não é só a
experiência da música ou da dança, mas eu
acho que vem muito com o senso de
comunidade e pertencimento. Então, grande
parte dos nossos alunos ou membros da
nossa comunidade são estrangeiros de
diversos países, da Indonésia, do Japão,
da Alemanha, do Irã, enfim, tem
pessoas realmente de todas as partes do
mundo.
É, outros latinos, né, colombianos,
argentinos, que
encontram na nossa comunidade um lugar de
acolhimento e a dança
muitas vezes acaba também, claro, sendo um
pano de fundo, porque eu acho que a co--
o senso de comunidade sustenta muito. E eu
posso dizer que eu acho que metade das
pessoas que frequentam atualmente a nossa
comunidade não são brasileiros. É muito
impressionante ver. E como essas pessoas
acolhem o, a comunidade, fazem acontecer.
Muitos dos nossos voluntários não são
brasileiros também, temos australianos,
tem um menino de Israel, enfim, pessoas de
outras nacionalidades que ao longo do
nosso histórico conseguiram fazer com que
a comunidade se,
se sustentasse e acontecesse.
gente, estrangeiros, australianos,
com o nível de sensualidade do forró. Pra
gente que tá acostumado no Brasil, o
ele é sensual, mas ele não causa esse
estranhamento que algumas pessoas aqui têm
com, com diferentes backgrounds de, de
não só de cultura, mas também de religião,
etc. Você já vivenciou algum, algum
choque desse tipo? Eu queria entender um
pouco da reação das pessoas disso, porque
é uma-- o que eu já testemunhei de pessoas
ficarem chocadas como achar uma coisa
muito, quase erótica.
É verdade. Eu acho que o brasileiro tá
acostumado com essa proximidade
corporal, né? Acho que a nossa bolha é um
pouco mais limitada em, em relação a
toque, em relação à proximidade. Eu acho
que sim, que tem pessoas ali que não se
sentem tão confortáveis do espaço delas
serem tão, não acho que invadida é a
palavra, mas compartilhado tão
proximamente.
Mas ao mesmo tempo eu já vi muita gente,
é, ao longo do tempo ficando confortável
com isso, sabe? E eu vejo que isso talvez
até vire uma certa normalidade.
Lembrei de uma, de um testemunho de uma
aluna japonesa
que ela fala justamente sobre isso, que o
forró
pra ela foi muito importante pra ela
entender até a relação com o corpo dela,
em como, principalmente com a cultura
japonesa, né, ela preza muito pela
distância, né, essa coisa um pouco mais
definida, eu tô aqui, você tá aí. E ela
falou que o forró permitiu que ela
entrasse em, entrasse em contato até com,
com como ela se sente de uma forma ou de
outra, e de entender que a troca é
possível também de uma forma respeitosa,
talvez de uma forma não tradicional pra
ela, né. Mas isso é uma coisa também que a
gente tem que tomar muito cuidado pra não
confundir, né, o que que é o espaço
pessoal
e o que não é, né. Então é uma coisa que é
muito aberto dan-- dentro da comunidade
sobre consentimento. A gente tem zero
tolerância em relação a qualquer invasão
de, de espaço não, não consentido. E a
gente fala abertamente que
se qualquer pessoa se sente invadida,
que isso é, é zero tolerância, que tamos
todos sempre muito atentos a qualquer
situação desconfortável e que a gente
sempre vai prezar pelo conforto mesmo das
pessoas, dos membros da comunidade.
É, porque o forró ele é um, antes de
qualquer coisa, ele é uma dança e vocês
Essa confusão tá, na verdade, na cabeça
das pessoas.
Exatamente. E além disso,
a comunidade também preza muito pela,
pelo teu acolhimento a diversos grupos,
né. Então a gente tem zero tolerância com
qualquer preconceito, ou seja,
é, homossexualidade, religião, background.
A gente sempre faz questão de deixar
claro que todo mundo é bem-vindo e que
nenhum tipo de intolerância vai ser
-tolerada.
-Tem casos de não brasileiros que
resolveram, a partir de conhecer o clube
do forró, foram pro Brasil dançar mais,
-conhecer mais, como funciona?
-Com certeza, é engraçado, né? Tem não
brasileiros que conhecem muito mais o
Brasil. Eu conheci uma, uma alemã que
através do, do Sydney Forró Dance vai
literalmente todos os anos ao Brasil no
Festival de Forró de Itaúnas, que acontece
no meio do ano, no fim do ano. Ela bate
e vários desses estrangeiros acabam
aprendendo português, tocam a sanfona,
tocam a zabumba, tocam o triângulo. Então
assim, existe realmente uma devoção, uma
emo-- imersão à cultura brasileira, à
cultura do forró. E eu acho que isso tá
ficando cada vez mais vibrante. E na
Europa, na verdadeDe uma forma bem
especial, o forró se tornou uma das danças
partner dance mais dançadas e mais em
alta em vários países, como na Alemanha,
na França, Portugal mesmo, você vê o
crescimento do forró ali.
Isso é extremamente gratificante, né, e
que às vezes não é tão
celebrado nem tão reconhecido no próprio
Brasil, né. Então acho que é um movimento
também importante que talvez venha um
pouco de fora pra valorizar o, a nossa
Júlia, você já era forrozeira no Brasil ou
foi uma descoberta na sua vida
-australiana?
-Eu sempre gostei de forró, mas eu era bem
ruim. [riso] Então era uma coisa que eu
tentava, eu tinha afinidade,
gostava, mas acho que eu tinha muitas
amarras, dificuldade de me entregar ali.
Então, na verdade, foi aqui na Austrália
que eu me transformei e me formei como
com, com convicção, assim. Então o Sydney
Forró Dance foi muito importante nes-nesse
Eu comecei fazendo as aulas, fiz por algum
tempo, depois de uns seis meses que
aquele bicho me picou. A terça-feira
sempre foi o meu dia mais, assim, que eu
ficava mais ansiosa, porque era o melhor
dia da semana. Daí eu comecei a
voluntariar, inicialmente ajudando nas
aulas e depois comecei a, a tocar
várias das aulas, tomei a frente da
comunidade em alguns momentos. Atualmente,
que lidera o grupo ali ativamente nas
terças-feiras e tô liderando também a
construção desse festival de forró que a
gente comentou mais cedo.
Perfeito, Júlia. Então vamo passar de novo
o serviço. O festival de forró vai ser no
Centro Cultural Brasileiro, Marrickville,
-entre os dias 14 e 16 de maio.
-Quinta, sexta e sábado.
Perfeito. E quais são então os eventos que
vão intercalar, além da-da-da música de
-forró e da dança, tem outros eventos, né?
-Vão ter workshops. Na quinta-feira, a
gente vai abrir o festival com um workshop
com os três professores que tão aqui
e vai ser seguido pela uma festa de
abertura com o DJ Páprica. Aí na
sexta-feira nós não temos workshops, vai
ser só uma festa mesmo à noite pra
socialização. Tá aberto ao público, os
ingressos tão à venda também.
No sábado vai ser três workshops durante o
dia, então nossas atividades vão começar
às 10h da manhã e terminar às 16h30 da
tarde com três workshops ao longo do dia.
E vai terminar o festival com o fe-- a
festa de fechamento das 8h da noite até a
1h da manhã, na própria sexta-feira, com
banda e DJ.
E lembrando que qualquer pessoa de
qualquer nível de forró tá muito
bem-vinda. A gente preparou com muito
carinho o programa aqui pra que possa
acolher qualquer nível de habilidade
forrozeira
e se tudo der certo, que isso seja uma
ótima porta de entrada pra nossa
comunidade, pra que as pessoas continuem a
desfrutar das atividades que a gente
Perfeito. Quem sabe um dia eu me arrisco
também. Eu tenho medo de encravar umas
unhas lá, porque eu sou o pior dançarino
que eu já ouvi falar.
-muito obrigado por essa conversa.
-Tá certo. Obrigada a você, Fernando.
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