A FRELIMO é o partido sempre no topo do poder em Moçambique, no quase meio século de independência. Em anteriores eleições, já houve denúncias de arranjo de resultados com favorecimento da Frelimo frente ao histórico rival, o partido Renamo. Mas desta vez, a oposição apareceu liderada por uma força nova: Podemos, que inclui algumas dissidências da Renamo e tem como principal figura, Venâncio Mondlane. Bancário de profissão e engenheiro florestal por formação, relevou-se um político carismático, fundador do partido otimista e que gerou uma onda de apoios. Sobretudo por parte da população mais jovem de Moçambique, a candidatura presidencial de Mondlane suscitou natural expectativa.
Havia sinais de apoio que o colocavam como rival sério do candidato Daniel Chapo do partido sempre no poder em Moçambique após a independência, a Frelimo. Mas nos resultados anunciados pela Comissão Eleitoral, Mondlane apenas recebeu 20% dos votos apurados. A oposição moçambicana denunciou de imediato fraude eleitoral, e a missão europeia de observadores internacionais corroborou ter havido irregularidades.
Mondlane emergiu como líder da contestação e convocou períodos de protesto com paralisação da atividade no país. Houve grande adesão e também muitos choques violentos com a polícia e mesmo a tropa. Sabe-se de 130 mortes nestes protestos políticos - a plataforma eleitoral da oposição moçambicana denuncia 3.636 detidos nos protestos e mais de 2 mil feridos, com 385 pessoas baleadas.
A contestação aos resultados oficiais está a passar pela rua, sobretudo em Maputo e em outras cidades, e também pelas instâncias de recurso judicial. A principal suprema, com última palavra institucional: o Conselho Constitucional que na segunda-feira declara o veredito sobre o processo eleitoral que tem estado a analisar.
Há um alerta de Mondlane: o que o Conselho Constitucional determinar pela boca da Presidente, no dia 23 de dezembro, vai conduzir a que Moçambique avance para a paz ou o país avance para o caos. Esta declaração é de agora, numa entrevista coletiva promovida pelo Renovar a Europa, grupo liberal no Parlamento Europeu.
Mondlane falou à distância em audioconferência. Foi explicado que, por motivo de segurança, não é revelado onde está neste momento – presume-se que em espera, numa cidade europeia. Por isso mesmo, esta entrevista digital teve a voz, mas não o rosto de Mondlane (a imagem escolhida para o representar foi a da bandeira de Moçambique).
Mondlane teme que depois de segunda-feira, Moçambique se precipite no abismo. Não está otimista, pelo contrário. Nesta entrevista coletiva, Mondlane ousou muito falar em língua inglesa, a pensar nos jornalistas estrangeiros. E foi assim, em inglês, que, em resposta a uma pergunta nossa, disse estar convencido de que o que está a notar é a vontade do presidente cessante, Nyusi, na sequência do imbróglio eleitoral, continuar no poder, como presidente da República de Moçambique.
Pedimos-lhe também para responder em português e Mondlane respondeu não saber de qualquer esforço de mediação por parte de Portugal. Elogiou as posições do BE e da IL - de rejeição dos resultados eleitorais -, e notou como positivo que desta vez a CPLP não se tenha apressado a saudar o candidato anunciado como vencedor.
A Igreja Católica moçambicana, através dos bispos, está a contestar os resultados oficiais anunciados destas eleições e denuncia resultados viciados. Mondlane elogia a posição da Igreja Católica, sendo de recordar que, em 1992, foi a mediação da Igreja Católica, ao lado da comunidade laica de Sant'Egidio, quem, através do agora cardeal Matteo Zuppi, conduziu as negociações para as que levaram ao fim da guerra civil moçambicana. Agora, outra vez, esforços da Igreja.
Por agora, Moçambique em tensa espera pelo anúncio do Conselho Constitucional na próxima segunda-feira. Mondlane avisa: é a paz ou o precipício.




