A Austrália é um raro, senão o único país
do mundo, que chama o Dia Internacional da
Discriminação Racial de Dia da Harmonia.
E é justamente essa diferença motivo pra
uma grande polêmica.
O Dia contra a Discriminação Racial passou
a ser o Harmony Day durante o governo
liberal de John Howard, em 1999,
e o foco passou a ser a celebração da
multiculturalidade no país, com festas,
comidas típicas e a cor laranja como
símbolo.
Vinte e sete anos depois da mudança, o
governo trabalhista de Anthony Albanese
fala muito em coesão social, em especial
depois do atentado terrorista na praia de
Bondi, em 14 de dezembro do ano passado,
que matou 15 pessoas, a maioria da
comunidade judaica de Sydney.
Os judeus foram o alvo do atentado e são
vítimas diárias de antissemitismo. Da
mesma forma, o atentado impacta
diretamente as comunidades árabes e
muçulmanas, que relatam cada vez mais
casos de preconceito. Em tempos de Donald
Trump, invasão russa na Ucrânia e agora
com a invasão do Irã pelos Estados Unidos
e Israel, vivemos um caos geopolítico e
cada vez mais, por conta disso, problemas
A Austrália não é imune a isso, com uma
sociedade tão multicultural, com
comunidades de imigrantes e descendentes a
sentir na pele, todos os dias, o que está
a acontecer no Oriente Médio, na África e
também na Europa. A crise geopolítica
encontra uma Austrália em crise
habitacional aguda, na qual, por exemplo,
Sydney se tornou a segunda cidade mais
cara do mundo em moradia, segundo a
Demographia, uma empresa americana de
análise imobiliária.
O país cuja economia bateu o recorde
mundial sem recessão técnica no PIB total,
são quase 29 anos entre 1991 e 2020,
atualmente está com o maior índice de
desigualdade social desde 2001,
de acordo com o tradicional levantamento
HILDA, da Universidade de Melbourne.
Para conversar e tentar entender como tudo
isso impacta em nossas vidas, a SBS em
português conversou com o professor
brasileiro Alexandre Fleck Brandão, da
Faculdade de Direito, Sociedade e
Criminologia da Universidade de New South
Wales. Ele é especialista em estudos
jurídicos, movimentos sociais e mídias
sociais. O professor foi um dos convidados
da série de transmissões que a Rádio SBS
teve em seus programas de língua,
diretamente de Bondi, no Harmony Day de
Nesta conversa, o professor Alexandre
Fleck Brandão afirma que a Austrália vive
uma ambiguidade na questão da coesão
social, por ser ainda referência em
sociedade multicultural, mas por manter,
ao mesmo tempo, a ausência de resoluções
de problemas causados pelo passado
colonial.
E que a crise econômica, de momento, virou
terreno fértil para a ascensão de
discursos de extrema-direita que colocam a
multiculturalidade do país como um
Hoje o programa é especial.
Estamos gravando no Bondi Pavilion, na
praia de Bondi, nos Eastern Suburbs de
Sydney, em meio ao Ocean Lovers Festival,
um dia todo de transmissões de programas
em diferentes línguas da SBS, entre eles o
português. E uma das razões de estarmos
aqui em Bondi hoje, sábado, 21 de março, é
porque estamos no Dia da Harmonia, o
Harmony Day, que é a versão australiana do
que lá fora é conhecido como Dia
Internacional da Discriminação Racial.
E justamente essa diferença de nome na
Austrália é motivo pra uma grande
polêmica. O Dia contra a Discriminação
Racial foi mudado na Austrália durante o
governo liberal de John Howard, em 1999,
para o Dia da Harmonia, que acaba por
celebrar a multiculturalidade no país, com
foco em celebrações culturais e comidas
Vinte e sete anos depois da mudança, o
governo trabalhista de Anthony Albanese
fala muito em coesão social, em especial
depois do atentado terrorista aqui na
praia de Bondi, em 14 de dezembro do ano
passado, que matou 15 pessoas, a maioria
da comunidade judaica de Sydney. Os judeus
foram o alvo do atentado. Em tempos de
Donald Trump, invasão russa na Ucrânia e
agora com a invasão do Irã pelos Estados
Unidos e Israel, vivemos um caos
geopolítico e cada vez mais, por conta
disso, um caos econômico. A Austrália não
é imune a isso, com uma sociedade tão
multicultural, com comunidades de
imigrantes e descendentes que sentem na
pele todos os dias o que está a acontecer
no Oriente Médio, na África e também na
Europa, cada vez mais em crise o
continente europeu. Pra conversar e tentar
entender tudo isso, a SBS em português
trouxe aqui o professor brasileiro
Alexandre Fleck Brandão, da Faculdade de
Direito, Sociedade e Criminologia da
Universidade de New South Wales,
especialista em estudos sociojurídicos,
movimentos sociais e mídias sociais. Ele
ajuda a desvendar o contexto em que a
Austrália celebra a Semana da Harmonia.
Professor Alexandre, é um prazer tê-lo
Boa tarde, Fernando, muito obrigado pelo
convite.
qual a sua visão sobre o Dia da Harmonia,
o Harmony Day, no contexto que definimos
aqui? Olha, eu vejo o Dia da Harmonia
exatamente com ceticismo crítico perto, é,
al-- por algumas das razões que tu, que
tu citaste, hã, agora. Ele parte de uma
intenção legítima, que é uma intenção de
celebrar essa diversidade, mas a palavra
harmonia, ela sugere uma convivência sem
conflito, né? Quase uma convivência
natural que, na verdade, sociedades
multiculturais como a nossa, elas passam
por tensões de estrutura, de racismo, e
esses problemas tendem a ser apagados ou,
de certa forma, relevados a segundo plano
quando se fala nessa questão da harmonia,
né? Então, isso se conecta com um traço
muito importante da sociedade australiana,
sobretudo pós governo Howard, que é o
período pós Racial Discrimination Act,
onde houve uma tentativa da sociedade
australiana de tratar o problema do
racismo como um problema individualizado,
um problema de maçãs podres, um problema
muitas vezes, inclusive, que se fala hoje
de um problema importado, um problema como
se não fosse algo enraizado e que vem da
sociedade australiana. E nesse cenário,
né, o problema da harmonia vem de quem vem
de fora, vem dos imigrantes, vem de um,
um discurso que muitas vezes deslegitima
mais quem tá reclamando dos problemas do
-quem tá
-Exatamente causando esses problemas de
desarmonia, né? Aquelas pessoas que são
atacadas, que reclamam do preconceito, que
reclamam do racismo, elas passam a ser as
chatas e são vistas como aquelas que tão
de fato causando esse problema de falta de
coesão, de falta de harmonia. Então esse,
esse significado, ao fim e ao cabo, ao
invés de ser inclusivo, ele passa a ser
uma forma paradoxalmente de silenciamento,
né, e de falta de coesão social que
promove o contrário do que supostamente
ele tenta fazer.
É interessante você citar isso, que uma
vez eu fiz uma entrevista, faz-- não era
pra SBS em português, mas era pra SBS
ainda, com os líderes comunitários do, dum
council árabe aqui de Sydney e eles
citaram exatamente isso que você falou.
Eles dizem: "ah, eles ficam repetindo que
nós estamos trazendo problemas, é, de fora
aqui pra Austrália, mas nós estamos
vivendo esses problemas todos os dias, não
estamos trazendo de fora. Nós vivemos
isso no nosso cotidiano".
Ou preconceito ou várias outras formas que
têm.
Perfeito. Eu acho que esse é o retrato
duma, duma Austrália ambígua, né? Uma
Austrália que ao mesmo tempo tem e
continua sendo um caso relativamente
bem-sucedido de uma sociedade
multicultural, com muitas culturas, com a
programação do dia de hoje é um retrato
disso, sobretudo se comparado com outras
sociedades ocidentais. A Austrália é um, é
um sucesso nesse sentido, mas ao mesmo
tempo há claros sinais de, de erosão
social, que muitas vezes são novamente
externalizados e tenta-se esquecer muitas
vezes que a Austrália tem um, não só um
passado, mas uma continuidade colonial de,
de questões que não foram bem resolvidas
até o presente momento. Então tem esse,
como gosta de falar em inglês, o
bittersweet, né? Tem essa, essa tensão,
essa ambiguidade entre essas duas coisas.
Você estudou e estuda vários temas
relacionados à coesão social.
Como você enxerga esse momento hoje em
relação a isso aqui na Austrália?
Olha, a sociedade australiana vive, hã, um
claro momento de, de tensão. Há
problemas, né, relacionados ao aumento do
custo de vida, a uma crise habitacional e
sobretudo nos últimos anos, esse aumento
de custo de vida, essa crise habitacional,
essa insegurança econômica viraram
terreno fértil pra a expansão de
ataques baseados num ressentimento social.
Na última eleição nós vimos, de certa
forma, isso acontecer. E então há uma
narrativa consolidada de que, ao mesmo
tempo, o racismo é algo da periferia, algo
que é individual, que é externo, que não
Mas há uma tentativa também de
externalizar pra determinados grupos, pra
determinadas pessoas, a causa dessas,
desses problemas, né? Na verdade, a
sociedade australiana tem algumas
contradições nesse sentido, muito, muito
graves ou muito significativas. Uma delas
é, por exemplo, a institucionalização das
políticas como a operação ou Operation
Sovereign Borders, como é falado, que
externalizou o controle migratório e
colocou pessoas que, que buscam refúgio na
Austrália em verdadeiras ilhas-prisão e
até dois anos atrás, com uma
permanência e uma reclusão permanente lá.
Finalmente, a High Court australiana, em
um julgado de 2023 e 2024, acabou com isso
e veio corrigir e dizer que as pessoas
que não podiam ser deportadas não podiam
ser mantidas naquele local de forma
-permanente.
-Isso que você tá citando agora é Nauru,
E também Christmas Island, que é o...
Sim, on and off em algum-- em alguns
momentos, sim, em alguns momentos, não nos
últimos anos. Mas o caso da família de
Biluella, por exemplo, era, é, é, era
retrato disso, dessa permanência no limbo
dessas pessoas durante muito tempo, algo
que foi promessa de campanha resolvida
pelo atual governo. Mas o caso de Nauru e
sobretudo dessas pessoas que não podiam
ser deportadas por outras razões,
inclusive pessoas que perderam sua
nacionalidade, tavam presas de forma, é,
indefinida em Nauru, em outros locais, e,
e isso era tido como algo possível e até
que finalmente a High Court, depois de
anos de, de entidades associadas tentarem
mudar essa, é, essa realidade, ao fim e ao
cabo, a High Court definiu que isso não é
possível, que isso não é constitucional,
que isso é ilegal e que não respeita as
liberdades individuais dessas pessoas.
O primeiro-ministro Albanese, ele tem uma
missão difícil administrar um país
multicultural em um contexto tão
geopoliticamente complicado, né? Esse é o
pior momento econômico que a Austrália
passa desde o início dos anos 90. Tem
uma ou duas gerações que não viveram isso,
diferente de nós que nascemos no Brasil,
os timorenses também, que viveram-- os, os
lusofricanos, que viveram isso na pele a
Como você avalia o governo Albanese na
questão da coesão social agora?
Olha, o governo Albanese começou com uma
agenda que sinalizava um compromisso muito
forte com a inclusão e o referendo do The
Voice na época era exatamente a expressão
mais clara desse tipo de, de postura. A
reação à derrota do governo no, no
referendo foi a de se retrair, né? E ao
invés de se reconfigurar ou aprofundar
essa agenda, ou de alguma forma seguir ao,
ao menos com as formas mais moderadas
dessa agenda, o que aconteceu é que o
governo se retraiu e deu espaço pra outras
forças políticas explorarem a agenda da
imigração, explorarem a agenda da
diversidade e essa questão da coesão
social pra seus próprios, é, benefícios.
Nós vimos isso de forma-- uma tentativa
muito clara disso a parte do Partido
Liberal na, na forma do, do seu líder, é,
Peter Dutton, na última eleição. E parece
que o One Nation hoje, a Pauline Hanson é
um exemplo claro disso, sobretudo com os
ataques a imigrantes e à comunidade
muçulmana de Western Sydney. Ela resolveu
Você citou agora a questão do One Nation,
que é um partido considerado de, de
extrema-direita, né? Nós estamos
testemunhando o crescimento da
extrema-direita aqui na Austrália, da
mesma forma como houve no Brasil, nos
Estados Unidos, em Portugal, em grande
parte da Europa, né? E desde janeiro esse
partido tem aparecido como o partido de
maior preferência entre os de oposição.
Uma das bandeiras é a redução da
imigração, e integrantes do partido até já
sugeriram a volta da prioridade a
britânicos, como no passado, o que pode
afetar diretamente imigrantes lusófonos,
inclusive, né? HãA que você atribui esse
crescimento, essa aceitação do discurso de
extrema-direita na Austrália?
Olha, por um lado, esse crescimento tem
raízes materiais importantes, né? Aquelas
crises que eu já comentei, o aumento do
custo de vida, a questão habitacional. Mas
há uma mobilidade e uma tentativa de
colocar os imigrantes e colocar a
diversidade cultural australiana como um
defeito e como um problema, como causador
desses problemas, né? Como se nós,
brasileiros ou portugueses ou timorenses,
ou os meus alunos na universidade, os meus
alunos internacionais, fossem a causa pro
problema habitacional de Sydney ou fosse
a causa do aumento do custo de vida no
-Woolies e no Coles.
-Lembrando que há estatísticas que, de
fato, reforçam a ideia de que isso não é
um problema, a imigração não é problema.
E-exatamente, mas eu acho que esse, esse
movimento e essa postura, ela, ela cresce
justamente num contexto de timidez e de
falta de resolução política do outro lado
também, né? Então, o governo foi, de certa
forma, muito tímido ao, ao rejeitar esse
discurso. Houve uma rejeição, mas ainda
muito, muito limitada, de forma a tentar
novamente, em nome da coesão social,
tentar limitar e não gerar mais conflito
onde tava sendo visto como se tivesse se
gerando mais conflito. Isso cria um
paradoxo, que é o paradoxo do dia de hoje,
que ao tentar preservar a, a coesão,
evitando esse conflito, ele se abre
espaço, mais espaço ainda e incentiva
ainda mais esses discursos que aprofundam
essas divisões.
Professor Alexandre, gostaria muito de
agradecer a sua presença aqui, por-- é um
tópico interessantíssimo e fundamental pra
todo mundo que vive na Austrália. Não é a
primeira e não será a última vez que
contaremos contigo aqui na SBS em
-português. Muito obrigado.
-Muito obrigado, Fernando.
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