O médico Vitor*, de 38 anos, chegou à Austrália no dia 13 de março, junto com a mãe, ambos com visto de turista, pelo aeroporto de Sydney.
Ao chegarem à imigração, ele solicitou asilo alegando risco à própria vida caso retornasse ao Brasil.
Segundo ele, tudo começou no dia 26 de fevereiro, ainda em São Paulo, após identificar uma suposta fraude de uma cliente, que teria apresentado comprovantes de pagamento falsos por seus serviços.
Vitor decidiu expor o caso em suas redes sociais, que somam mais de 200 mil seguidores, e a partir daí, afirma que passou a receber ameaças por telefone. No dia 2 de março, registrou um boletim de ocorrência por estelionato e ameaças à sua vida e, na mesma semana, afirma que decidiu deixar o país em busca de segurança.

Qualquer pessoa que se sente perseguida, tem o direito a pedir asilo em algum país. Não apenas quem está em guerra, ou é refugiado. E eu escolhi a Austrália!Vitor explica por que escolheu esse tipo de visto

De acordo com Vitor, a entrevista com as autoridades de imigração durou cerca de seis horas, e ele acabou sendo separado de sua mãe, pois ambos tiveram os seus celulares apreendidos durante esse período.
Não me deram o direito de poder ligar para a embaixada do Brasil, e nem de usar um tradutor no momento da entrevista com a imigraçãoO médico disse que não é fluente na língua inglesa e, por isso, teve dificuldade de entender tudo que lhe foi dito
Segundo ele, seu pedido foi aceito para análise, mas logo após ele foi informado de que seria encaminhado para um centro de detenção migratória enquanto aguardaria a decisão final.
Ao saber que ficaria detido, talvez por semanas ou até mesmo meses, e que continuaria sem contato com a mãe, o médico decidiu retirar o pedido.
O pedido do meu asilo tinha sido aprovado para análise, mas no final, eles me disseram que eu iria para uma detenção. E aí eu falei, ‘gente, como assim eu vou para uma detenção?' Ninguém tinha me explicado issoEle relatou ter ficado surpreso após ter assinado o documento com o pedido de asilo, e somente depois ter entendido as condições anexas
Vitor afirma que foi ali que o seu sonho de morar na Austrália virou um pesadelo, pois, após a desistência do pedido de asilo, o visto de turista já havia sido cancelado, e ele passou a ser considerado em situação migratória irregular no país.
Quando eu disse que abdiquei do asilo, eu me tornei uma pessoa ilegal na Austrália. Então, eles me algemaram e me prenderam
Após ser interrogado, ele conta que foi levado do aeroporto de Sydney para um centro de custódia e retenção de imigrantes ilegais.

Eu cheguei neste apartamento às 2 da manhã. No final do mesmo dia, três pessoas me revistaram, me algemaram novamente e me levaram de volta para o aeroporto para eu ser deportadoO prédio mencionado fica em Nova Gales do Sul

Já de volta ao Brasil, ele disse que foi recepcionado pela mãe no aeroporto.
Foi um voo muito cansativo, longo e estressante: Sydney, Kuala Lumpur, Turquia (Istambul), Portugal e finalmente Brasil. Foram mais de 50 horas de trânsitoEle relatou que diferentes agentes de segurança viajaram ao seu lado durante o percurso
Ao final da entrevista, ao ser questionado se teve algum arrependimento durante todo este processo, ele disse que sim.
Se eu pudesse voltar atrás, eu teria ficado no país (Austrália), teria ido para a detenção, e esperado o julgamento. Era isso o que eu mais queria - poder morar num país seguro. Mas o meu sonho não acabouO médico afirma que ainda não se sente seguro no Brasil
Também ouvimos do advogado brasileiro Valmor Gomes Morais, ex-cônsul honorário do Brasil em Queensland, que apresenta sua avaliação sobre a experiência relatada por Vitor.
É um caso bem trágico, mas que demonstra e reforça a importância das pessoas falarem com profissionais registrados de imigração, para tomarem os passos corretos, e evitarem situações traumatizantesValmor possui mais de 10 anos de experiência jurídica
Ainda segundo o advogado, a atuação das autoridades australianas foi adequada, já que o viajante entrou no país com um visto de turista - mas com uma finalidade diferente.
Valmor analisa que a situação foi rapidamente identificada na fronteira e que os procedimentos adotados seguiram o protocolo previsto.
* nome trocado a pedido do entrevistado
Aperte o 'play' para ouvir a entrevista completa.
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