Francisco Sena Santos é um dos grandes nomes do jornalismo em Portugal. Francisco é, além disso, correspendente da SBS em Português desde 1995. Este mês de junho, a SBS completa 50 anos. Em jeito de celebração deste grande marco, convidamos Francisco a refletir sobre o trabalho realizado nos últimos 30 anos. Nesta conversa, o jornalista revisita momentos marcantes da sua colaboração com a Rádio SBS e discorre sobre os pilares e missão do jornalismo nos dias de hoje.
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Francisco Sena Santos é um incontornável nome do jornalismo em Portugal. É lisboeta e formou-se em medicina, mas viria a render-se à sua grande paixão: o jornalismo. Em especial, a rádio.
Com uma longa carreira marcada pelo rigor, compromisso e um profundo sentido de serviço público, Francisco é conhecido, não só por contar histórias com paixão, mas também pela sua voz, empática e emotiva, que acolhe o ouvinte seja qual for o tema.
Veterano respeitado — e, por muitos, idolatrado —, Francisco é também professor universitário de jornalismo radiofónico, função que desempenha com entusiasmo, já que valoriza, e muito, o contacto com as gerações mais jovens.
Não é de agora o estatuto de Francisco Sena Santos como incontornável nome do jornalismo em Portugal, por isso, há 30 anos, quando a SBS em Português procurava um correspondente em Lisboa, não houve dúvidas. Na altura, Francisco aceitou a proposta, e assim, a partir de 1995, passou a enviar duas crónicas por semana, para serem transmitidas na SBS em Português. Hoje, 30 anos depois, os ouvintes SBS em Português, continuam a poder ouvi-lo religiosamente.
Este mês de junho de 2025, a SBS completa 50 anos. Aproveitamos as celebrações deste grande marco para convidar Francisco Sena Santos para uma conversa sobre o trabalho realizado com a SBS em Português ao longo das úlimas três décadas.
Apresentamos, em seguida, excertos desta conversa. Para a ouvir na íntegra, clique no botão 'play' desta página, ou consulte o perfil da SBS Portuguese, na sua plataforma de podcasts favorita.

É uma sedução, é um encantamento trabalhar desde o primeiro dia com a equipa, porque na SBS sente-se esta unidade, esta coesão.Francisco Sena Santos, Jornalista e Correspondente da SBS em Português em Lisboa
"1999 é o ano de Timor, é o ano do referendo, é o ano da brutal violência a seguir ao referendo. Eu cheguei a Timor pela primeira vez no final de setembro de 1999. Já estavam lá as forças multinacionais. Percebi a importância da rádio, a importância da SBS em Português para Timor-Leste."
"Há meses, estive a entregar prémios de uma organização portuguesa (...) e veio ter comigo uma mulher, talvez não tenha ainda 30 anos, muito simpática. Tinha estado a estudar em Melbourne e ouvia os boletins que eu enviava, a partir de Lisboa, para a SBS Portuguese. Para ela era tocante haver uma voz em português a contar para quem está por aí, na Austrália. Isso é marcante."
"Falo todos os dias na Rádio Pública Portuguesa e chego a ter mais feedback de ouvintes da SBS aqui, pessoas que mandam uma correspondência a partir da Austrália."
"Eu dou aulas na Universidade de Coimbra e um dia, estava no café, em Coimbra, e veio ter comigo uma pessoa (...) que disse: Sabe que eu ouço as suas crónicas? E teve um raciocínio interessante. [Para ela] era interessante ouvir a forma como o que se passa em Portugal é contado — porque tem detalhes que não tem o que é contado em Portugal, porque faz parte da atualidade diária — ou seja, tem o enquadramento mais ajustado. Ela dizia que gostava de ouvir as crónicas de Portugal, gostava de saber como Portugal era contado, neste caso, na Austrália."
Nas pessoas que têm ligação à Austrália, sinto que aparece sempre a SBS. São muitas pessoas, ao longo deste tempo, mais nestes últimos anos.Francisco Sena Santos, Jornalista e Correspondente da SBS em Português, em Lisboa
"A princípio com ligações a Timor, agora não. Há muitos portugueses que estão na Austrália. É interessante como estamos a falar, Joana, separados por uns 20 mil quilómetros e, no entanto, há essa ligação. Há um Portugal-Austrália que funciona."
"[Quando não havia internet, esta colaboração jornalística concretizava-se através de] dois formatos. Um era o de telefonemas feitos pela Beatriz, com sábia gestão que fazia do tempo, e envio de crónicas telefonadas, pré-gravadas aqui em Lisboa. Era um tempo em que não havia ainda redes sociais.”
''[Quando se deu] o anúncio de que Portugal-Indonésia tinham acordado, sob patrocínio das Nações Unidas, o referendo, em agosto, em Timor, lembro-me que houve um especial na Rádio Portuguesa, e liguei também à Beatriz. É inesquecível o entusiasmo dela. Com as perguntas certeiras, como sempre, acutilantes. A querer saber todos os pormenores".

Este é um outro lado que eu encontro sempre nas pessoas da SBS: a cultura da exigência e do rigor jornalístico. A segurança de tudo.Francisco Sena Santos, Jornalista e Correspondente da SBS em Português, em Lisboa
"A múltipla confirmação de todos os factos, as fontes. Quem é que disse e como. É a grande fiabilidade do jornalismo da equipa."
"Hoje há uma tão grande distorção da realidade, por isso, é essencial o trabalho de empresas, públicas ou privadas, mas com especial responsabilidade para o serviço público. E a SBS é um exemplo disso. Sinto que, em Portugal, a RTP também. São referências de confiança."
"A voz que conta com rigor, parece-me que é essencial. Estou a falar do jornalismo que se faz na web, na radio, na televisão, nos jornais. Eu confio que os jornais continuarão sempre, mesmo que venham a ser, futuramente, um produto de luxo, nós precisamos de um jornalismo sério. O jornalista é a pessoa que é remunerada, que é paga, para contar com rigor, para servir as pessoas."
"É preciso que os jornalistas sejam mediadores e que sejam as testemunhas profissionais que contam às pessoas aquilo que importa saber, aquilo que dá conhecimento, aquilo que permite o entendimento do que está a acontecer no mundo."

"Eu entendo que o jornalista não deve ter opinião, exceto sobre questões fundamentais de liberdade e democracia, mas o papel do jornalista é dar às pessoas as pistas necessárias de informação rigorosa para que as pessoas possam decidir, possam julgar, em suma."
"Em Portugal, tenho vivido entre duas rádios: sempre na RDP, que agora é a RTP (a RDP e a RTP fundiram-se numa só empresa). Saí por duas vezes, primeiro para fundar uma outra rádio, a TSF, e depois ainda voltei à TSF. Logo a seguir ao massacre de Santa Cruz, em Dili, foi criado um programa, em canal específico, com antenas orientadas para Timor (antenas da RDP Internacional): o Timor Lorosae."
Na altura, analisava-se que fontes havia sobre Timor, como é que os media internacionais lidavam com Timor. E houve a pista de que a SBS Australiana era uma das referências que importava seguir.Francisco Sena Santos, Jornalista e Correspondente da SBS em Português, em Lisboa
"A partir de 1991, juntamente com outros jornalistas portugueses, o Adelino Gomes e o Manuel Acácio, fui seguindo sempre, com sensibilidade especial, o que acontecia em Timor. E, mais do que uma vez, o José Ramos Horta, — que tinha frequentes passagens por Lisboa no combate pelos direitos do Povo de Timor —, chamou a atenção para a importância da emissão da SBS."
"Ter a noção de que a SBS era um meio para fazer chegar informação rigorosa, livre, independente a Timor, isso foi um fator decisivo. Esse é um elemento que, quando a Beatriz me falou, confesso, não hesitei. Senti que isso faz parte da obrigação profissional. O jornalista tem que fazer o que sente que é preciso. Senti que era necessário.”
"É uma experiência fascinante estar sempre com a SBS, é um prazer imenso. Eu acho que não me lembro de férias, mas é um prazer, mesmo quando estou de férias, estar duas vezes por semana com os ouvintes de SBS."
"[Quando gravo as crónicas para a SBS em Português] estou no meu escritório, que tem uma espécie de estúdio. Às vezes estou na rádio, outras estou na rua. Já me aconteceu telefonar da praia. Também já enviei crónicas a partir de outros países da Europa, até do Médio Oriente. O meu compromisso é, duas vezes por semana, em dias marcados, enviar as crónicas. Acontece que, às vezes por razões profissionais e, até, eventualmente pessoais, estou fora de Portugal, e há sempre uma história para enviar. Às vezes, há histórias do lugar onde estou que podem ser relevantes."
Fazer jornalismo é ir aos sítios. As notícias de agência e de outras fontes são um indicador, mas é sempre preciso ir lá, ir ver, ir sentir a atmosfera. Para poder contar.Francisco Sena Santos, Jornalista e Correspondente da SBS em Português, em Lisboa
"Eu defendo muito um jornalismo tocado por alguma inspiração literária, ou seja, com cuidado em cada palavra. Ter uma pinça a experimentar qual é a palavra mais justa para definir esta e aquela situação que caracteriza uma história. Ir sempre aos sítios."

"Já fui à Austrália, sim. A primeira vez que encontrei a Beatriz, foi numa ida à Austrália. Foi na primeira visita do Presidente José Sampaio a Timor, ainda Timor não era independente. Fui à Austrália nessa altura por duas vezes com o Presidente Sampaio. Fomos a Camberra, a Sydney e a Melbourne."
"O facto de estar na SBS leva-me a ler jornais australianos, a ser curioso sobre o que se passa na Austrália e a ouvir a SBS."
Timor creio que foi a última grande causa a unir os portugueses. Todos os casos com forte dimensão humana reforçam a paixão pelo jornalismo.Francisco Sena Santos, Jornalista e Correspondente da SBS em Português, em Lisboa
"O prazer que é cumprir o dever de serviço público de contar. A voz que conta. Já tive que me render, mas confesso que sou um resistente às câmaras nos estúdios de rádio."
"Acho que o jornalista é uma pessoa como outra qualquer (...) é um profissional de um ofício, não é uma estrela do que quer que seja. Eu acho que o jornalista não deve dar entrevistas, a não ser isto que estamos a fazer, a conversar sobre o ofício."
"Sinto muito que o jornalista deve ser discreto e, sobretudo, o jornalista da rádio é a voz, não tem imagem. Cultivo muito a ideia de serviço público. Contar às pessoas aquilo que interessa saber. Partilhar com as pessoas aquilo que é relevante, aquilo que pode estimular o grande prazer que é a curiosidade. Eu acho que esse é muito o papel do jornalista: ser o procurador das pessoas, aquele que faz as perguntas que as pessoas têm para fazer, e aquele que conta aquilo que é interessante para a vida."
Nos tempos que correm há despedimentos nas redações. Acontece em Portugal, acontece no mundo. Neste último ano letivo, houve 300 alunos que eram candidatos a este curso que não tiveram vaga, entraram 60. Ao fim de um tempo, os alunos vão perguntando: Mas então, nós estamos a estudar para quê? Para ir fazer outra coisa? E eu insisto:
Há sempre lugar no jornalismo para quem é competente, para quem se dedica, para quem pratica o jornalismo com devoção, com paixão, a querer contar bem.Francisco Sena Santos, Jornalista e Correspondente da SBS em Português, em Lisboa
"Quem faz formação contínua. Já fiz 60 anos e continuo a fazer formações, continuo a procurar perceber o que está a acontecer."

"O trabalho diário com estudantes, com gente de 20 e poucos anos, é excelente para irmos também percebendo o que é que passa pelas gerações mais novas, quais são os interesses. Aprendo imenso com os estudantes, que chamam a atenção para coisas que, provavelmente, me escapariam. Vou muitas vezes a concertos onde não iria se não fossem os estudantes a chamarem-me a atenção."
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