SBS Portuguese conversou com Thiago Nascimento da Silva, professor de políticas comparadas da Escola de Ciências Políticas e Relações Internacionais da Australian National University, em Camberra.
Desde a diferença entre o sistema governamental presidencial e o parlamentar, aos diversos formatos eleitorais como voto direto no Brasil, ou voto de representação como nos sistemas parlamentares, ou majoritário como nos EUA, as lideranças escolhidas direta ou indiretamente pelos povos de cada nação ditam o rumo, não apenas do país que votou, mas influência todas as transições internacionais com os países vizinhos e globalmente dependendo da sua relevância econômica.
Cenário global eleitoral

Começando pela América do Sul, a recente eleição na Venezuela, a possível mudança de governo do Partido Socialista Unido da Venezuela, que está no poder há 25 anos, desde Hugo Chávez até os atuais 11 anos com Nicolás Maduro, poderia impactar não apenas os venezuelanos no país, mas o
mais de 8 milhões de deslocados, refugiados e migrantes que se encontram em outros países.
O professor Thiago lembra que as atuais eleições venezuelanas são marcadas por “frequente falta de transparência, repressão a opositores políticos, controle dos meios de comunicação e o uso das forças do estado para beneficiar os partidos no poder”.
Subindo para a América do Norte, entre as democracias presidencialistas, apenas os Estados Unidos da América usam um sistema indireto de voto, onde presidente e vice-presidente são eleitos em 5 de novembro de 2024.
Já na Europa, a França tem um sistema semipresidencialista, que em 07 de julho foram eleitos 577 membros para o parlamento atual em uma eleição convocada pelo atual governo, onde a maioria da esquerda do partido trabalhista Frente Popular (Front Populaire) com 66% dos assentos. As eleições presidenciais francesas acontecem em 2027, onde Emmanuel Macron pode ser reeleito para seu terceiro mandato.
No Reino Unido, eleições parlamentares também foram antecipadas em 4 de julho, convocadas pelo líder conservador Rishi Sunak. Mas, diferentemente da França, em que o governo que convocou as eleições se confirmou nas votações. Na Inglaterra, o primeiro-ministro conservador perdeu seu lugar para a esquerda trabalhista de Keir Starmer.
Essas convocações para eleições parlamentares podem acontecer por vários motivos, como um voto de desconfiança, um empasse político, ou uma decisão estratégica do governo para conseguir mais cadeiras. O que parece foi o caso do Reino Unido, mas diferente da França, o líder que convocou as eleições acabou perdendo o postoThiago Nascimento da Silva, professor de políticas comparadas da Escola de Ciências Políticas e Relações Internacionais da Australian National University, em Camberra
Na Ásia, a Índia teve a maior eleição parlamentar do mundo após mais de seis semanas, com 44 dias de votação e sete fases, começando em abril e se encerrando em junho, com 642 milhões de eleitores foram às urnas, reelegendo o primeiro-ministro de direita Narendra Modi, no qual ocupa o cardo desde 2014, seguindo para o seu terceiro mandato.
Após passarmos pelas Américas, Europa, Ásia e Oriente Médio, as eleições no Irã também foram convocadas, mas essa foi devido à morte do ex-presidente Ebrahim Raisi. Em menos de 50 dias, o Irã passou de um presidente linha-dura e antiocidental para um presidente reformista, sem que ninguém previsse, Masoud Pezeshkian, eleito em 6 de julho
Governos parlamentarista, presidencialista e semipresidencialista.

Entre as principais diferenças entre um sistema de governo presidencialista e parlamentarista, Thiago explica que está na forma de democracia.
Thiago explica que, no caso do Irã, seria uma teocracia. Mas os demais governos podemos classificar como parlamentarista, presidencialista ou semipresidencialista. Nas democracias parlamentaristas, o governo depende de uma maioria legislativa no parlamento para se manter no poder.
Nesse caso, o chefe do executivo, normalmente chamado de primeiro-ministro, não é eleito diretamente pelo cidadão, mas sim nomeado pelos membros do parlamento e sobrevive no poder enquanto tiver a maioria do legislativo, sem tempo de mandato pré-determinado.
“Esse é o sistema mais presente em países europeus, mas também está presente na Índia e é o sistema de governo na Austrália”, diz o professor Nascimento da Silva, de políticas comparadas.
Nas democracias presidencialistas, o governo não depende de uma maioria parlamentarista para estar no poder. O chefe do executivo, na figura do presidente, é normalmente eleito por voto direto.
Com exceção dos EUA, que adotam o sistema de colégio eleitoral. A pessoa escolhida pelo voto direto como presidente, diferente de um primeiro-ministro, tem tempo de mandado pré-definido de normalmente quatro a cinco anos. Também no formato presidencialista, pode haver um sistema com apenas dois partidos, como o caso dos EUA, ou multipartidário, como no BrasilExplica o professor Thiago Nascimento da Silva.
Já o sistema semipresidencialista, o governo depende de uma maioria no parlamento para sobreviver no poder, mas o chefe de estado, o presidente, é eleito separadamente por voto direto do povo.
Como a França, onde o presidente é o representante do país para cerimônias e internacionalmente, e o primeiro-ministro é o chefe de governo, que lidera o grupo de ministros e é comumente o chefe do partido majoritário.
Na Austrália

A Austrália segue um sistema parlamentar, onde o chefe do partido com maioria de votos se torna o primeiro-ministro do Estado. Mas, diferente de outras democracias similares, o voto é compulsório na Austrália (assim como no Brasil).
O sistema eleitoral australiano é por “voto preferencial”, onde o cidadão terá que "ranquear" todos os partidos, já com seus representantes escolhidos pelos partidos, no dia da votação. Ou seja, o eleitor vota em todos os partidos, mas classifica qual/quem é a sua preferência, um, dois, três e consequentemente. Os partidos com menos votos têm os votos transferidos para o mais votado.
O que acontece na Índia e na China não fica apenas na Ásia.

Thiago explica que outros dois polos eleitorais que chamam a atenção do mundo são Índia e China pela influência econômica que essas duas potências de mão de obra têm não só com países em desenvolvimento como o Brasil, mas com países desenvolvidos como a Austrália e Estados Unidos.
Votações em países como Índia e China impactam diretamente países com grande dependência econômica dessas nações, como a própria Austrália.Diz, Thiago Nascimento
Por maior que seja a intenção de países como a Austrália de diminuir as relações econômicas entre esses dois polos industriais globais, o fator migração já faz parte do quantitativo, onde grande parte da mão de obra nos países desenvolvidos, além dos produtos, também vem da Ásia.
“E as decisões que esses dois países tomam, afetam diretamente países como Brasil, EUA, Austrália e qualquer caminho que esses dois governos decidirem ter de abrir ou fechar mais seus mercados, impacta diretamente muitas economias.”
Eleições americanas

O professor lembra que as eleições americanas tomam a atenção do mundo há muito tempo por sua relevância econômica, militar e cultural. Que, apesar das reviravoltas das eleições de 2024, essa tensão entre candidatos e partidos é parte do jogo político americano.
“Donald Trump vem, ao decorrer dos anos, conseguindo manter uma base fiel à sua proposta de governo. E incidentes como o recente atentado de assassinato do ex-presidente geram uma onda de simpatia e o aumento de notícias. O seu maior desafio é conseguir votos além dessa base fiel, e alcançar eleitores independentes”, explica Thiago.
Do outro lado, a chegada da vice-presidente, Kamala Harris, deixa o cenário mais interessante do ponto de vista de adicionar uma figura que traga temas de inclusão e inovação, diferente de um padrão mais tradicional americano que o Biden representava.
“A Kamala enfrenta a tarefa de consolidar a transferência de votos de Biden para ela, e unificar os votos democratas atualmente divididos entre progressistas e centristas.”
Polarização política
“As divisões (políticas) parecem ter se tornado mais profundas nos últimos anos. Os eleitores parecem se comportar mais como torcedores do que cidadãos que avaliam políticas.”
Thiago pontua que a mídia e as redes sociais parecem ter potencializado essas diferenças de políticas, criando bolhas de opiniões e notícias que reforçam a crença do indivíduo e diminui a capacidade de diálogo entre os diferentes, gerando uma polarização afetiva,
Polarização afetiva é onde os indivíduos com suas preferências políticas desenvolvem sentimentos negativos intensos um pelos outros, resultando uma hostilidade que vai além da divergência política.Explica o cientista político, Thiago Nascimento
Mas o professor é otimista, e acredita que a história mostra que os povos têm capacidade de se harmonizar, mesmo após crises, como a unificação da Europa após a Segunda Guerra. “Todos esses fatores demonstram a importância de se interessar pela política”, enfatiza Thiago.

Ouça a entrevista completa no 'play' desta página, ou ouça no perfil da SBS Portuguese na sua plataforma de podcasts preferida.
Siga a SBS em Português no Facebook, Twitter, Instagram e ouça os nossos podcasts. Escute a SBS em Português às quartas-feiras e domingos.
Pode também fazer o download gratuito do aplicativo SBS Audio e siga SBS Portuguese. Usuários de iPhone – baixe o aplicativo aqui na App Store. Usuários de Android – baixe o aplicativo aqui no Google Play.




