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“Ofereciam o curso como uma porta de entrada para a imigração,” diz ex-funcionário da escola Ad Astra, de Melbourne

Morando em São Paulo, Murilo Araujo Rodrigues estava trabalhando como gerente de desenvolvimento de negócios no Le Cordon Bleu Brasil, quando, depois de ver a proposta inovadora da Ad Astra, Commercial Cookery and Hospitality School em Melbourne, resolveu deixar a famosa escola francesa e tentar a escola australiana. Murilo falou à SBS de São Paulo.

Ad Astra Institute foi considerada insolvente pela Autoridade Australiana do Controle de Qualidade do Setor de Treinamento Vocacional (ASQA) e foi fechada em agosto de 2019. 

Nesta série de reportagens, a SBS em Português mostra como uma instituição de ensino australiana conseguiu vender uma ideia – de escola inovadora e ensino de primeira qualidade – e atrair estudantes de diversas partes do mundo para salas de aula ainda em construção.

“Eu estava procurando novas oportunidades, a proposta deles no papel me pareceu muito interessante,” disse Murilo Araujo Rodrigues, à SBS em Português.

Murilo Araujo Rodrigues
Murilo Rodrigues: “Ainda estou em São Paulo e segui em frente, mas e os estudantes que colocam todas as suas economias em uma promessa de educação do primeiro mundo?"
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“Eles eram tão inovadores; um grupo de empresas que se complementavam, um líder visionário, o discurso de vendas era atraente. Eles estavam realmente oferecendo algo – que, se fosse real, seria incrível. Fiquei empolgado, acreditei na ideia deles e entrei. ”

Após entrevistas via Skype e passar por um recrutamento completo e cuidadoso, Murilo foi contratado como Gerente Internacional de Desenvolvimento de Negócios da Ad Astra para a América Latina.

Seu trabalho era vender os cursos da Ad Astra para agências de intercâmbio de estudantes no Brasil e na América Latina, dois dos mercados de educação internacional em maior crescimento na Austrália.

Representative image of a chef in a restaurant.
Pixabay
Murilo trabalhou na Ad Astra por quase dois anos, entre 2018 e 2019.

"Minha função era vender a ideia de uma escola nova que estava entrando no mercado para as agências de intercâmbio. Minha ideia era rodar todas as agências e torná-las parceiras.”

Ele lembra que em alguns meses, algumas coisas começaram a não encaixar especialmente em relação às promessas feitas pelas escola, entre elas o lançamento do ‘restaurante-escola com zero desperdício’, um dos carros chefes da venda. “A data de abertura era sempre prorrogada," recorda .

Como trabalhava para a escola no Brasil, Murilo acredita que foi mais difícil estar a par do que estava acontecendo.

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Funcionário mostra como a formação de ‘chef’ pode levar ao PR (Permanent Residency)
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"Comecei a pedir provas: 'Me mande fotos da nova cozinha, o currículo da escola, os currículos dos professores, algo concreto, é muito difícil vender uma ideia".

Murilo disse à SBS em Português que a escola fornecia poucos materiais visuais e alguns sem o logotipo. 

“Minha segunda bandeira vermelha foi o fato de que, embora não estivesse escrito em nenhum lugar, fomos instruídos a vender a promessa de que o curso levaria o aluno a um ‘work permit’ que o curso era o ponto de entrada para residência permanente, que embora houvesse um limite no número de horas para trabalho, o estudante ia poder trabalhar como ‘chef’ por mais horas e era difícil para o governo controlar isso. Esse era o discurso de vendas deles," disse Murilo à SBS em Português.

“Chegaram a mostrar materiais com o “pathway to permanent residency”, usando o skilled occupations list, e que a carreira de chef fazia parte dessa lista. Ofereciam o curso como uma porta de entrada para a imigração,” disse  Murilo à SBS em Português.

Ad Astra
A comunicação sobre o fechamento da escola aos estudantes foi feita pelo Tuition Protection Service (TPS)
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Murilo disse à SBS em Português que o salário era pago com atraso. "A estratégia deles era nos manter no escuro. Não recebi as evidências [fotos do resturante-escola e cozinhas] solicitadas, os emails aumentaram, as mentiras, o discurso de vendas, tudo ficou tão estressante. Eu tive que sair. Aqueles meses foram realmente difíceis de prosseguir, tanto financeira quanto emocionalmente. Eu tinha contas a pagar, não aguentava mais e saí.“

Depois que a decisão foi tomada, Murilo enviou um e-mail para toda a sua lista de contatos  no Brasil e na América Latina alertando sobre os problemas financeiros da Ad Astra: “Eu escrevi: 'Sou Murilo, trabalhei para essa escola, gostaria de avisar que eles estão passando por um processo de liquidação judicial mas não estão sendo transparentes, ainda estão tentando recrutar mais gente, vender mais cursos mas saibam que isso é um barco furado'," conta.

“Depois que eu enviei o email denunciando eles, nunca mais entraram em contato comigo. Eu fui bloqueado de todas as contas de mídia social deles. Eles não atendiam mais minhas ligações".

Ad Astra
Chef Sauteing Spinach and Grains
Getty Images
Alguns meses depois de sua saída, Murilo descobriu que a escola tinha sido fechada pelas autoridades australianas.

Foi quando ele decidiu deixar o mercado de educação internacional e hoje administra uma empresa de contabilidade com sua esposa.

“Ainda estou em São Paulo e segui em frente, mas e os estudantes que colocam todas as suas economias em uma promessa de educação do primeiro mundo? Eles deixam o país e, quando chegam [na Austrália], não é nada disso, a escola é liquidada, insolvente. ”

“Quando a intenção é do golpe , independente do governo, orgão, instituição de qualquer país, o golpista vai usar as ferramentas a seu dispor. O governo australiano é um dos mais sérios em termos de controle de fraudes, às vezes demora, e quem está no meio acaba sofrendo, mas não acho que é culpa do governo, tanto que a escola está fechada.”

Ad Astra
Chat log entre Murilo e o dono da escola: “Não recebi as evidências solicitadas, os emails aumentaram, tudo ficou tão estressante. Eu tive que sair.”
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O Department of Home Affairs (DFAT) tem informações disponíveis para os alunos afetados pelo fechamento de uma escola ou provedor de ensino que pode ser acessado aqui no site do DFAT.

O Departamento de Assuntos Domésticos (DFAT) tem informações disponíveis para os alunos afetados pelo fechamento de uma escola ou provedor de ensino que pode ser acessado aqui na página do DFAT.

Serviço de Proteção ao Ensino (TPS) oferece informações sobre reembolso e auxilia estudantes a encontrarem uma nova escola.

Informações gerais sobre o Programa de Visto de Estudante podem ser encontradas no DFAT Explore que mostra opções de visto para estudar na Austrália.

Em entrevista a SBS em Português James Sackl, proprietário e fundador da Ad Astra, negou declarações feitas nessa entrevista.

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