Fígado, rim, pulmões e tecidos do geógrafo brasileiro Mauro Makluf, de 32 anos, que teve morte cerebral após uma parada cardíaca, em Gold Coast, foram doados e salvaram as vidas de quatro pessoas. Conversamos com a parceira de Mauro, Luiza Oliveira Castro, de 34 anos, sobre uma jornada dolorosa que terminou com quatro grandes alegrias.
Resumo da notícia
- Mauro tinha se mudado para Gold Coast no fim de 2022 em busca de uma nova vida na Austrália ao lado da parceira Luiza.
- Em setembro, Mauro teve uma parada cardíaca quando ia de bicicleta para o trabalho.
- Depois de cinco dias na UTI foi determinada a morte cerebral.
- Cerca de apenas 2% das pessoas que morrem em hospitais australianos atendem aos critérios exigidos para serem doadores de órgãos.
- Há cerca de 1800 australianos em lista de espera para um transplante.
O carioca Mauro Pires Makluf, 32 anos, no final de 2022 em Gold Coast e segundo sua parceira, Luiza Oliveira Castro, 34 anos, estava no ‘auge’, realizando um sonho, tinha acabado de largar tudo no Rio de Janeiro em busca da nova aventura na Austrália.

Em pouco tempo, com sua empatia e alegria, fez uma grande rede de amigos, os mesmos que mais tarde iriam ficar em choque com a sua partida súbita e inesperada.
Em meados de setembro, Mauro pegou a bicicleta e saiu às seis da manhã para o trabalho em uma obra no centro de Gold Coast.
Ao chegar ao local sofreu uma parada cardíaca.
Testemunhas viram ele cair na calçada, uma brasileira 'Iane', que estava no local, viu Mauro cair e alertou os trabalhadores da obra, pedindo desesperadamente por socorro. Um deles faz reanimação cardiopulmonar até a chegada da ambulância.

No hospital de Gold Coast, Mauro foi colocado em coma induzido por cinco dias vindo a ter morte cerebral.
Antes dos aparelhos serem desligados, médicos do hospital vieram consultar a única pessoa que estava ao seu lado naquele e em tantos momentos, sua parceira Luiza, com quem tinha recentemente iniciado um relacionamento novo, feliz e abundante de alegrias e sonhos, aquela por quem ele largou tudo para vir para a Austrália.

“Para morrer basta estar vivo”
“Quando chego no hospital, é um clima de muita tensão porque ainda estavam tentando reanimar o Mauro, depois colocaram ele nas máquinas. Fiquei muito nervosa, não sabia o que estava acontecendo,” recorda Luiza.
Na UTI os médicos optaram por uma cirurgia de ponte de safena, “resolveram salvar o coração do Mauro deixar todo o corpo operando, todos os órgãos, e depois então ver se tinha alguma alteração no cérebro.”
Luiza recorda que após cinco longos dias na UTI, a atividade cerebral não foi detectada. Foi informada da morte cerebral e a chefe médica dra Emma veio perguntar se autorizaria a doação dos órgãos.
A família que não teve tempo de vir para a Austrália diante da fatalidade e rapidez com que tudo aconteceu, autorizou e Luiza passou as próximos horas – tudo aconteceu muito rápido - preenchendo formulário, assinando autorização.
“Eu nunca imaginei que ia passar por tudo isso, de perder o meu parceiro ainda mais fora do Brasil. Tive essas conversas com os médicos [sobre doação dos órgãos] que por mais difícil que sejam, logo após ser anunciada a morte cerebral, elas precisam acontecer. Porque tudo tem um tempo, né?”
Me disseram que os órgãos tinham sido removidos com sucesso, pulmões, rim, fígado e tecidos, e que tinham beneficiado quatro pessoas [cada pulmão foi doado para uma pessoa diferente], duas delas jovens. Eu chorei, porque ao mesmo tempo que você acabou de perder uma pessoa, também sente uma alegria para aquelas que estão dando continuidade à vida aquiLuiza

“Sem o apoio da comunidade brasileira na Austrália eu não sei onde estaria”
Luiza conta que teve apoio de muitos brasileiros, conhecidos como a amiga Luiza Martello, tradutora que auxiliou no hospital, dos amigos que criaram a página GoFundME e dos muitos desconhecidos que doaram o que tinham para ajudar nas despesas do Mauro.
“Eu não tenho palavras para agradecer aos meus amigos que me apoiaram demais nesse momento e a comunidade brasileira em todos esses grupos [do Facebook]. Por que é um momento extremamente difícil, delicado. Eu não saberia onde eu estaria hoje sem a ajuda de todos,” aqui na Austrália.
Confira o podcast, com a entrevista rica em detalhes dada pela geógrafa Luiza Oliveira de Castro, 34 anos, que conta que virou doadora de órgãos e que deu essa entrevista em um momento tão difícil para alertar sobre a importância da doação de órgãos. “Há vida sim na morte,” lembra.
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