Inaugurada durante a ditadura portuguesa e rebatizada após a Revolução dos Cravos, a ponte que liga Lisboa a Almada atravessou seis décadas de profundas mudanças políticas e sociais.
Mas a ponte não liga apenas dois territórios. A sua história também une dois períodos profundamente diferentes de Portugal.
Quando foi inaugurada, em 6 de agosto de 1966, o país vivia sob a ditadura do Estado Novo.
A cerimônia teve cortejo presidencial, discursos oficiais, celebrações religiosas e fogos de artifício. Batizada informalmente de Ponte Salazar, em homenagem ao então chefe do governo António de Oliveira Salazar, a construção foi apresentada como uma demonstração da capacidade e do progresso do regime.
Imagens preservadas pela RTP mostram a caravana oficial atravessando a estrutura de Almada em direção a Lisboa.
A travessia representava a concretização de uma ideia com quase um século. O primeiro projeto conhecido para uma ponte rodoviária e ferroviária sobre o Tejo foi apresentado pelo engenheiro Miguel Pais em 1879.
Diversas propostas surgiram nas décadas seguintes, mas as dificuldades técnicas e financeiras mantiveram o sonho no papel.
A construção finalmente começou em 1962. Cerca de 3 mil trabalhadores e 14 empresas participaram da obra, concluída em menos de quatro anos. Foram utilizadas 82 mil toneladas de peças de aço e 300 mil metros cúbicos de concreto. As duas torres atingem cerca de 190 metros de altura, enquanto o vão central suspenso se estende por 1.013 metros.
No dia da inauguração, automóveis chegaram de diferentes regiões e formaram longas filas nos acessos. A imprensa da época estimou que cerca de meio milhão de pessoas atravessaram a nova ponte naquele primeiro dia. Para muitas famílias, caminhar ou dirigir sobre o Tejo foi como entrar no futuro.
A abertura transformou a relação entre Lisboa e a margem sul. Até então, a ligação dependia principalmente dos barcos. A ponte reduziu distâncias, estimulou o crescimento de cidades como Almada, Seixal e Barreiro e mudou os trajetos entre o norte e o sul do país.
Oito anos depois, a própria estrutura ganharia outro nome e significado.
Em 25 de abril de 1974, um movimento militar derrubou a ditadura portuguesa. A Revolução dos Cravos abriu caminho para a democracia, o fim da censura e a realização de eleições livres. Pouco depois, a antiga Ponte Salazar passou a chamar-se Ponte 25 de Abril.
A mudança foi mais do que uma substituição de placas. Uma obra construída para celebrar um governante autoritário tornou-se uma referência à revolução que encerrou o regime. O nome atual transformou a ponte em um monumento cotidiano à liberdade.
A estrutura também precisou acompanhar o crescimento da região metropolitana. Na década de 1990, recebeu reforços, uma nova faixa rodoviária e a ligação ferroviária prevista desde os primeiros projetos. Os trens começaram a atravessar o Tejo em 1999.
Hoje, mais de 300 mil pessoas passam diariamente pela ponte em carros, ônibus e trens. A rodovia recebe mais de 150 mil veículos por dia e a ferrovia, cerca de 174 trens. Desde 1999, o serviço ferroviário já transportou mais de 560 milhões de passageiros.
Ao completar 60 anos em 2026, a Ponte 25 de Abril continua sendo uma das imagens mais reconhecidas de Portugal.
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