Este fim de semana foi tempo de se escutarem os sons do “Fado Novo” que mistura estilos tradicionais e contemporâneos interpretados por dois conjuntos de Sydney muito importantes para a comunidade portuguesa, na Peach Black Gallery do artista italiano Matteo Bernasconi.

Foram eles os Alma Orquestra , pela voz e violino de Mandie Vieira (australiana, filha de pais portugueses da ilha da Madeira e co-fundadora da banda), apoiada por um grupo de músicos multicultural: a viola foi dedilhada por um australiano, Jeremy Sawkins, e o contrabaixo embalado por um goês, Mervyn Sequeira.
Loretta Palmeiro é a outra co-fundadora dos Alma Orquestra e contribui com o seu saxofone, clarinete e flauta. Esta australiana luso-descendente não pode estar presente neste evento mas o seu nome foi recordado do princípio ao fim do concerto.
As duas bandas de inspiração puramente portuguesa, mas também com sons de África e do Brasil, numa fusão de música clássica e tradicional portuguesa, infundida com elementos de jazz, bossa nova e pop, deixaram toda a plateia a cantarolar e a acompanhar com palmas.
E emocionaram não só os australianos presentes, que iam abanando o pé encantados enquanto bebiam o seu vinho, mas principalmente os familiares de alguns dos músicos que estavam duplamente orgulhosos dos cantores e instrumentistas “do seu sangue” mas também da sua cultura, música e língua.
Hoje, tenho aqui os meus pais, marido e dois filhos, os quais sei que se sentem muito orgulhosos por me verem dar continuidade à cultura portuguesa, mesmo eu tendo nascido na Austrália
, disse Mandie Vieira que é uma fadista e cantora de jazz sobejamente conhecida pela comunidade portuguesa em Sydney, que se estreou na Opera House apenas com quatro anos de idade.
Hoje em dia, Mandie canta em muitos dos eventos culturais mais importantes realizados no seio da comunidade portuguesa, com bandas e músicos variados nomeadamente o guitarrista e também cantor Tony Latino.
Nasci em África do Sul onde acabei por passar também grande parte da minha infância com os meus pais, orgulhosos madeirenses, que sempre se preocuparam em que vivêssemos a nossa cultura através da música, da língua, da gastronomia e, acima de tudo, dos princípios familiares e de conduta que não saem de nós e nos acompanham para onde quer que vamos.

Já o fadista, Ricardo da Silva, que só chegou a Sydney, vindo de Águeda, Portugal, em setembro de 2004, sente que dá hoje mais valor ao fado e à cultura portuguesa do que algum dia deu, antes de ser emigrante:
"A arte corre na minha família há três gerações: o meu avô dedicava-se ao circo, o meu pai cantava, o meu irmão vive exclusivamente da música e eu, só agora na Austrália, é que estou a viver o meu sonho, particularmente o fado que eu sempre adorei. Mas eu não ouvia muito o fado com os meus amigos em Portugal, durante a adolescência, já que Águeda nem sequer tem uma grande tradição fadista".
Quando emigrou, Ricardo, só vinha à procura de uma oportunidade de trabalho na construção civil. Mal sabia ele que seria a trabalhar na área da restauração, mal cá chegou, que o fado entrou na sua vida:
Foi a servir às mesas no restaurante português onde trabalhei quando cá cheguei, que acabei por conhecer um casal português ligado à rádio que me convidou a cantar um fadinho e assim comecei a levar este sonho mais à séria.

Hoje, tanto o Ricardo como a Mandie e a Sónia têm vários projetos musicais de fado e fusão diferentes, nuns tocam juntos como aconteceu nesta noite, noutros compõe, tocam e cantam em registos musicais variados, mas onde procuram sempre cultivar a cultura portuguesa.
Os três artistas portugueses são felizes a animar a comunidade portuguesa na Austrália.
Só durante o confinamento da Covid-19 é que tudo ficou complicado para qualquer um dos três, com concertos cancelados, adiados e até alguns onde acabaram por acabar a noite a contrair o vírus, como nos contou Ricardo:
“Durante a pandemia, nem tudo tem sido fácil. E só agora é que começamos a ter concertos outra vez. Foi complicado e posso até dizer que apanhei Covid no âmbito de um concerto que dei para a comunidade portuguesa. Dias depois percebi que não fui só eu. Várias pessoas que estiveram presentes ficaram doente. Mas isto está a melhorar!”

Para ouvir um pouco da música dos três artistas e das suas bandas, bem como escutar a entrevista que eles deram à SBS em Português, clique no “play” sobre a imagem que abre este artigo.
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