-[música suave]
-A Austrália aprovou o uso da
cannabis para fins medicinais em 2016,
completando agora dez anos. E desde então,
mudanças na legislação federal passaram a
permitir o cultivo, a produção e a
prescrição de medicamentos à base da
planta sob supervisão médica. O acesso ao
tratamento é permitido apenas com
prescrição e é regulado pela Therapeutic
Goods Administration, o TGA, que é a
agência responsável pela aprovação de
medicamentos no país. Eu sou o Felipe
Canali e no podcast de hoje eu vou
conversar com duas brasileiras e um
australiano que é fluente em português, e
eles compartilham como que o tratamento
com cannabis medicinal tem ajudado a lidar
com diferentes condições de saúde e
melhorado a qualidade de suas vidas.
Embora a cannabis medicinal seja legal em
todo o país, as leis relacionadas ao uso e
à fiscalização variam entre estados e
territórios. Por exemplo, no território da
capital australiana, adultos podem
cultivar pequenas quantidades da planta em
casa, enquanto o cultivo doméstico
continua sendo proibido no restante do
país. Além disso, eu também converso com o
médico Navin Naidoo, que prescreve
cannabis medicinal há mais de cinco anos
aqui no país. Ele é clínico e também atua
como consultor jurídico para médicos,
reunindo assim experiência médica e
-jurídica sobre este tema.
-"Many medicinal cannabis products contain
THC, which can remain detectable in the
body for days or even weeks after."
Segundo o doutor Naidoo, embora a cannabis
medicinal seja legalizada em toda a
Austrália, muitos produtos contêm THC, que
é uma substância que pode permanecer
detectável no organismo por dias ou até
semanas. E como que a maioria dos testes
de drogas detecta a presença do THC no
organismo, e não se a pessoa está sob o
efeito da substância naquele exato
momento, pacientes que usam cannabis podem
enfrentar medidas disciplinares em alguns
setores da indústria. O tema ainda gera
debate no país e já houve casos analisados
pela Fair Work Commission, em que
trabalhadores foram demitidos ao testarem
positivo. Vale destacar que, caso isso
aconteça, é possível contestar a decisão
judicialmente. Entre os entrevistados de
hoje, todos preferiram manter o anonimato
para este podcast.
[música suave] Eu vou falar agora com a
Isabel, de quarenta e dois anos, que
reside em Adelaide. Me conta por que que
você começou a usar a cannabis medicinal
-com acompanhamento médico.
-Eu tenho a doença celíaca e as restrições
alimentares são muito fortes e eu acabei
desenvolvendo diversos sintomas. Doença
celíaca é uma doença autoimune que não tem
cura. Ela é regulada através da exclusão
do glúten, então as minhas reações são
muito perigosas. Eu já tinha tentado
florais, acupuntura, remédios
convencionais, mas nada teve o resultado
-satisfatório.
-E quais são as formas de cannabis que você
-usa e como que elas te ajudam?
-Experimentei algumas opções até chegar
onde estou agora. Hoje uso gummies, óleos
e flores e fui ajustando as doses do gummy
com a flor da sativa que relaxa. E depois
fui pra o óleo também, que foi
maravilhoso. A utilização do óleo diminui
os processos inflamatórios do corpo e
nunca mais cheguei aos níveis de estresse
e dores que tinha antes.
E você também usa produtos à base de
cannabis para o tratamento do autismo. Me
-fale um pouco sobre isso.
-Faço terapia desde os quatorze anos e há
cerca de seis anos ou um pouco mais,
comecei a trabalhar com a minha terapeuta
os aspectos relacionados ao espectro
autista. Foi quando encontrei respostas
para as minhas perguntas sobre o que
estava vivendo.
E como que esse tratamento te ajudou, seja
na sua vida pessoal ou no ambiente de
trabalho? Você já percebeu alguma
diferença logo nos primeiros dias de uso?
Na primeira semana de uso de cannabis
medicinal, eu chorei de felicidade. Com o
tratamento certo, as crises ficaram no
passado e eu nunca mais tive as dores
físicas agudas que tive antes. A cannabis
e o óleo da cannabis são os únicos
componentes que me trazem alívio nas dores
que sofro, nas juntas, no corpo
todo, com consequências mais graves como a
endometriose, entre outras coisas mais.
Além disso, eu passei a dormir muito
melhor e a ter a qualidade nas minhas
noites de sono. Hoje eu consigo sair de
casa sem ficar tão estressada. Antes,
um-uma simples ida ao mercado ou shopping
me deixava muito ansiosa por causa da
música am-ambiente, do excesso de cores e
de produtos. Agora a música virou apenas
um som de fundo e não tira mais a minha
concentração e nem me deixa aflita. E no
trabalho eu deixei de ficar tão obsessiva
com a organização e a realização das
-tarefas.
-E a sua família e a empresa que você
trabalha, eles sabem que você faz uso de
cannabis medicinal? Eu te pergunto isso
porque você decidiu dar essa entrevista
anonimamente. Por qual motivo?
Meus pais sabem da utilização do óleo e da
cannabis, e eles ficaram muito felizes
porque trouxe qualidade de vida e regulou
as minhas dores referentes à doença
celíaca e às alergias ao glúten. Mas eu
não falaria publicamente sobre, porque
ainda tem muito preconceito e a empresa em
que trabalho não sabe. Então eu não
gostaria de abrir essa informação pra
muitas pessoas e esse é o motivo da minha
-entrevista ser anônima.
-Muito obrigado por ter conversado com a
gente. Pra encerrarmos a nossa entrevista,
o que que você diria pra quem tem
curiosidade sobre a cannabis medicinal e
ainda não sabe por onde procurar ajuda?
Se você tá pensando em procurar um médico
pra saber mais sobre a cannabis medicinal,
eu super recomendo. Não tenha preconceito
sobre a cannabis, pois a ciência e a
medicina estão em nosso lado hoje e sempre
pra melhorar as nossas condições. No meu
caso, hoje eu sinto que o mundo é um lugar
muito melhor, menos barulhento e menos
hostil, por isso eu consigo ficar relaxada
e focar muito melhor nas minhas
-atividades diárias.
-Segundo o doutor Naidu, a cannabis pode
ser prescrita para uma série de condições
e sintomas, incluindo:
Including insomnia, chronic and severe
pain, anxiety, depression.
Insônia, dor crônica, ansiedade,
depressão, transtorno de estresse
pós-traumático, transtorno de espectro
autista, esclerose múltipla,
algumas formas de epilepsia, náuseas,
especialmente aquelas causadas por
quimioterapia, entre outras condições de
saúde.
[música suave] Eu converso agora com a
Patrícia, de
trinta e seis anos, que mora em Sydney.
Por qual motivo você começou a fazer uso
-de cannabis medicinal?
-É, eu sofro de insônia desde que eu me
conheço por gente. Eu sempre tive muita
dificuldade pra dormir. Tiveram períodos
que eu dormia quatro horas por noite, no
máximo, e aí isso acabava afetando pra
caramba, né, meu bem-estar, a minha
produtividade no dia a dia.
E você já tinha tentado algum outro tipo
de tratamento?
Eu não gostava de recorrer a medicamentos
pra dormir, porque aí no dia seguinte eu
ficava muito sonolenta, ficava muito mole,
sem conseguir funcionar bem ao longo do
dia, sabe? E aí, depois de tentar várias
abordagens diferentes pra melhorar meu
sono, eu procurei um médico aqui na
Austrália e durante a consulta ele me
perguntou se eu já tinha considerado o uso
de cannabis medicinal.
E você já sabia que esse tratamento à base
de cannabis medicinal era legalizado aqui
-na Austrália?
-Eu nem sabia que era legal cannabis
medicinal aqui. Enfim, depois de conversar
com ele, eu resolvi dar uma chance, né? E
faz cerca de dois anos, mais ou menos,
que eu utilizo o óleo de cannabis pra
-dormir.
-E o que que você passou a sentir depois
dessa nova abordagem médica? A sua
qualidade de sono melhorou?
Olha, pra mim a mudança [risada] foi
enorme, foi muito positiva. Hoje eu
consigo dormir até oito horas por noite,
por exemplo, o que transformou totalmente
minha rotina. Eu me sinto mais descansada,
mais produtiva, sabe? Se eu soubesse
antes como esse tratamento funcionava,
provavelmente eu teria começado muito mais
-cedo.
-E me fala por que que você preferiu dar
-essa entrevista anonimamente.
-É, eu prefiro conceder essa entrevista
ainda de forma anônima, porque tem muito
preconceito, sabe, em relação ao uso de
cannabis, mesmo quando fala de cannabis
medicinal. Esse estigma existe também
dentro da minha própria família. E também,
além disso, eu tenho receio de sofrer
consequências no trabalho, já que ninguém
lá sabe que eu faço esse tratamento, sabe?
Mas você já chegou a ouvir algum tipo de,
-de comentário negativo em relação a isso?
-Eu já ouvi colegas comentando que cannabis
é droga, entendeu? Sem nem considerar o
contexto medicinal. É impressionante como
a falta de informação ainda influencia a
forma que as pessoas enxergam o tema, né?
E o que que você espera que aconteça ao
você compartilhar um pouco da sua
-experiência com o público da SBS?
-Eu espero que compartilhar essa minha
experiência talvez ajude, né, possa
ajudar, sei lá, a levar mais informação ao
público. Acredito que ainda existe muito
preconceito em torno desse tema, né? Mas
espero também que com mais informação,
mais debate, essa realidade comece a mudar
E pra gente terminar aqui a nossa
conversa: como que você acha que o
preconceito e até o estigma em relação à
cannabis possa prejudicar alguém que
poderia estar se beneficiando com o uso
desse medicamento?
Ah, e um exemplo disso aconteceu dentro da
minha própria casa. O meu marido trabalha
numa empresa que realiza teste pra
detectar a presença de drogas no organismo
e quem testa positivo perde o emprego,
pode perder. Por causa disso, ele, que
sofre de ansiedade, nunca pôde sequer
considerar o uso de cannabis medicinal
como opção de tratamento. Isso é algo que
deixa a gente bem frustrado.
Dados oficiais mostram que as aprovações
de prescrição médica de cannabis passaram
de cerca de dezessete mil em 2020 para
mais de oitocentas mil em 2024,
refletindo o aumento da demanda pelo
tratamento no país. E apesar de as
prescrições estarem se tornando cada vez
mais comuns, ainda há muito estigma em
relação ao uso da cannabis. Segundo uma
pesquisa da University of New South Wales,
cerca de oito em cada dez pessoas
disseram se preocupar em serem presas ou
enfrentarem problemas legais, enquanto
quatro em cada dez pessoas relataram
receio de consequências no trabalho, assim
como uma possível demissão.
[música suave] E a gente encerra esse
podcast conversando com o australiano
Peter, que tem trinta e um anos, mora em
Melbourne e fala português fluentemente.
Me fala por que que você começou a usar
cannabis como forma de tratamento e há
-quanto tempo você utiliza.
-Eu tenho escoliose e me-- isso me causa
bastante dor nas costas. Comecei a usar
óleo de cannabis medicinal há cerca de
-três anos já.
-E quais outros tratamentos que você já
-havia tentado antes disso?
-Antes disso, eu tentei outros tratamentos,
como fisioterapia, alongamentos e alguns
medicamentos para dor. Alguns ajudavam um
pouco, mas o que realmente funcionou
melhor pra mim foi o óleo de cannabis.
E pra quem não sabe, escoliose é uma
condição da coluna vertebral em que ela se
curva lateralmente. No seu caso, como que
o óleo te ajudou em relação aos
Ah, no meu caso, o principal benefício foi
a redução da dor nas costas, ah, causada
pela escoliose. Ah, antes eu tinha muita
tensão, hã, muscular e desconforto,
principalmente no final do dia. Com o óleo
de cannabis, ah, eu, eu sinto que a dor
bastante e o meu corpo fica mais relaxado.
Dormindo melhor, eu consigo se-- me
sentir mais equilibrado no dia a dia,
o que também ajud-ajuda bastante com a
minha sa-saúde mental.
Então te ajuda não só em relação à dor nas
costas, como também te ajuda a relaxar
pra ter uma melhor qualidade de sono, né?
E eu fiz essa mesma pergunta pras nossas
duas primeiras entrevistadas e eu vou
fazer agora pra você também. Por qual
motivo você tá me dando essa entrevista
anonimamente?
Porque ainda existe um certo estigma em,
em relação ao uso de, de cannabis, mesmo
quando é medicinal e legal. Acho que a
percepção das pessoas está mu-mudando, hã,
mas ainda existe algum preconceito em
certos contextos, especialmente no
ambiente do, hã, de trabalho. Então
preferi manter um pouco de, hã, um pouco
-mais de privacidade.
-Muito obrigado por conversar aqui com a
SBS em português pra gente encerrar a
nossa entrevista. Você conhece outras
pessoas que fazem uso de cannabis
medicinal? E falando nisso, quais são os
benefícios de morar em um país que liberou
o uso da planta para tratamentos
-médicos?
-Olha, no meu círculo de amigos e
conhecidos, todas as pessoas que usam
cannabis medicinal fazem isso com
prescrição médica. Isso é importante
porque garantia a qualidade do produto e
também a segurança, hã, já que você sabe
exa-exatamente o que está usando e em
que dose. Quando é feito dentro do
sistema médico, existe acompanhamento
profissional e muito mais, é muito mais
transparente, sabe? Hã, pra mim, isso é
[música suave] As principais formas de
consumir cannabis medicinal são: o óleo,
as cápsulas ou comprimidos, a flor seca,
spray oral, produtos comestíveis, como
pastilhas ou gummies, e produtos tópicos,
que são os cremes ou gel. Assim como
outros tratamentos, a dose e o tipo de
produto são definidos pelo médico e podem
ser ajustados ao longo do acompanhamento
clínico. Ouvintes da SBS que enfrentam
problemas com o uso de substâncias que
causam dependência podem entrar em contato
com a Linha Nacional de Ajuda para Álcool
e Outras Drogas, através do número um
oitocentos duzentos e cinquenta zero
quinze, para obter apoio gratuito e
confidencial vinte e quatro horas por dia,
sete dias por semana. Para maiores
informações, consulte o site da Lifeline,
que é o
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