Em entrevista ao correspondente da SBS em Português, Francisco Sena Santos, José Pedro Castanheira explica como reuniu testemunhos e documentos que ajudam a preservar a memória de um dos períodos mais sombrios da história portuguesa.
O jornalista e investigador português José Pedro Castanheira acaba de lançar o segundo volume de Histórias da PIDE, obra que documenta a atuação da polícia política portuguesa durante a ditadura e o período colonial.
Depois de um primeiro livro dedicado à repressão em Portugal, o novo volume centra-se em Moçambique, com destaque para a prisão política da Machava, nos arredores de Lourenço Marques, atual Maputo.
Em entrevista à SBS em Português, Castanheira afirma que a investigação se apoia em relatórios da Cruz Vermelha Internacional, organização que realizava inspeções periódicas às prisões políticas das então colónias portuguesas.
"O meu relato baseia-se ainda por cima na melhor fonte, que é a Cruz Vermelha Internacional. É uma organização absolutamente insuspeita."
Segundo o autor, os documentos revelam a dimensão da repressão exercida pelas autoridades portuguesas nos últimos meses da ditadura.
"Só na Machava havia mil cento e quinze presos políticos."
Castanheira afirma que os relatórios consultados apontam para a prática sistemática de violência contra opositores políticos.
"A verdade é que a Cruz Vermelha Internacional revela atos sistemáticos de tortura, de violência brutal, que demonstram que, nas vésperas do 25 de Abril, continuava a torturar-se em massa e até à morte."
Um dos casos destacados no livro é o do pastor protestante moçambicano Zedequias Manganhela, encontrado morto na prisão em 1972. Embora as autoridades portuguesas tenham defendido a tese de suicídio, Castanheira contesta essa versão.
"As autoridades portuguesas insistem que ele se suicidou. Tenha-se ou não suicidado, a verdade é que ele tinha sido barbaramente torturado nas vésperas. Eu acredito piamente que Manganhela não se suicidou. Foi suicidado."
Para o autor, a investigação sobre a Machava foi uma das mais marcantes da sua carreira de quase quatro décadas dedicada ao jornalismo de investigação e à memória histórica do regime salazarista.
"Foi um grande murro no estômago."
O livro procura lançar nova luz sobre a repressão política nas colónias portuguesas e preservar a memória das vítimas de um dos períodos mais sombrios da história contemporânea de Portugal.
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