Com auditórios cheios, o festival BABELL trouxe escritores fundamentais de nosso tempo para colocar o livro no centro da discussão, fomentar a leitura e incentivar as livrarias.
Salman Rushdie, o escritor dos filhos da meia-noite, dos Versículos Satânicos ou do Último Suspiro do Mouro, criador fascinado pela magia a contar histórias, tem sempre respondido ao fanatismo violento dos que querem cortar-lhe a liberdade de expressão, com crueldade levada ao ponto brutal de agressão que quase o matou como a daquele homem que há 4 anos em Nova York o esfaqueou e o fez perder o olho direito.
Sempre a persistir com mais arte, mais resistência mais literatura, mais livros.
Rushdie esteve no Porto a convite do audaz festival literário BABELL e numa noite do último fim de semana teve 3 mil pessoas que esgotaram a lotação do Coliseu do Porto para escutar este homem que está há 50 anos a escrever novelas. Veio conversar sobre a arte de escrever e como a arte resiste à tirania.
Muito para lá desta conversa no Coliseu, dezenas de outras passaram por outros lugares do Porto. Grande parte pela Paça dos Leões, à Beira dos Clérigos, da Livraria Lello e também do Piolho, onde foram colocadas cadeiras para 1200 lugares sentados diante de um palco por onde, ao longo de cinco dias, passaram dezenas de escritores, vários com presigio mundial como Margaret Atwood e Julian Barnes. Ou os Nobel Olga Tokarczuk e László Krasznahorkai. Sempre com lotação esgotada para assistir às tantas conversas.
Destes cinco dias, era preciso adquirir um livro, não importa se por escassos euros, e convertê-lo em bilhete de acesso.
A organização do BABELL quis colocar o livro no centro da experiência, fomentar a leitura e apoiar as livrarias. Há lojas que tiveram de à pressa recarregar as prateleiras das estantes, tal o entusiasmo das pessoas mobilizadas para esta festa de conversas sobre os livros sobre a leitura, sobre a vida e sobre o mundo.
Também com lotação esgotada escutou-se, por exemplo, Lídia Jorge em conversa com Gonçalo Tavares. A escritora do Dia dos Prodígios, do recente Misericórdia e também de um livro que reúne crónicas nos jornais voltou ao marcante discurso de há um ano em Lagos.
No 10 de junho, em que lembrou o passado esclavagista de Portugal e que nós não temos sangue puro, para dizer que agora, se houvesse que o retomar, sublinharia ainda mais o adn dos portugueses. Apelaria ainda mais à empatia, palavra muito aplaudida, e à aceitação da diversidade, que é nosso traço essencial.
Gonçalo Tavares neste mesmo debate tinha refletido sobre a atitude cristã. Lidia Jorge pegou na palavra para voltar aquele discurso do 10 de junho: como é que é "possível pessoas que se dizem cristãs e católicas acharem que aquele texto é um texto pecaminoso contra a cultura portuguesa?"
Das mais de 1200 pessoas na plateia no Largo dos Leões, sempre aplausos vibrantes. A participação de todos foi sempre muito intensa.
Estes 5 dias do festival BABELL, obra de uma pequena equipa conduzida por Rui Couceiro, mostram que a literatura pode convocar multidões como as que estão diante de ecrãs gigantes para ver jogos do mundial de futebol.
—-
Para ouvir, clique no botão 'play' desta página.
Siga a SBS em Português no Facebook, Twitter, Instagram e You Tube.
Ouça os nossos podcasts. Escute o programa ao vivo da SBS em Português às quartas-feiras e domingos ao meio-dia.
Assine a 'SBS Portuguese' no Spotify, Apple Podcasts, iHeart Podcasts, PocketCasts ou na sua plataforma de áudio favorita.




