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Como é envelhecer na Austrália? Portugueses, brasileiros contam como é a vida depois dos 70

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Eugénia Viegas (última ao lado direito, em pé)

Grupo de idosos de expressão portuguesa: alguns dos elementos que se reunem semanalmente em Newtown Neighbourhood Centre. Source: SBS em Português/Carla Guedes


Published 26 June 2022 at 12:06am
By Carla Guedes
Source: SBS

Eugénia Viegas é assistente social ao serviço do departamento multicultural do governo australiano, onde é responsável pelas visitas e apoio domiciliar a familiares de doentes mentais da área de Sydney. Mas, porque diz que lhe “faz bem, bem fazer”, Eugénia é também voluntária no apoio aos idosos de expressão portuguesa. Todas as semanas reúne e anima um grupo sénior no Newton Neighbourhood Centre. E, uma vez por mês, metem-se todos num autocarro e lá vão eles passear juntos. Eugénia ajuda os seus “meninos” - como carinhosamente gosta de os tratar, em tudo o que pode. Eles retribuem a atenção, confessando que “a Eugénia e este grupo de amigos são o melhor” que lhes aconteceu nesta fase da vida “mais solitária e difícil”, especialmente porque estão cá há 40, 50 anos, mas não falam inglês. A SBS em Português passou uma manhã inteira com o grupo e gravou esta experiência única num podcast muito especial.


Published 26 June 2022 at 12:06am
By Carla Guedes
Source: SBS


Eugénia Viegas nasceu em Angola, África, e por lá sobreviveu aos horrores da guerra até se ver obrigada a ir para Portugal com as suas três filhas pequeninas, com “uma mão atrás e outra à frente”, como sucedeu a tantos portugueses e africanos dos anos 70.

Em Portugal encontrou a paz, mas também “muito frio”. E foi para fugir ao clima que veio parar à Austrália há mais de 40 anos, onde teve, entretanto, “a alegria de ganhar 7 netos”.

Hoje, Eugénia trabalha muito. E sempre em prol dos outros, dos seus e daqueles que vai conhecendo na vida e que escolhe ajudar quando vê que pode ser útil de alguma forma.

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Sou mulher feliz e realizada porque me faz bem, bem fazer.

Algumas curiosidades:

  • Eugénia Viegas é assistente social e apoia, voluntariamente, o grupo de idosos da comunidade de expressão portuguesa de Sydney
  • Eugénia organiza os encontros semanais, as passeatas mensais e até as refeições especiais (vai a Petersham buscar o frango no churrasco que todos no grupo adoram)
  • Todas as terças e quintas-feiras este grupo, de mais de 20 idosos, reúne-se no Newton Neighbourhood Centre para conversarem, jogaram às cartas ou ao dominó, pintarem mandalas, contarem anedotas, e comerem uma ´carcaça portuguesa´ou um´pastel de Belém´ acompanhado de um ´cafezinho´
  • O mais velho é o Sr. João que, por pura coincidência, completou 92 anos no dia da visita da SBS em Português 
  • O grupo é constituido por pessoas dos 70 aos 92 anos
  • Já fizeram parte do grupo, idosos angolanos e moçambicanos, mas neste momento são todos portugueses, a maioria da ilha da Madeira, e a D. Idi é a única brasileira (já com 91 anos)
  • São um grupo de idosos muito bem acompanhados pelas suas respetivas famílias, contudo vivem muito isolados dentro das suas casas, enquanto os filhos trabalham e não os conseguem visitar tanto quanto seria desejável para todos
  • Durante a pandemia, o grupo não pode reunir-se, mas a Eugénia fez com que se telefonassem todos os dias, e ela mesma fazia por contactar muitos deles em dias diferentes, procurando saber de uns pelos outros. De volta aos seus encontros regulares, agora que a pandemia está mais controlada, Eugénia garante que estão muito felizes e que quando acaba um encontro vão para casa já a pensar no que virá a seguir.

Há muitos anos que, como voluntária, dedica muito do seu tempo aos idosos da nossa comunidade de expressão portuguesa em Sydney:

“Já tive mais velhotes brasileiros e até africanos neste grupo aqui de Newton. Mas neste momento, os meus ´meninos´ são cerca de 20 e são todos portugueses, à exceção da D. Idi que é brasileira, do Rio de Janeiro”, explica a assistente social.  

Vitalina e Eugénia Viegas, que diz sentir-se "incrivelmente útil e realizada" por dar tanto de si a este seu grupo de idosos a quem carinhosamente trata por "meninos"
Vitalina e Eugénia Viegas, que diz sentir-se "incrivelmente útil e realizada" por apoiar este seu grupo de idosos a quem carinhosamente trata por "meninos". Source: SBS em Português/Carla Guedes


Diz Eugénia que os seus “meninos” têm muita sorte:

Não tenho aqui nenhum idoso que esteja abandonado, que sofra de maus-tratos ou cujos filhos não sejam bonzinhos para eles. Todos aqui têm carinho e apoio em todos os sentidos.
Eugénia sabe que, claro, os maus-tratos a idosos e doentes mentais são uma realidade que “infelizmente, acontece na Austrália, como em qualquer parte do mundo” e até já conheceu um caso “muito complicado e grave” no qual acabou por se envolver.

“Já denunciei um caso gravíssimo de maus-tratos. O meu departamento teve até que me afastar para minha própria segurança. A vítima, infelizmente, já não está entre nós”, explica a assistente social, sem querer entrar em detalhe.

No entanto, Eugénia diz que tem uma boa experiência de trabalho nos lares australianos e que “de uma forma geral, ninguém passa mal... a não ser que perca o norte, que se entregue à bebida por causa de alguma falta de estrutura familiar, e que acabe por ir parar às ruas e a dormir em bancos de jardim”, acrescenta.

No que diz respeito à realidade específica dos idosos da comunidade portuguesa de Sydney, a assistente social diz que o que os nossos “velhinhos” precisam mesmo é de um Centro de Dia:

“Há muitos anos atrás, a comunidade portuguesa reuniu muito dinheiro que estava destinado à construção de um lar de terceira idade. Mas esse dinheiro nunca foi usado até hoje. Simplesmente porque a lei australiana exige que 60% dos utentes sejam oriundos de diversas culturas e etnias”.

“Assim, nunca seria possível conseguir-se um lar restrito à comunidade portuguesa, isto é, que não fosse multicultural”, esclarece Eugénia que acrescenta ainda o seguinte:

Eu ando, há anos, a dizer que o que os nossos velhotes precisam é de um Centro de Dia com pessoal competente e de confiança, onde as famílias os possam deixar para se distraírem durante o dia, para serem bem tratadinhos e não se sentirem nunca sozinhos. Depois à noite, regressariam às suas casas, numa carrinha de serviço.
Maria Gouveia e a sua filha, Judite Olival: portuguesas da ilha da Madeira, e orgulhosas familiares da estrela de futebol, Cristiano Ronaldo
Maria Gouveia e a sua filha, Judite Olival: portuguesas da ilha da Madeira, e orgulhosas familiares da estrela de futebol, Cristiano Ronaldo. Source: SBS em Português/Carla Guedes


Deste seu grupo de idosos, Eugénia sabe cada nome, cada história de vida, como cada um gosta de se distrair, quem prefere jogar ´à bisca´ou pintar mandalas, quem é o mais "rabugento" ou mais tímido, do que cada um precisa.

“Sinto-me feliz a cuidar destes meus amigos porque sei que enquanto estamos aqui juntos, eles não estão sozinhos, metidos em casa e sem distração nenhuma.”

“Os seus filhos fazem o que podem, mas estão a trabalhar e também têm as suas vidas. Podem telefonar-lhes, mas não os podem visitar todos os dias.”

, diz Eugénia que conhece a nossa comunidade de idosos como poucas pessoas em Sydney.

A SBS em Português quis conhecer, pessoalmente, os nossos idosos

Visitámos a Eugénia e o seu grupo de idosos, com quem aprendemos mais em três horas de convívio do que a ler muitos livros dedicados à investigação da terceira idade.

Raríssimos são os casos de pessoas deste grupo que sabem falar inglês, apesar de já estarem todos na Austrália há 30, 40, 50 anos... alguns até há mais tempo.

Isália e Aileda, a jogarem à bisca, uma das atividades preferidas deste grupo de idosos
Isália e Aileda, a jogarem à bisca, uma das atividades preferidas deste grupo de idosos. Source: SBS em Português/Carla Guedes


Partilharam que, quando cá chegaram, foram enquadrados em profissões nas quais passavam o dia em silêncio ou em frente a máquinas e que, por isso, não tiveram nem tempo nem oportunidade de aprender a língua.

As mulheres chegavam para trabalharem em fábricas, na costura, na limpeza, ou simplesmente na lida da casa e a cuidar dos filhos, a quem ensinaram a língua portuguesa que era a única que se falava em família.

Os homens trabalhavam na construção civil, nas minas, na indústria fabril ou noutras profissões que envolviam mais esforço físico do que proporcionavam relação entre colegas.

Com muito valor, força e coragem, formaram as suas famílias, compraram as suas casas e muitos desenvolveram negócios próprios.

Mesmo sem saberem o A-B-C, estes portugueses não morreram, fizeram-se à vida e ainda cá andam.
, como nos disse a D. Vitalina que já cá está há mais de 50 anos e é agora viúva, como tantas das suas amigas neste grupo.

Mas não saber falar inglês é algo que todos, sem exceção, lamentam:

Se a minha cabeça não estivesse já tão esquecida, ainda me metia num curso de inglês. Vejo-me grega para perceber o que me dizem os doutores quando estou doente.
, disse-nos a D. Maria de Freitas que chegou à Austrália há mais de 40 anos e que mesmo, sem “uma palavra de inglês”, criou sete filhos tendo “perdido uma menina de 6 meses, ainda em Portugal”.

Maria de Freitas, assumidamente "muito vaidosa" e também "uma mulher muito feliz desde que chegou à Austrália"
Assumidamente "uma mulher muito vaidosa" e "muito feliz por, um dia, ter vindo da Madeira para a Austrália", Maria de Freitas gosta de pintar mandalas, Source: SBS em Português/Carla Guedes


Por outro lado, se há coisa que todos estes amigos têm em comum é uma grande paixão pela Austrália.

Adoro, adoro, adoro a Austrália. Sempre fui bem tratada aqui. Sou muito feliz neste país.
, expressou a D. Maria na presença das suas amigas, todas da Madeira, que iam acenando com a cabeça que, sim, também elas gostam muito de viver em Down Under.

E é nas suas diferenças, que os “meninos” da Eugénia se encontram e se animam uns aos outros

Descobrimos que a D. Maria Gouveia é prima afastada da estrela de futebol, Cristiano Ronaldo. Contou-nos que ele “sempre foi muito bom rapazinho e que ajuda toda a família e amigos”, sendo que na Madeira ele “é o maior”.

Cantámos os parabéns ao Sr. João que depois de soprar as velas pelos seus incríveis 92 anos (54 dos quais passados na Austrália) ainda teve força para nos contar a história de uma namorada que ainda hoje recorda com carinho, apesar de ter casado com “outra senhora”.

 
O Sr. João, junto de sua filha, a celebrar os seus 92 anos na companhia do seu grupo de amigos do Newton Neighbourhood Centre.
O Sr. João, junto da sua filha, a celebrar os seus 92 anos na companhia do seu grupo de amigos do Newton Neighbourhood Centre. Source: SBS em Português/Carla Guedes
O Sr. João disse-nos ainda que tem uma “memória boa, graças a Deus” e que curou dezenas de animais ao longo da sua vida, pois mesmo nunca tendo sido veterinário “gostava mais de animais e sabia mais sobre eles, do que todos os veterinários que conheceu, juntos”.

Percebemos que a D. Maria de Freitas gosta de vestir ´tigresse´, de pintar o cabelo, de “andar sempre de banhinho tomado e a cheirar a perfume”. Vaidosa e sempre “na brincadeira”, disse-nos ainda que apesar da idade avançada, ainda não perdeu a esperança de arranjar um novo namorado.

A D. Idi é a única brasileira deste grupo de idosos, já conta 91 anos, mas diz sentir-se “fabulosa”, que “ama a Austrália” e que já não espera ir mais ao Brasil “por ser uma viagem muito cansativa”.

Da esquerda para a direita, respetivamente, Sr.Santos, D.Isália, D. Aileda, D. Conceição, Eugénia Viegas (em pé), D.Idi (a única brasileira deste grupo), Sr. Francisco e, lá atrás, o Sr. Luis Prioste
Da esquerda para a direita, respetivamente, Santos, Isália, Aileda, Conceição, Eugénia Viegas (em pé), Idi (a única brasileira do grupo), Francisco e Luis. Source: SBS em Português/Carla Guedes


“Carioca” disse-nos ainda que, embora aprecie o samba, nunca gostou do Carnaval do Rio.

Confessou-nos que, depois de 30 anos na Austrália, alguns dos seus amigos portugueses “torcem o nariz” pelo facto de ela ser de outra cultura e que “eles têm ideias e formas de estar diferentes”.

A D. Idi acrescentou também que sempre adorou as novelas da Globo e que chegou a ver muitas na Austrália. Mas, agora que a idade já é muito avançada, “procura ver só o que começa e acaba no mesmo dia”.

Depois de uma manhã extraordinária com Eugénia Viegas e este seu grupo de idosos de expressão portuguesa, no , recolhemos e editámos, de forma inédita na SBS em Português, muitas destas história de vida, risadas, desabafos e memórias especiais num podcast que pode ouvir clicando na imagem que abre este artigo.

Nota: "Guitarra Portuguesa" é o primeiro álbum de Carlos Paredes, uma edição Valentim de Carvalho de 1967, usado como background neste podcast.

Newton Neighbourhood Centre - o local de encontro dos nossos idosos, todas as semanas.
Newton Neighbourhood Centre - o local de encontro dos nossos idosos, todas as semanas. Source: SBS em Português/Carla Guedes


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